OPINIÃO

A remodelação do mundo: consequências para a sociedade, política e negócios

28/01/2014 19:02 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

A orientação estratégica da sociedade em função de tendências, fatores e oportunidades, que vêm empurrando as transformações globais e regionais, invés de a organização por crise, que historicamente condicionaram a organização da sociedade, regeu a pauta da reunião do World Economic Forum, WEF, deste ano. O título deste artigo foi copiado da pauta deste encontro de líderes globais que ocorreu em Davos, entre os dias 22 e 25 deste mês. Isso com a esperança de que seja um sinal auspicioso de que as profundas forças políticas, econômicas e sociais desencadeadas pela revolução tecnológica que estamos sofrendo (e o consequente processo de mudança do poder de hierarquias tradicionais para hierarquias em rede) entrem definitivamente na pauta das lideranças globais.

Na véspera desta reunião, corria a notícia de que 85 pessoas detêm mais renda do que 50% da humanidade e que o mundo perdeu 62 milhões de empregos desde 2008. Tendemos a considerar que isso foi consequência da crise financeira que estourou neste ano. Não é verdade. Esta crise pode ter acelerado este movimento, que em termos profundos é consequência da revolução tecnológica, especialmente no âmbito das TICs, que sofremos há dezenas de anos e a forma como a maior parte das elites econômicas, financeiras, políticas e intelectuais têm compreendido e se posicionado em relação à consequente liberalização financeira, como apontou recentemente Martin Wolf, no artigo Failing elites threaten our future, em seu blog no Financial Times

Existe algum paradigma, alguma visão para a Humanidade?

alvin toffler

Vivemos uma crise global. O Estado nacional, os partidos políticos, as instituições que regulamentam as relações globais ficaram velhos para os desafios que tempos pela frente. A globalização, predicava Nicholas Negroponte anos atrás, privilegia antes de tudo o 'glocal'. E argumentava: 'Hoje, é óbvia a tendência de a internet modificar o papel que as pessoas exercem, mesclando a separação entre vendedor e consumidor, entre editor e leitor. Todas as coisas digitais são grandes e pequenas ao mesmo tempo - um paradoxo, não uma contradição. Redes descentralizadas irão substituir hierarquias, e os controles centrais serão substituídos por sistemas auto-organizáveis que se parecerão muito mais com a relação entre o homem e a natureza do que com relações institucionais.'

A cultura, e consequente organização social, política e econômica dominante na sociedade contemporânea, ainda é aquela que começou a nascer no século 16, quando um conjunto de inovações tecnológicas num contexto histórico favorável contribuiu para o início do enterro do Antigo Regime, no qual a Terra estava no centro do universo, a ordem social era imutável e a Igreja, junto com o poder absolutista, tinha o monopólio da informação.

A prensa de Gutenberg estava entre as inovações tecnológicas que contribuíram para a ascensão do mundo burguês. E os seus principais produtos - o livro e o jornal - foram entendidos durante muitos anos pela ordem dominante como ferramentas subversivas. Esta subversão gestou e gerou o mundo em que vivemos. Um mundo onde a iniquidade social ainda incomoda e assusta, mas no qual todas as barreiras para a geração de riqueza e de conhecimento foram derrubadas, num processo que também gerou a onda de inovação que estamos vivendo e a possibilidade de darmos o próximo salto.

Pela primeira vez na história desde a revolução industrial, como nota Yochai Benkler, os meios básicos de criação de informação, conhecimento e cultura estão nas mãos da maioria da população do planeta. Nos últimos anos ocorreu uma radical descentralização destes meios. Com isso, tivemos uma radical descentralização dos processos de inovação, tivemos grande descentralização da criatividade, tivemos uma radical descentralização da participação democrática. As regras do jogo mudaram, como nota Yochai Benckler.

Os tremendos e revolucionários impactos da internet na sociedade

É este contexto que, apesar do processo de consolidação da velha economia, me faz ser otimista em relação a um futuro que não vou ver. E especialmente em relação ao Brasil. Somos um país continental, sofremos colonização de todas as partes do mundo e soubemos nos abrir a este processo miscigenando raças e culturas de uma forma razoavelmente harmônica. Vivemos nas grandes cidades, que estão no olho do furacão, tensos com o início desta revolução promovida pela internet, a web, a rede. Tensos com a imaturidade do processo e o conflito entre o novo e o velho, entre a economia industrial e a nova economia, que até pouco tempo destruiu empregos no chão de fábrica e agora em setores que usam a inteligência: jornalismo, medicina, advocacia, educação etc. Na verdade, trata-se do mesmo processo econômico: o revigoramento dos processos antigos depende da economia digital, da economia social, que não existiria não fosse os processos da era industrial.

Se o processo não for abortado ou atrasado pelas empresas de telecomunicações, que têm o monopólio do acesso à nova infraestrutura da sociedade, vamos criar com certeza um novo mundo, com novos fundamentos e referências sobre a relação capital trabalho, novos fundamentos e referências sobre os processos políticos, novos fundamentos e referências sobre os processos de produção de informação, conhecimento, cultura, bens de consumo e riqueza.

O desafio transcende as lideranças mundiais e fóruns como o de Davos. A revolução tecnológica que viemos colocou o indivíduo no centro do processo de informação, comunicação e articulação da sociedade. Num mundo que a cada dia ganha maiores índices de complexidade e fragmentação atuar de forma isolada com uma ou outra destas mídias é inócuo. Indivíduos, profissionais e empresas que atuam com propriedade e objetividade no novo ecossistema da informação vêm avançando na construção de suas multiplataformas com o conjunto de ferramentas que lhes parecem mais apropriadas para seus objetivos.

A tendência tecnológica é reforçada pela demanda da sociedade. A tecnologia, suas ferramentas e processos vão contribuir para dar vazão às necessidades de uma sociedade muito mais complexa e fragmentada da que foi regida pelas tecnologias da era industrial. Esta percepção já é latente na sociedade contemporânea atônita com o contexto e surpreendida pelos novos processos da informação, comunicação e articulação num mundo em profunda transformação.

Neste contexto e neste texto, dou as boas vindas ao Brasil Post, e manifesto minha esperança de que as elites globais despertem o quanto antes; o custo de repor o trem nos trilhos será menor.