OPINIÃO

Brexit é exemplo do que o avanço do conservadorismo é capaz de fazer

27/06/2016 12:36 -03 | Atualizado 27/06/2016 12:36 -03
ASSOCIATED PRESS
Britain's Prime Minister David Cameron turns away after speaking to the media in front of 10 Downing Street, London, Friday, June, 24, 2016, where he announced he will resign by the time of the Conservative Party conference in the autumn, following the result of the EU referendum, in which the Britain voted to leave the EU. (AP Photo/Alastair Grant)

O povo britânico foi às urnas e, numa votação acirrada, decidiu se desligar da União Europeia. Embora o parlamento britânico ainda precise aprovar a saída do bloco, o plebiscito cria uma situação inédita para a organização, que pela primeira vez poderá perder um de seus membros - com o agravante de ser uma das principais economias do continente.

Uma das possíveis explicações para a vitória do Brexit é o crescimento do pensamento conservador e nacionalista, que não afeta apenas a Inglaterra, mas sim países de toda a Europa, principalmente por conta dos efeitos da crise econômica e, também, da recente questão envolvendo o aumento no número de refugiados que pedem asilo na região. Já é possível prever que partidos conservadores de outros países europeus - que comemoraram a vitória do Brexit - também vão propor votações semelhantes.

Caso isso realmente ocorra, corremos o risco de acompanhar a gradativa e melancólica fragmentação do bloco, causando um retrocesso a todo o esforço político e econômico de integração regional, que começou ainda com a criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço e da Comunidade Comum Europeia, na década de 1950, e que depois dariam origem à União Europeia em 1993.

É inegável que o conservadorismo da vitória do Brexit está ligado diretamente aos dois fenômenos citados anteriormente. O primeiro, a crise econômica, desencadeou uma série de problemas em território europeu. Diversos países, como Espanha, Portugal e Grécia, viram sua economia desacelerar, ao passo que os índices de desemprego cresciam e os investimentos estrangeiros minguavam. Diante disso, partidos conservadores ganharam adesão do eleitorado com fortes discursos nacionalistas, o que levou a um aumento de participação em diversos parlamentos da Europa.

O outro fator, a crise dos refugiados, ganhou destaque na imprensa européia principalmente a partir do ano passado. Os países do continente começaram a receber grandes contingentes de pessoas em fuga da guerra civil da Síria, por exemplo, que buscavam asilo em lugares como Grécia, Alemanha e a própria Inglaterra. O aumento da população desses Estados, somado ao crescimento do desemprego, pode ajudar a compreender como parte dos europeus passou a defender uma via conservadora para lidar com a questão.

O problema é que decisões como a vitória do Brexit têm efeitos sistêmicos. Por mais que pareça apenas uma decisão isolada da população britânica, é possível prever que movimentos nacionalistas de outros países conservadores usem esse fato como combustível para lutar pela desvinculação do bloco. Sem a Inglaterra, um dos principais mercados do continente, a União Europeia perde fôlego, o que abre precedente para que Estados de menor expressão também optem pela saída.

Se projetarmos o problema para fora da Europa, podemos compreender o quanto a decisão de ontem pode agravar ainda mais a crise econômica global. No dia seguinte à vitória do Brexit, o mercado reagiu mal e as bolsas de valores de todo o mundo despencaram, ao mesmo tempo em que a libra sofreu uma desvalorização histórica, atingindo a menor cotação em cerca de 30 anos. Fora isso, o crescimento do pensamento nacionalista pode afetar, inclusive, os empresários que possuem negócios com a Inglaterra e com outros países do continente.

O conservadorismo pode, mesmo em curto prazo, resultar na adoção de políticas protecionistas à indústria local, como forma de defender as marcas e os produtos europeus, com a justificativa de que esse tipo de medida seria benéfica até mesmo para a manutenção de postos de trabalho. Entretanto, seria uma reversão a anos de boas relações econômicas com países de todo o mundo.

Toda essa crise na zona do euro também vai, possivelmente, afugentar os investidores estrangeiros, que perderão parte do interesse no mercado europeu e devem buscar alternativas em outras regiões.

Além das multinacionais, as empresas do setor de turismo também podem perder mercado, uma vez que o eventual desligamento da Inglaterra do restante da União Europeia fará com que os turistas se submetam às regras de imigração britânicas, e não mais às normas estabelecidas pela União Europeia.

Por fim, é fundamental observarmos que uma turbulência política grave já se desenha, tanto dentro quanto fora do Reino Unido. O primeiro passo foi a queda do premiê David Cameron, contrário à Brexit, crítico dos grupos ultraconservadores vitoriosos e defensor da ideia de maior integração na Europa. Fora da Inglaterra, chefes de Estado se preocupam justamente com a possibilidade de convocação de plebiscitos semelhantes. A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, François Hollande, se pronunciaram de forma ríspida em relação à votação britânica, e clamaram por união.

Ainda é necessário aguardar a decisão do parlamento britânico para podermos medir de forma mais adequada os riscos do Brexit, porém, já é possível estimar que a União Europeia enfrentará a crise mais grave de sua história - e, dependendo dos rumos que seguir, poderá ser uma crise terminal.

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