OPINIÃO

Zeitgeist: a comunicação como reflexo do nosso tempo

11/12/2014 17:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
Tara Moore via Getty Images

Quando foi sabido pelo reino, como el Rei recebera de Dona Lionor por sua mulher, e lhe beijaram a mão todos por Rainha, foi o povo de tal feito mui maravilhado, muito mais que da primeira.

O trecho acima, retirado de uma crônica escrita por Fernão Lopes no século XV, exemplifica bem o título desse post: tudo aquilo que produzimos, seja na forma de texto, música ou artes em geral, está diretamente relacionado ao seu tempo. Por mais incompreensível que a passagem acima pareça hoje para nós, para os portugueses dos anos 1400 ela era clara e de fácil entendimento. Para esses lusitanos, difícil seria entender uma fala no "internetês" da atualidade, cheio de "vc", "blz" e "vlw".

Pensando na forma como a comunicação se apresenta hoje, um ponto chama a atenção: ela está mais curta, direta e muito mais objetiva. Exemplo disso é o sucesso de microblogs, como o Twitter, como meios de comunicação das massas. Se você tem 140 caracteres para expressar algo, não há espaço para redundâncias, floreios ou palavras desnecessárias - a precisão deve ser cirúrgica.

Para uma pessoa totalmente desconectada, que não passeou pela rede nos últimos anos, ao ler o parágrafo acima poderia pensar que isso significa que as pessoas estão economizando na comunicação - mas é justamente o oposto disso. Nunca se falou tanto, nunca nos posicionamos tanto, nunca nos expusemos tanto (para o bem ou para mal, diga-se de passagem). O "pulo do gato" é que agora eu posso ler a parte e o todo - um tuíte precisa se bastar no entendimento do público, mas nada impede que seja desenvolvida uma série deles sobre um mesmo assunto. Em outras palavras, é como aqueles pacotinhos de bolacha que vêm embalados individualmente: posso comer um, mas se a minha fome for maior, nada me impede de consumir o segundo ou o terceiro. Sem desperdícios.

E essa objetividade, essa nova relação com o tempo e com a forma como o emissor da mensagem deve prender a atenção do receptor, também pode ser observada na maneira como a educação, principalmente quando mediada por alguma tecnologia (cursos a distância, por exemplo), é oferecida. Cada vez mais recorrentes são peças curtas que funcionam tanto individualmente quanto dentro de um bloco temático - e isso não significa que o conteúdo esteja caminhando para uma superficialidade indesejada, mas sim que hoje se espera que ele venha no tamanho exato da minha fome por conhecimento naquele momento. Mais que isso: para ser efetiva, a comunicação necessariamente precisa fazer sentido não só para quem a escreve ou fala, mas também para quem a receberá.

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