OPINIÃO

Como a batata transformou o mundo

23/02/2015 22:12 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02

Nunca houve nobreza na batata. Quando os espanhóis conquistaram a América Latina e levaram a iguaria ao velho mundo, direto da mesa dos Incas, seu aspecto mal formado repeliu o interesse das pessoas, que acreditavam que a aparência de uma planta era uma indicação das doenças que ela podia causar ou curar (por parecer com as mãos de um leproso, logo espalhou-se que comê-la causava lepra). A aceitação das batatas, importadas do novo mundo, também enfrentou o fato de que elas não estavam presentes na Bíblia, o que indiretamente atestava que talvez não houvesse propósito em enxergá-las como algo a ser digerido (vale lembrar que antes de desbravar a América Latina, os europeus também desconheciam o tomate, o feijão, o milho, o cacau e o maracujá).

No início, a aristocracia europeia admirava as flores das plantas - Maria Antonieta as admirava tanto que chegou a adornar seus cabelos com flores de batata, enquanto seu marido, Luís XVI, andava com uma presa à lapela -, mas os tubérculos eram considerados alimentos somente para porcos e pessoas muito pobres. Como um alimento necessário nas grandes e degradantes viagens dos navegadores, ajudando a combater o escorbuto, logo espalhou-se pela Índia, China e Japão. Mas a história da batata - que possui todos os nutrientes essenciais, exceto as vitaminas A e D, que podem ser fornecidas pelo leite - mudaria somente a partir das ameaças de inanição que permeavam a Europa no século dezoito, obrigando as pessoas a colocar seus preconceitos de lado.

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Baudel cita quarenta longos períodos de fome na França entre 1500 e 1778, mais do que um por década. E a França não era exceção - a Inglaterra teve dezessete entre 1523 e 1623; Florença, uma cidade desenvolvida, teve sete anos maus de colheita para cada ano próspero entre 1371 e 1791. Em 1709, as condições climáticas, responsáveis pela fome, eram tão ruins na França que um padre em Angers, no centro-oeste do país, escreveu:

"O frio começou em 6 de janeiro de 1709, e durou em todo o seu rigor até o vigésimo quarto dia. As culturas que tinham sido plantadas foram completamente destruídas. A maioria das galinhas morreram de frio, como os animais nos estábulos. Muitas aves, patos, perdizes, galinholas e melros morreram e foram encontrados nas estradas, na espessura dos gelos e das neves freqüentes."

No ano seguinte, a fome deu as caras na Prússia, onde dizimaria 250 mil pessoas, o equivalente a mais de 40% da população.

Em pouco tempo, a batata ganharia a simpatia de largos grupos. Frederico o Grande, da Prússia, distribuiu um manual em 1740 que explicava como cultivá-la - e com ele, batatas-sementes para combater a inanição. Soldados austríacos que lutaram na Prússia durante a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), testemunhando como as batatas sustentavam a população local, passaram a defender seu cultivo na volta para casa. Na Áustria, camponeses foram ameaçados com quarenta chicotadas caso se recusassem a plantá-las nos períodos de fome. O cientista francês Antoine Parmentier, que serviu como farmacêutico no exército de seu país durante a Guerra dos Sete Anos, foi capturado pelos prussianos e passou três anos na prisão, obrigado a comer batatas todos os dias. Parmentier concluiu que elas eram um alimento nutritivo e tornou-se um combatente defensor de seu consumo em sua volta para a França, através da obra Examen chymique des pommes de terre.

A batata havia se tornado um capítulo a parte na história do mundo. Quando o economista Arthur Young viajou ao leste da Inglaterra, na década de 1760, testemunhou um mundo rural que em pouco tempo seria drasticamente modificado. Segundo suas estimativas, a produção média anual de um acre de trigo, cevada e aveia na região, girava entre 580 e 680 quilos - um acre de batateira produzia mais de 11 mil quilos, cerca de 18 vezes mais. Uma vez tão produtivas, o resultado das plantações de batata, em termos de calorias, se transformaria na duplicação da disponibilidade alimentar europeia.

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Adam Smith ficou impressionado ao perceber que os irlandeses continuavam saudáveis com suas dietas de batata, apesar de comerem menos que os ingleses. Em A Riqueza das Nações, em 1776, profetizara:

"Caso essa raiz se tornasse um dia, em qualquer parte da Europa, o que é o arroz em algumas regiões arrozeiras, o alimento vegetal comum e favorito do povo, de modo a ocupar a mesma proporção de terras cultivadas que o trigo e outros tipos de grãos para a alimentação humana ocupam hoje, a mesma quantidade de terra sustentaria um número muito maior de pessoas e a população aumentaria."

O britânico The Times, em julho de 1795, indicava, anexo às receitas de sopa de batata e de pão de milho e batata:

"A solução para a falta de grãos para a nossa população crescente é simples. Os pobres devem adotar a dieta de Lancashire, com as suas batatas abundantes e mingau de aveia. Além disso, os pobres podem comer uma sopa de água com batatas. Se um pão é necessário, um pouco de milho e batatas é ao mesmo tempo agradável e nutritivo."

Logo, a batata permitiria que as mulheres se tornassem mais férteis, que as taxas de natalidade crescessem e a mortalidade infantil diminuísse. Após 1700, ela seria a principal responsável ​​por um aumento de 65% da população da Europa Ocidental - os irlandeses, que consumiam batatas mais do que ninguém, testemunharam o maior aumento, de cerca de 1,5 milhões de habitantes, no início do século dezessete, para cerca de 8,5 milhões dois séculos depois (a contaminação do fungo Phytophthora infestans nas colheitas não deixaria outra opção para a Irlanda além da An Gorta Mór, a Grande Fome, que entre 1845 e 1849 reduziu a população do país entre 20% e 25%). Cerca de 40% dos irlandeses não ingeriam outro alimento sólido - o número situava-se entre 10% e 30% na Bélgica, Prússia e nos Países Baixos. A fome habitual desapareceu quase por completo na região. A safra anual de batata na França subiu de 21 milhões de hectolitros em 1815 para 117 milhões em 1840, permitindo um crescimento da população ao mesmo tempo que evitava a armadilha malthusiana. E o cenário se repetia por toda Europa Ocidental - a população britânica triplicaria entre 1750 e 1850; Espanha e Itália viram suas populações quase dobrarem durante o século dezoito.

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Em 1853, um escultor chamado Andres Friedrich, de Alsácia, divisa da França com a Alemanha, esculpiu uma estátua em homenagem ao navegador Sir Francis Drake no centro de Offenburg, uma pequena cidade no sudoeste alemão. Na mão direita de Drake, uma batata. Proclamava a base:

Difusor da batata na Europa

no ano da Graça de Nosso Senhor de 1586.

Milhões de pessoas

que cultivam a terra

abençoam a sua memória imortal.

Drake não introduziu a batata na Europa, mas isso pouco importava.

Melhor alimentados, graças à batata os europeus tornaram-se mais saudáveis e resistentes a doenças. Não por acaso, para Engels, a batata era igual ao ferro por seu "papel historicamente revolucionário". Logo, ela transformaria definitivamente o mundo possibilitando o surgimento da Revolução Industrial. Sem as batatas alimentando os trabalhadores nas primeiras décadas do século dezenove e liberando a mão-de-obra para outras atividades além da produção de alimentos, provavelmente a Grã-Bretanha não testemunharia o apogeu das fábricas; ao menos não na velocidade que a História registraria.

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E os efeitos da batata não terminariam por aí. Indiretamente, graças à Grande Fome irlandesa, ela também impulsionaria o repelimento das protecionistas Leis dos Grãos, que desde 1689 encarecia o preço dos grãos no Reino Unido e restringia o poder aquisitivo das classes menos favorecidas, contra a competição de importações estrangeiras mais baratas (o protecionismo das Leis dos Grãos, duramente combatido pela liberal Anti-Corn Law League, levaria à fundação da revista The Economist, em 1843, mas essa é outra história). A queda das Corn Laws, em 1846, marca um avanço simbólico da derrocada do mercantilismo e da ascensão do livre comércio na economia britânica. A batata, portanto, está entrelaçada com o desenvolvimento econômico e agrário, a Revolução Industrial, a liberalização do comércio e a globalização. Nada mal para uma planta vista com tamanho desdém no início do século dezessete.

Não é exagero afirmar que a batata talvez seja o alimento mais revolucionário já colhido pela humanidade - assim como é difícil não dar parte dos créditos a ela pelo surgimento das máquinas à vapor aos microprocessadores. Sanando a fome, ela trouxe estabilidade. Alimentando a Europa, ela ascendeu o Ocidente. Impulsionando os padrões de vida do velho continente, ela transformou o mundo.