OPINIÃO

5 motivos para você assistir a Leviatã, o filme que está colocando a Rússia de cabeça para baixo

02/02/2015 14:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
divulgação

Ambientado no vilarejo de Teriberka, no Mar de Barents, uma pequena cidade ao norte da Rússia, Leviatã narra a história trágica de um homem simples, Kolya, que vê sua propriedade tomada impiedosamente por um político local. Ali, onde também funciona sua oficina, a prefeitura pretende fazer um empreendimento e, para isso, quer confiscar o terreno. À medida que luta pela soberania de sua própria vida, feito uma versão moderna de Jó no reino de Putin, Kolya segue seu caminho pré-determinado pelas garras do aparato estatal - mas não se engane, ao contrário da história bíblica, aqui não há salvação. Zvyagintsev, o diretor da obra, afirma que a inspiração do filme é a história de John Marvin Heemeyer, um soldador americano, dono de uma oficina mecânica, que, depois de perder uma disputa de zoneamento, em 2004, demoliu a prefeitura da cidade, a casa do prefeito e outras edificações, antes de se matar. Zvyagintsev disse também que a crítica diz respeito a um tema universal: a luta contra o abuso de autoridades. A Rússia de Putin é o cenário ideal de uma obra que poderia ter como background qualquer lugar do planeta.

Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes, do Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro - o primeiro que a Rússia leva desde 1969 - e favoritíssimo a levar a mesma categoria no Oscar desse ano, Leviatã gerou escassas menções na imprensa do país, comprometida em apoiar o projeto nacionalista de Putin, mas vem ganhado o mundo, gerando aplausos e elogios contundentes pelos festivais por onde passa.

Nunca ouviu falar? Não tem problema. Tenho 5 bons motivos pra você não deixar de assisti-lo.

1. O filme é um retrato fiel do Leviatã.

Foi o britânico Thomas Hobbes quem se utilizou da figura mitológica do Leviatã - o monstro marítimo retratado no livro de Jó, bastante comum no imaginário dos navegantes europeus da Idade Média - para definir o Estado: soberano, absoluto, imponente, aquele que tira os homens de sua natureza selvagem e os força a viver em sociedade.

No filme de Andrey Zvyagintsev, vemos um retrato fiel de um monstro desgovernado e impiedoso, embriagado pelo seu próprio poder. Kolya, tal qual um Dom Quixote enfrentando moinhos, perde o completo sentido de sua existência à medida que é engolido pelos tentáculos do poder local. O Leviatã, um monstro invencível antes criado para civilizar, é programado para entrega-lo à mais abjeta selvageria.

2. O governo russo abominou.

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Se há uma instituição incomodada com a existência da obra de Zvyagintsev, ela atende pelo nome e sobrenome de governo russo.

"Esta não parece ser uma história russa. É um tema universal que poderia se passar em qualquer lugar do mundo. Por mais que os autores tenham feito os protagonistas dizerem palavrões e beberem litros de vodca, isto não a torna uma história russa", afirmou o ministro da Cultura, Vladimir Medinski. "O filme não está somente concentrado em criticar o poder, mas em cuspir nele. Falta perspectiva e o sentido de nossa existência."

O prefeito da cidade onde Leviatã foi filmado disse que o filme é "inútil e carece de credibilidade". Sergei Markov, do partido governista Rússia Unida, disse que Zviagintsev deveria pedir desculpas por interpretar de maneira tão negativa a realidade do país.

"Zviagintsev desmembra os russos e, assim, torna-se a base ideológica do genocídio do nosso povo. No lugar dele, tiraria o filme de cartaz, iria à Praça Vermelha, me ajoelharia e pediria perdão", afirmou.

Após seu lançamento, o Ministério da Cultura elaborou um projeto de lei proibindo a distribuição de filmes que "denigram a cultura russa, ameacem a união nacional e minem os princípios da ordem constitucional". Nada muito distante daquilo que o país viveu em décadas de poder soviético, através do Departamento Ideológico do Comitê Central do Partido Comunista.

Leviatã, disse o diretor para o jornal RBK, é uma tentativa de relatar "minhas observações, inquietudes e experiências" e "nenhum ministro do país pode imiscuir-se em minha relação com o mundo e com as pessoas que me rodeiam".

3. A Igreja Ortodoxa Russa também não aprovou.

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A Igreja, entrelaçada com o poder em Leviatã, também não morreu de amores pela obra.

"O filme é muito pessimista. Não me surpreende que seja popular no Ocidente. Vodca, libertinagem, um desastroso sistema político e uma igreja igualmente horrorosa", declarou o chefe de relações exteriores da Igreja, Vsevolod Chaplin, que disse ter visto o filme através de uma cópia pirata, embora pretenda devolver aos autores "o custo de um bilhete de cinema".

Valentin Lebedev, chefe da União de Cidadãos Ortodoxos, declarou que a obra de Zvyagintsev "não têm direito a existir", pois retrata o Estado russo e a igreja como monstros dos mares.

"É evidente que foi por este motivo que o filme conquistou apreço mundial", assegurou, reivindicando a limitação de sua distribuição, pois "o mal deve ser chamado pelo nome" e o "Estado russo é obrigado a enfrentar este mal".

4. O filme virou febre na Rússia.

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Os responsáveis pelo filme tiverem um comportamento bastante incomum para a indústria do cinema: colocaram o longa em domínio público para gerar maior interesse. E em vez de processar sites e usuários, como fazem muitos estúdios, criaram uma página para arrecadar doações. Deu certo - o filme se tornou uma febre no país e se transformou, na segunda semana de janeiro, no centro das atenções do Foro Gaidar, em Moscou, o evento político e econômico mais importante da Rússia - debatedores e o público divergiram se era papel do Estado ser o gestor de um marco cultural plural ou se deveria dar diretrizes de política cultural.

A versão pirata agradou tanto que muitos internautas que assistiram a cópia prometeram ir ao cinema a fim de reaver o prejuízo dos produtores.

"Espero que as pessoas assistam ao filme, independente do que dizem sobre ele, e assim decidam o que acham, se o filme retrata ou não o país", declarou Zviaguintsev. "Deveria ter ficado claro que o público iria se polarizar, mas os pontos de vista extremos em relação ao filme mostram que foi um sucesso. Ele tocou em algo muito importante."

5. É um grande filme.

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Se você busca por algo que lhe arranque sorrisos ao final da sessão, não arrisque. Leviatã não é esse filme. Zvyagintsev dirigiu uma obra pesada, densa, sem filtros. Também não vá pensando que tudo se resuma à crítica política. Leviatã é um filme soberbo e nos oferece duas horas memoráveis de cinema - além de um Aleksei Serebryakov numa atuação impecável.

No Brasil o filme está em cartaz em São Paulo, no Rio de Janeiro e em algumas outras capitais. Sua cópia pirata também circula livremente pela internet, já devidamente legendada.

Em tempos de grande irmão, todos os caminhos levam à Rússia.

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