OPINIÃO

Francisco reformador: unanimidade e resistência

26/12/2014 13:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
REUTERS/Tony Gentile

Desde a eleição de Jorge Mario Bergoglio para a cátedra de Pedro venho me perguntando sobre os motivos de seu sucesso entre a opinião pública mundial. Francisco é de uma unanimidade que surpreende. Certamente um dos papas mais pops da era moderna. A Igreja católica voltou a ser tema jornalístico de destaque, agora em perspectiva positiva.

Com a misteriosa renúncia de Bento XVI e sua elevação ao pontificado, muito se especulou sobre o que restaria do papado como instituição. Muitos apontavam para seu enfraquecimento, uma desmitificação da figura do papa. No entanto, o que se presencia é o seu fortalecimento no imaginário de pessoas não só no mundo católico.

Qualquer palavra que profere ou gesto que realiza é explorado por inúmeras análises, com inúmeros matizes, mas que, em sua maioria, interpretam-no como um papa "moderno", em consonância com as demandas da contemporaneidade. "Crentes" das mais variadas ideologias babam por Francisco. Não só: desejam o encapsular em caixinhas teóricas correspondentes às suas crenças. Torna-se um baluarte de suas agendas mundanas. Seria o nascimento de um novo papismo com novas formas e rostos? Um papismo não-católico?

Passeando pelos discursos do papa desde sua eleição, um ponto fica bastante evidente: Francisco não demonstra a mesma rigidez e dureza quando se dirige ao mundo e suas questões como o faz quando fala à Igreja. Suas intervenções com temáticas mais universais não trazem o tom áspero e condenatório daquelas, por exemplo, em direção à Cúria Romana e toda a sua carga de problemas - como a realizada no seu discurso de Natal. Ao mundo, palavras de misericórdia e pedidos de compreensão mútua e delicadeza. À Igreja e seus membros, palavras judiciosas, taxativas e exigência de conversão. É soft com o mundo. Hard com a Igreja.

Suspeito que é essa retórica e seus lugares de recepção que faz dele um queridinho entre os radical chics e quase um antipapa entre alguns conservadores tão radicais quanto os chics.

Contudo, uma coisa é fato: o ímpeto reformador de Francisco pode virar poeira sem apoio interno. Reverbera entre muitos curiais certa indisposição com Bergoglio, já que parece, pelo menos pelos seus discursos, não gastar muitas palavras positivas sobre o trabalho realizado, mas julgar sempre as suas feridas e pecados. As resistências internas vão crescendo.

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