OPINIÃO

Em face do fanatismo

"Fascistas do bem" são autoconfiantes e julgam-se capazes de oferecer soluções para os mais intricados problemas humanos.

10/05/2017 19:55 -03 | Atualizado 10/05/2017 19:55 -03
Bloomberg via Getty Images
Grupos de apoio a Lula tacham de fascistas aqueles que querem a condenação de petistas envolvidos em corrupção.

"Cada um é para si mesmo um dogma supremo; nenhuma teologia protege seu deus como nós protegemos nosso eu."

Emil Cioran em Breviário de decomposição

O fanatismo é uma daquelas persistentes propensões humanas. Suas consequências mais drásticas são a violência e a morte. A palavra tem sua origem etimológica no latim fānāticus, "diz-se de ou o inspirado por uma divindade", "entusiasmado, exaltado".

A "divindade", no caso, não necessariamente deve ser entendida como uma força sobrenatural. É qualquer ideia que se apresente como "o" caminho a ser seguido, excluindo os demais. Toma, assim, várias máscaras.

Na contemporaneidade pós-moderna, presenciamos muitos de seus desfiles. O mais amplo deles e com maior capacidade de destruição moral é a afirmação de um tipo de sujeito que não se abre, jamais e sinceramente, a qualquer instância superior. É um entusiasta de si mesmo e crente em sua missão de salvar, redimir e libertar os que se encontram a sua volta. Está envolto por um hermetismo narcísico, que o atomiza e o eleva, arrogantemente, acima de qualquer consciência sobre os limites do ser e do conhecer em que está metido.

Juntam-se dois ou mais desse tipo e teremos uma sórdida associação, em que os crentes se embebedarão com o licor orgiástico da pretensão redentora, nunca capaz de responsabilidade, mas sempre pronta a encontrar e queimar na fogueira de suas certezas ilusórias aqueles que não compartilham de seu credo alucinado.

As fogueiras estão acesas e ardem. Não é uma de suas versões atuais a gritaria e o desejo de calar aqueles que proferem ideias discordantes? Muitos fanáticos que agem dessa forma creem estar defendendo a democracia! São os "fascistas do bem". Autoconfiantes, julgam-se capazes de oferecer soluções para problemas humanos dos mais intricados, geralmente baseadas em abstrações universalistas.

Além disso, sofrem do desejo de ser fonte dos acontecimentos. De colocar a História em marcha. É visível a proliferação desses tipos perambulando por aí. Sabem onde está o mal e se veem como aqueles que vão extirpá-lo. Sentem-se como "procuradores do bem" e se acham no direito de perseguir até mesmo aquele lugar em que uma certa liberdade pode ser experimentada: a consciência humana.

Vale lembrar que os prosélitos das ideologias totalitárias que produziram montanhas de cadáveres no século 20 dividiam os grupos humanos entre vítimas e culpados. Naquele século, as crenças políticas substituíram em grande parte as crenças religiosas como fonte da moral pessoal.

Ideologias como o socialismo, por exemplo, obtiveram algum sucesso entre as massas especialmente pelo fato de aplicarem todos os recursos do espírito, o tremor do fanatismo, a submissão da vontade à mística partidária e toda uma gama de sentimentos e ações.

Mas o que separa a civilização da bárbarie fanática e suas diferentes manifestações? O que nos afasta dessa irrupção do eu e do grupo de crentes que dividem os mesmos ideias e que se entendem como a única fonte do bem?

O reconhecimento da contingência de nossos enunciados. Sem o exercício sincero e atento, que vasculha sem piedade nossas próprias crenças, podemos ser facilmente levados a acreditar demais em nós mesmos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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