OPINIÃO

Manual da Despedida

15/02/2016 13:51 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Crédito: Renata Maciel.

Mês passado, eu fui me despedir de alguém que não conheci. A mãe de uma amiga.

A amiga mora longe e veio a Brasília reencontrar o Brasil, passear e ficar com a família. Sua mãe faleceu durante sua visita. Nesses momentos, algo assim é um alento.

Eu e Clarissa chegamos primeiro e conversamos com a avó dela, que nos contou diversas histórias da época em que a sede do MEC ficava no Rio de Janeiro e de quando Brasília se tornou capital. Ela descreveu de forma muito bonita como as ruas desertas da cidade ficavam iluminadas à noite por postes, cujas luzes podiam ser vistas a quilômetros de distância em uma região sem os prédios baixos que ganharia futuramente.

À medida que o pessoal foi chegando, abrimos a roda de cadeiras e sofás. Falamos sobre amenidades: a volta ao Brasil, as impressões de seu namorado estrangeiro sobre a cidade, os planos da sequência da viagem.

Não há um manual universal para a despedida. Cada um de nós tem que encontrar seu jeito. De alguma forma, eu sinto que tudo aquilo que aprendemos ao longo da vida se torna material para momentos como esse. Não estava preparado e achei muito bonita a forma escolhida naquele momento para lidar com a situação.

Caixinhas de bijuterias, joias e lenços começam a preencher a sala. Materiais que representam uma vida, reunidos por anos, foram partilhados entre o pessoal. Segundo ela, compartilhar as coisas é uma forma de lidar com menos materiais durante o processo de superação. É verdade. Mas não deixa de ser uma forma de perpetuar uma vida. Essa não é a primeira vez nem será a última em que algo do tipo acontecerá. E para mim isso é muito bom. Eu encaro como uma homenagem ao bom gosto, um valor bastante humano e saudável de se manter.

Enquanto as moças analisavam os materiais com entusiasmo, aproximei-me da grande janela com vista para o gramado molhado da chuva de um dia que foi nublado e chuvoso do início ao fim. Deve ter sido bom morar ali naquele terceiro andar, ver o movimento num dia qualquer, sonhar, fazer planos, tomar sol, ouvir música, aplacar angústias com a brisa, não pensar em nada. Momentos como esse trazem novas cores à vida. E os objetos acompanham esses momentos.

De repente, tudo fica um pouco mais claro e a realidade ganha um sentido evidente: é preciso aproveitar. A naturalidade com que tudo aconteceu me emociona e me tranquiliza. Momentos de amizade singelos e sinceros como esse são provas de que o mundo é um lugar muito melhor do que se pode pensar.

Nossa amiga foi atenciosa o suficiente para entregar uma foto de sua mãe, contida em um envelope assinado, dentro do qual também havia uma mensagem para cada um dos que receberam presentes. Um trecho bonito do Grande Sertão: Veredas, que faço questão de compartilhar.

O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Despedir-se de pessoas queridas nunca será fácil. Quando for a hora, espero que você seja forte o bastante para lembrar do melhor daqueles que foram e do belo futuro que você tem pela frente. Seus passos até tais momentos vão construir um caminho baseado na coragem e na compreensão de que é preciso seguir vivendo.

Fico maravilhado e satisfeito quando percebo meu processo de crescimento conscientemente. É um sentimento que confere sentido a minha vida. 

O meu manual da despedida ganhou novas páginas em janeiro.

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