OPINIÃO

Filhos, cuidem de seus pais

22/07/2016 11:35 BRT | Atualizado 22/07/2016 11:35 BRT
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Nesses dias, vi uma reunião de tweets de filhos adolescentes reclamando de seus pais pelos mais diversos motivos. Mas, basicamente, estavam reagindo à falta de sincronia entre gerações a lares partidos ao meio pela separação. Dois casos trágicos, um mais que o outro.

Eu não sou pai ainda. Mas imagino que seja uma sensação gloriosa. Pelo menos, na maior parte do tempo. Com exceção da infelicidade pelas famílias desfeitas, o núcleo familiar é um refúgio de segurança e orientação em potencial. Eu tenho a sorte de ter um pai bastante presente em minha vida e, do lado do filho, sei o valor que isso tem. Vez ou outra, em conversas com ele, percebo o quanto ainda tenho a aprender, não apenas por aquilo que ele diz, mas pelo simples contato direto. A relação de confiança e o cuidado mútuo são fortalezas que a gente constrói ao longo da vida.

É difícil estar consciente disso cotidianamente. Mas li um poema há algumas semanas que me fez perceber com clareza a relação que um pai e um filho mantêm. Curiosamente, o poema revela a posição do filho, que passa a se enxergar também como um pai de seu pai. Eu acho que essa visão se alinha bastante com a minha. E, talvez, com você funcione da mesma forma. Eu traduzi o poema do Li-Young Lee, que nasceu na Indonésia, neto do primeiro presidente da República da China e filho do médico pessoal de Mao Tse-Tung. Desde os 7 anos, o poeta mora nos Estados Unidos, onde construiu sua carreira de poeta.

Paizinho

Li-Young Lee

Eu enterrei meu pai

no céu.

Desde então, os pássaros

limpam e penteiam-no todas as manhãs

e puxam o cobertor até o queixo

toda noite.

Eu enterrei meu pai sob o chão.

Desde então, as minhas escadas

apenas descem,

e toda a terra tornou-se uma casa

cujos quartos são as horas, cujas portas

ficam abertas à noite, recebendo

convidado após convidado.

Às vezes, eu vejo através deles

as mesas espalhadas para um banquete de casamento.

Eu enterrei meu pai no meu coração.

Agora, ele cresce em mim, meu filho estranho,

minha pequena raiz que não vai beber leite,

pezinho pálido afundado em inédita noite,

pequena mola de relógio recém-molhada

no fogo, pequena uva, pai do futuro

vinho, um filho fruto de seu próprio filho,

paizinho que eu resgato com a minha vida.

Poema original em inglês.

Não é lindo demais isso? Espero que sua relação com seu pai seja excelente. Mas, se não for, talvez você possa buscar inspiração para perceber que muito dessa relação vem do cuidado que você mesmo pode ter com seu pai. Mesmo que ele não tenha conseguido ter tanto cuidado assim com você.

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