OPINIÃO

Mais vale um Paulo Coelho que um Marcel Proust

14/10/2014 12:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

"Leitura para um mundo melhor". Este foi o tema da terceira edição do Fliaraxá — Festival Literário de Araxá, que terminou no último domingo (12). Foram quatro dias intensos de palestras, debates e oficinas com grandes autores, como Zuenir Ventura, Affonso Romano de Sant'anna, Luiz Vilela, Luiz Ruffato, Mary del Priore, Humberto Werneck, Marcelino Freire, entre outros.

 

 

 

O mundo melhor por meio da leitura, contudo, parece algo mais distante do que gostaríamos. Isso graças aos próprios escritores e à crítica, que polarizam a literatura sempre que possível. Para eles, existem "alta literatura" e "baixa literatura" — se um autor vende milhões de exemplares, obviamente é um péssimo escritor, pois literato bom é literato que atinge um estado intelectual tão elevado que os leitores são incapazes de alcançá-lo e, portanto, acaba por vender poucos livros.

O primeiro dia de debates no festival foi bastante significativo: começou com Luiz Ruffato e Humberto Werneck, e terminou com Martha Medeiros e Leila Ferreira. São quatro nomes que admiro muito, mas tomo aqui a liberdade de discordar de algumas ideias por eles expostas. Explico.

No primeiro encontro, um dos temas conversados foi o que a crítica compreende por "alta literatura" e "baixa literatura". (Estes termos não foram usados na conversa de Ruffato e Werneck, mas tais conceitos perpassaram o diálogo.) Werneck disse não acreditar que "quem lê literatura de baixa qualidade possa passar a ler grandes escritores". Inclusive, Werneck disse que tal literatura "é como uma banheira cheia de espuma", ou seja, apenas aparência, nenhum conteúdo. Ruffato concordou. Também falaram sobre o sentimento de gratidão ao leitor que compra um de seus livros, o que faz com que o autor tenha "vontade de ajoelhar e agradecer".

Curiosamente, algumas horas depois, Martha Medeiros, escritora cuja vendagem é medida aos milhões, afirmou: "Eu gostaria de ser uma grande autora, mas nunca vou conseguir". Havia centenas de pessoas na plateia para ouvi-la.

 

Existe preconceito contra best-sellers. Um bastante ruim, realmente nocivo — e uma característica bastante brasileira, como sugere Fernando Antonio Ferreira, em texto sobre a relação entre crítica e Paulo Coelho, para a Folha de S.Paulo.

Creio que a rejeição de que a obra foi objeto tem menos a ver com sua qualidade estética do que com a configuração de um sistema literário que precisa estreitar seus mecanismos de acesso para consolidar-se, recusando tudo o que ameace a definição local de literatura.

Se assim for, explica-se a recepção mais favorável de Coelho nos países em que o campo literário é mais maduro: seus livros são tratados com os mesmos critérios aplicados aos que ocupam posição semelhante à sua, numa estrutura mais densa, multipolar, capaz de incorporar os subsetores de produção ampla criticando-os a partir de sua intencionalidade própria.

(A propósito, se cito Paulo Coelho aqui é porque ele parece ser o exemplo maior de preconceito literário e também porque, no segundo dia de Fliaraxá, o nome do escritor novamente figurou no palco, quando Werneck disse que "seus livros têm muitos erros de português".)

Parece ser de bom tom odiar sua obra, como eu escrevi em outro texto aqui no Brasil Post. Pois dois dias antes do começo do Fliaraxá, Paulo Coelho fez o discurso de abertura da Feira de Frankfurt; no ano passado, fora excluído do evento, justamente no Ano do Brasil na Alemanha. Ou seja, nosso maior vendedor de livros, o brasileiro com maior expressividade na literatura mundial, foi deixado de lado.

A balança da literatura é o valor estético. Este é o critério absoluto. Despreza-se, portanto, o impacto da narrativa na vida das pessoas. Na minha opinião, contudo, literatura é experiência pessoal. É fazer com que o leitor tenha suas entranhas remexidas ao ler um texto. Para mudar o mundo pela leitura, mais vale um Paulo Coelho que saiba comover uma multidão que um Marcel Proust que fale para três ou quatro leitores.

A propósito, se hoje, aos 33 anos, eu leio Proust, Cervantes e Werneck, é porque aos 15 eu li 'O Diário de Um Mago'.

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