OPINIÃO

Um museu de grandes novidades em Charlottesville

A insegurança diante da crise pode, rapidamente, se converter em ódio contra grupos que, supostamente, recebem benefício social e são vistos como privilegiados.

15/08/2017 12:16 -03 | Atualizado 15/08/2017 12:40 -03
NurPhoto via Getty Images
Centenas de nazistas, supremacistas brancos e outros grupos de direita e extrema direita se encontraram em Charlottesville, no estado da Virgínia, em um evento intitulado "Unite the Right".

A marcha fascista sobre Charlottesville entrará para história como um dos eventos mais tristes dos Estados Unidos. Centenas de nazistas, supremacistas brancos e outros grupos de direita e extrema direita se encontraram em Charlottesville, no estado da Virgínia, em um evento intitulado "Unite the Right".

Entoando palavras de ordem nacionalistas, racistas, machistas e xenófobas, marcharam pela cidade para protestar contra a retirada da estátua do General Robert Lee. Lee foi o líder do exército confederado, que, entre outras coisas, lutou pela continuidade da escravidão nos Estados Unidos durante a Guerra Civil (1861-1865).

Grupos de resistência antifascista se juntaram contra os manifestantes de extrema direita. Estes reagiram com violência. Um dos extremistas, identificado como James Fields Jr. lançou um carro contra a multidão, deixando dezenas de feridos e uma morta, Heather D. Heyer.

A maioria dos manifestantes de extrema direita identificados na marcha são jovens e não são de Charlottesville. Fields Jr. tem 20 anos, mora em Maumee, no estado de Ohio, e viajou 875 km até o encontro da "Unite the Right". Ele marchou ao lado da Vanguard America, um grupo que se identifica abertamente como neonazista.

Um dos manifestantes reconhecidos pelas fotos na internet é Peter Cvjetanovic, estudante de história e ciência políticas, que também tem 20 anos e vive em Reno, no estado de Nevada. Cvjetanovic viajou a 4.638 km para participar da marcha em Charlottesville.

Outro identificado é Matthew George Colligan, que se define como Millenial_Matt, em referência aos "millenials", jovens entre 20 e 30 anos. Colligan é de Boston, viajou 893 km e se identifica com as ideias de uma irmandade chamada Proud Boys, que tem como mote "o Ocidente é melhor".

Ainda é difícil explicar porque esses jovens viajaram centenas de quilômetros para participar da marcha. Movimentos racistas e reacionários existem e atuam nos Estados Unidos desde sempre e, nos últimos anos, o racismo e a xenofobia mostraram ainda mais força. Mas, marchas violentas como as Charlottesville estavam adormecidas nos anos 1940 e 1950.

Historicamente, momentos de crise política e econômica impulsionam movimentos reacionários, sobretudo entre jovens da pequena burguesia inseguros diante da perspectiva de estagnação ou declínio em sua posição social.

Em uma concepção de sociedade em que os indivíduos devem ser produtivos e competitivos para alcançar seus meios de vida, esta insegurança pode, rapidamente, se converter em ódio contra grupos que, supostamente, recebem algum benefício social e, portanto, são vistos como inferiores e privilegiados. Ainda que tenham sido excluídos de qualquer possibilidade justa de competição durante séculos.

As palavras de Cvjetanovic ilustram claramente esse reacionarismo. Segundo o jovem, ele estava na marcha "pela mensagem de que a cultura branca europeia tem o direito de permanecer" e "nacionalistas brancos não são odiosos, nós só queremos preservar o que temos".

Esse movimento reacionário também está presente na Proud Boys. A irmandade se define como uma organização libertária, que acima de tudo reconhece e a superioridade dos valores do "ocidente" e da "modernidade".

O fundador Gavin McInnes, co-fundador da rede de notícias e comentários Vice (mas já deixou a companhia) e é um dos precursores da "cultura hipster", uma cultura com definição opaca e nuances progressistas, mas claramente associada a pequena burguesia urbana, a uma concepção de estética refinada e exclusiva, e à ideia de empreendedorismo criativo como meio de vida.

Essa "cultura hipster" pode facilmente escorregar para o reacionarismo opondo a "livre iniciativa" ao Estado, associando o fracasso individual às supostas vantagens de alguns grupos sociais, e transformando "refinamento" estético em superioridade cultural.

Curiosamente, essa estética refinada resgata um suposto passado dourado, os anos 1940, com ares de modernidade. Vale lembrar que o nazismo, que teve certo apelo entre os estadunidenses, apresentava uma couraça moderna e uma estética supostamente refinada, valorizando a produtividade e o progresso ao passo que eliminava todos aqueles que eram considerados atrasados, improdutivos e deficientes.

Inicialmente, Donald Trump absolveu os grupos de direita pela violência, com uma declaração bastante vaga que culpava todos os lados. Inclusive, evitou comentários negativos sobre os grupos de supremacia branca e ocidental. Para muitos comentaristas, Trump evitou alienar parte da sua base de apoio político, a extrema direita.

Mas, em termos de ganhos políticos, o eleitorado de Trump é muito mais velho que esses jovens de 20 anos. E, a extrema direita representa apenas uma fração dos votos de Trump. Provavelmente percebendo o erro estratégico e sob forte pressão do Partido Republicano, o presidente voltou a falar sobre a violência em Charlottesville, culpando a extrema direita. Mais ainda, o Secretário de Justiça, general Jeff Sessions, afirmou que a marcha violenta dos supremacistas brancos foi um ato de terrorismo doméstico.

De todo modo, Trump e a marcha são irmãos siameses de um mesmo fenômeno: a crise econômica e, principalmente, política dos Estados Unidos. A falta de confiança e de representatividade que o catapultou para presidência exacerbou o debate político para a violência nas ruas.

E o presidente estadunidense alimentou este processo. Sob desconfiança da sociedade política, inclusive de seu próprio partido, buscou apoio em setores reacionários da sociedade civil, com declarações e promessas que colocam estrangeiros, mulheres e minorias às margens.

Não pode ficar pior. Mas pode ficar mais grave. Trump vêm usando a tensão com a Coréia do Norte para aliviar a pressão política interna que sofre em virtude das acusações de ter relações escusas e inapropriadas com a Rússia. Agora, ele pode aumentar a vazão da válvula de escape e exportar as tensões internas subindo o discurso nacionalista e tocando o tambor da guerra contra o regime de Pyongyang.

Ou, talvez diante do perigo de acordar o dragão chinês e do recente recuo de Kim Jong Un, Trump se volte contra a Venezuela para derrubar Maduro. Essa estratégia é tão velha, nefasta e recorrente na política estadunidense quanto as marchas violentas pela superioridade branca e ocidental. Só podemos esperar não ver mais essa peça nesse "museu de grandes novidades".

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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