OPINIÃO

Além do mito: Um breve balanço político de Obama na Casa Branca

20/01/2017 14:54 -02 | Atualizado 20/01/2017 14:54 -02
NurPhoto via Getty Images
President Barack Obama delivers his farewell address at McCormick Place in Chicago, Illinois, USA on January 10, 2017. (Photo by Emily Molli/NurPhoto via Getty Images)

A maior potência do mundo troca de presidente. Barack Obama, do Partido Democrata, deixa o cargo após oito anos. Tornou-se uma celebridade internacional, um ícone, um mito. Entretanto é preciso avaliar o político. Obama teve uma ascensão meteórica na sociedade política estadunidense. Elegeu-se membro do Senado do Estado de Illinois em 1997; senador em 2005; e presidente do país em 2008. Nunca teve uma cadeira entre os deputados estadunidenses e teve um mandado de senador curto, apenas três anos.

Em um sentido, a vitória de Obama na corrida presidencial em 2008 foi um prenúncio da vitória de Donald Trump, ainda que sejam políticos completamente diferentes. No início das primárias do Partido Democrata, Obama estava longe de ser o favorito. Hillary Clinton, ex-primeira dama, senadora e figura influente no Partido Democrata, concorreu as primárias como a mais provável candidata a presidência dos Estados Unidos.

Obama era o político anti-política em 2008, ainda que não tenha construído este perfil.

Em parte, Obama venceu porque representava algo diferente da política tradicional. Venceu as primárias justamente por ser um político sem uma trajetória consagrada lutando contra uma figura do establishment do Partido Democrata e da vida política estadunidense, com laços indiscutíveis com setores do grande capital. Nas eleições presidenciais, a lógica se repetiu. Obama venceu John McCain, conhecido político conservador do Partido Republicano, que, como Clinton, tinha uma trajetória conhecida na sociedade política estadunidense e relações estreitas com setores do capital. De certa forma, Obama era o político anti-política em 2008, ainda que não tenha construído este perfil.

Obama venceu as eleições com uma agenda progressista e ousada. Entre outras coisas, prometeu tirar os Estados Unidos da crise econômica, retomar o crescimento econômico e a empregabilidade, reformar o sistema de saúde, remover as tropas do Iraque e desativar a base de Guantanamo em Cuba. Com este discurso, Obama ganhou o prêmio Nobel da Paz em 2009, antes mesmo de poder realizar efetivamente qualquer promessa. O maior feito de Obama foi atenuar a crise econômica estadunidense com um pacote de estímulos de US$ 790 bilhões de dólares combinados com juros baixos, programas de assistência a pobreza e desemprego e resgate público de bancos e montadoras a beira da falência.

Obama não conseguiu adotar uma abordagem progressista diante de outros desafios.

Além disso, mesmo com um congresso majoritariamente de oposição, Obama logrou aprovar a reforma do sistema de saúde, que controla preços dos planos privados e cria subsídios que para os estadunidenses terem acesso aos cuidados médicos em clínicas e hospitais; sancionou a lei que define os crimes de homofobia como crime de ódio; e pediu que a Suprema Corte, que recebeu duas indicações de mulheres progressistas, desse uma decisão favorável à legalidade do casamento civil entre pessoas do mesmo sexo em todo território nacional.

Todavia, diante dos interesses dos grupos sociais que representava e do congresso majoritariamente oposicionista, Obama não conseguiu adotar uma abordagem progressista diante de outros desafios. Enfrentou duras batalhas com a Associação Nacional do Rifle e não conseguiu restringir a venda de armas, mas apenas um controle maior sobre compradores; não reformou o sistema penal, que continuou o encarcerando milhares de jovens por delitos pequenos, sobretudo pobres e negros; e não interviu no sistema abusivo de financiamento estudantil, que causou o endividamento impagável dos jovens. Mais do que isso, viu a desigualdade social aumentar.

Os maiores problemas de Obama estiveram no cenário internacional. Após uma retirada inicial das tropas no Iraque, voltou a enviar soldados, principalmente para combater o Daesh. No Afeganistão o movimento se inverteu. No início do mandato, o Governo Obama aumentou o número de combatentes, mas reduziu progressivamente depois da captura e execução de Osama Bin Laden, sem julgamento apropriado.

Ao contrário do que sugere o prêmio Nobel da Paz, Obama arquitetou a intervenção na Líbia; financiou grupos paramilitares que desestabilizaram ainda mais o Grande Oriente Médio, alimentando a guerra na Síria; e utilizou indiscriminadamente ataques com veículos aéreos armados e não tripulados que atingiram centenas de civis. Por outro lado, conseguiu costurar um acordo com Irã, diminuindo a tensão entre os dois países.

Na América Latina, Obama buscou colocar os Estados Unidos em rota de reaproximação com Cuba, atendendo a interesses estratégicos econômicos e geopolíticos na região. Nos últimos dias na Casa Branca, Obama revogou a política conhecida como "pés molhados, pés secos", que garantia tratamento especial aos cubanos que conseguissem pisar em solo estadunidense.

Por outro lado, Obama não cumpriu a promessa de fechar a prisão de Guantanamo, na ilha caribenha. Ademais, continuou investindo na famigerada "guerra contra as drogas", que alimenta a violência na região. Também dobrou o orçamento do policiamento de fronteira e deportou mais imigrantes que qualquer outro presidente dos Estados Unidos (aproximadamente 2.5 milhões), a maioria latino americanos e, supostamente, com antecedentes criminais.

Oito anos depois da vitória de Obama, Trump construiu propositalmente sua imagem como o político anti-político

No Leste Europeu, Obama aumentou a tensão com a Rússia pela disputa de zonas periféricas. Nos anos finais de mandato, tentou reorientar a política externa dos Estados Unidos para o Leste Asiático, com objetivo de sair do atoleiro do Oriente Médio e conter o crescimento econômico da China. Neste contexto, tentou aprovar o Tratado Trans Pacífico, estabelecendo alianças comerciais preferenciais que excluem a China.

Vale lembrar ainda que Obama fez muito pouco para conter os abusos da Agência de Segurança Nacional, que comprovadamente quebrou os direitos civis dos estadunidenses e cidadão de todo mundo, incluindo líderes políticos, com estratégias indiscriminadas e ilegais de espionagem digital.

Obama termina o mandato com 57% de aprovação dos estadunidenses. Mesmo assim, não conseguiu resgatar a confiança na política, nos políticos e na democracia. Oito anos depois da vitória de Obama, Trump construiu propositalmente sua imagem como o político anti-político. Assim, venceu políticos tradicionais do Partido Republicano nas primárias e Clinton na corrida presidencial.

Uma investigação comparativa mais profunda sobre as campanhas de Obama e Trump pode revelar que os estadunidenses encaram a política com descrença e falta de perspectiva há bastante tempo. Possivelmente, isto é reflexo do discurso vulgar neoliberal que confunde Estado e política.

O descrédito do Estado como agente econômico e político atinge a própria política e, consequentemente, os políticos e a democracia representativa. De certo, outras hipóteses devem ser combinadas, como corrupção endêmica e, sobretudo, a crise econômica e social que teve momentos agudos nos últimos anos.

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