OPINIÃO

A marcha ré de Donald Trump na reaproximação entre Cuba e Estados Unidos

O dia 16 de Junho de 2017 também entrará para história das relações entre Estados Unidos e Cuba.

18/06/2017 18:48 -03 | Atualizado 18/06/2017 18:48 -03
Anadolu Agency via Getty Images
Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fala sobre as mudanças no relacionamento com Cuba no Manuel Artime Theater em Little Havana, em Miami, na Florida.
O dia 17 de dezembro de 2014 entrou para a história dos Estados Unidos e de Cuba como o momento decisivo para reaproximação dos dois países após meio século de distanciamento e hostilidades. Barack Obama e Raúl Castro anunciaram conjuntamente uma série de medidas para reaproximar os dois países, visando sobretudo: reabrir as relações diplomáticas; ampliar os limites para envio de remessas; facilitar o trânsito de pessoas; e aumentar as possibilidades comerciais contornando o bloqueio econômico. A data inclusive ganhou um apelido, 17D, revelando sua importância histórica.

Pelo menos duas forças moveram a administração Obama para a estratégia de reaproximação. Primeiro, os governos latino americanos, na fase liberal-desenvolvimentista-progressita, pressionaram o governo a promover a reaproximação entre Estados Unidos e Cuba, por razões ideológicas e, principalmente, pelas oportunidades econômicas que se abriram após as reformas na economia da ilha, que buscaram incentivar a iniciativa micro-empresarial e os investimentos internacionais.

A pressão latino americana chegou aos Estados Unidos em um momento de crescente presença da China e da Rússia na região, especialmente no Caribe, com o projeto do novo Canal inter-oceânico na Nicarágua e a possível reabertura de de bases russas logo após o avanço da OTAN sobre o leste europeu. De certo, Obama não poderia correr o risco de perder o controle sobre o continente.

Durante a campanha presidencial, Trump foi ambivalente em relação a Cuba.

Segundo, internamente, a opinião pública e boa parte da comunidade cubano-estadunidense não apoia mais o bloqueio comercial. Recentes as pesquisas, como a do Atlantic Council, revelaram que mesmo a maioria dos estadunidenses simpáticos ao Partido Repúblico e a maioria dos latinos no condado de Miami, reduto da comunidade cubano-estadunidense, apoia a reaproximação entre os dois países.

Nos últimos anos, grupos de cubano-estadunidenses, sobretudo mais jovens e sem interesse em retomar tesouros perdidos na ilha, lideraram campanhas pela reaproximação e pelo fim do bloqueio, ainda que não guardem nenhum simpatia pelo regime castrista. Esses cubano-estadunidenses não querem apenas rever familiares ou conhecer suas origens, mas desejam enviar remessas e investir em negócios em Cuba.

O dia 16 de Junho de 2017 também entrará para história das relações entre Estados Unidos e Cuba. Possivelmente, será lembrado como o "16J", quando Donald Trump deu marcha ré no processo de reaproximação entre os dois países. Durante a campanha presidencial, Trump foi ambivalente em relação a Cuba.

Em alguns momentos iniciais, Trump saudou o processo de reaproximação dizendo que construiria um hotel na ilha, mas em outros momentos, principalmente na reta final da corrida eleitoral, anunciou que exigiria mais compromissos do governo cubano em relação ao respeito aos direitos humanos, em contradição com o seu discurso de base para política externa, menos idealista e mais pragmático.

Em Cuba, as medidas terão forte impacto sobre o setor de turismo, que cresceu significativamente após as medidas da administração Obama.

No 16J, em um discurso em Miami, Trump, acompanhado do senador Ricky Rubio e do deputado Mario Diaz-Balart, ambos republicanos e representantes do lobby anti-castrista cubano-estadunidense, anunciou que imporia novos limites ao trânsito de pessoas e as oportunidades de comércio entre Estados Unidos e Cuba. As novas medidas da administração Trump impõe novas regras, mais restritivas, para viagens a Cuba e proíbem qualquer transação comercial que envolva o conglomerado de empresas das Forças Armadas Cubanas e suas parceiras.

Em Cuba, as medidas terão forte impacto sobre o setor de turismo, que cresceu significativamente após as medidas da administração Obama, não só pelas novas restrições ao trânsito de pessoas, mas também porque as empresas das Forças Armadas Cubanas estão presentes na área de serviços aéreos e marítimos. Vale lembrar que o setor de turismo vinha despontando como sustentáculo da economia da ilha, sobretudo depois que importantes parceiros comerciais do país, como Espanha, Venezuela e Brasil, entraram em crise.

Trump está mais preocupado em agradar o lobby anti-castrista no congresso para conseguir apoio contra as investigações que ameaçam seu governo.

Nos Estados Unidos, os críticos da marcha ré apontam que as medidas devem custar 6.6 milhões de dólares e 12.295 postos de trabalho. A medida destoa do discurso de Trump que defende uma política externa pragmática e voltada para fazer a "América Grande Novamente". Todavia, ocorre em um momento em que os governos latino-americanos transitam para o campo neoliberal-conservador, como no caso do Brasil e Argentina ou perderam capital político na região, como no caso da Venezuela.

Além disso, a China, que não tem mesmo as mesmas taxas de crescimento dos últimos anos, parece ter colocado os grandes projetos na região em compasso de espera e a Rússia de Putin, apesar de tudo, parece ter boas relações com os Estados Unidos de Trump. Os grupos da comunidade cubano-estadunidense a favor da aproximação fizeram duras críticas as medidas.

Mas, Trump está mais preocupado em agradar o lobby anti-castrista no congresso para conseguir apoio contra as investigações que ameaçam seu governo. E, curiosamente, as medidas de Trump foram anunciadas justamente na mesma semana em que Raúl Castro deu início ao processo eleitoral cubano de 2018, que decidirá quem será o novo líder do país.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade

LEIA MAIS:

- Morte de Fidel Castro atrai atenção para políticas de Trump sobre Cuba

- O que esperar da política econômica de Donald Trump?

Donald Trump em campanha