OPINIÃO

Notas sobre 'apropriação cultural'

Quem sofre com medo de levar pedradas, devido ao uso de turbante, é que sabe a dor de perceber que aquele "pano" foi ressignificado pela moda.

12/02/2017 00:45 -02 | Atualizado 12/02/2017 01:27 -02
Montagem/Facebook
Postagem de Thauane Cordeiro reacendeu debate sobre apropriação cultural.

Inicio o texto com algumas notas que me ajudarão a falar sobre a tão citada "apropriação cultural".

1) Nenhuma cultura é fixa (imutável);

2) nenhuma cultura é pura (que não seja construída nos encontros com outras, processos de consensos e/embates com outras culturas);

3) existem relações de poder marcadas em nossa História (ou seja, nem todas as culturas possuem o mesmo poder, e muitos fatores são responsáveis por isso - em destaque a nossa construção histórica);

4) existem divergências e conflitos entre culturas diferentes (acredito que essa nota não seja mistério para ninguém);

5) existem divergências e conflitos entre o que estaria no espectro de uma mesma cultura (entendo que depende da amplitude do olhar sobre a questão cultural, mas não deixa de ser uma nota válida).

Tomando esses pensamentos sobre cultura como nosso ponto de partida, inicio minhas reflexões.

Alguns dirão: "Esse negócio de apropriação cultural é uma bobagem".

Bom, se digo que o termo "apropriação cultural" é uma bobagem, alguém imediatamente dirá "acha bobeira porque você não faz parte de um grupo marginalizado".

Essa colocação não deixa de ser verdadeira.

Apesar de 1) e 2), existe o 3). Ou seja, apesar de nenhuma cultura ser imutável ou pura, existem relações de poder, construídas ao longo de nossa história que gritam todo dia em nosso ouvido que uma cultura é inferior a outra.

Quem sofre com medo de receber pedradas na rua, devido ao uso de um turbante, é que sabe a dor de perceber que aquele "pano" foi ressignificado como artefato de moda. Entendo essa dor e não posso jamais desmerecê-la.

Por outro lado, saber que uma menina com câncer foi questionada sobre o uso do turbante mostra que precisamos ponderar e refletir muito antes de apontar o dedo.

Precisamos saber quem/que grupo de fato está desrespeitando e quem/que grupo não está.

Precisamos de tempo, reflexão e saber lidar com os outros... Talvez, se pessoa que apontou o dedo na cara da garota respirasse e refletisse antes de atacar, isso não tivesse acontecido... mas entendo bem que é fácil pedir calma quando não sofremos.

Também acho importante entender que parte pequena dos movimentos tem atitudes como essa e é uma injustiça muito grande desmerecer um movimento por casos específicos.

O motivo de iniciar esta reflexão com algumas notas é provocar uma reflexão sobre culturas.

O turbante não é monopólio de um grupo, mas não custa entender que as relações de poder envolvidas com as questões culturais mexem com os ânimos. Assim como os que se sentem feridos poderiam tentar respirar e refletir antes de apontar o dedo.

Será que, de fato, aquela pessoa quis ofender usando um turbante? E se ao invés de apontar o dedo eu puxar um assunto com ela? Como disse em 5) as divergências existem entre os próprios grupos. Nos movimentos sociais não é diferente, ou seja, dentro dos movimentos, existem pessoas que se solidarizam com a luta contra "apropriação cultural" e as que são contra a tentativa de fixação de uma cultura.

Mas vejam bem, a coisa não é tão simples assim... A gente pode entender também que a fixação faz parte de uma luta ampla por manutenção de uma cultura.

Se pensarmos, por exemplo, no candomblé como cultura entenderemos que ele jamais sobreviveria se não fosse tão fiel aos seus fundamentos. Se pensarmos que é um grupo marginalizado por outros passamos a entender que a fixação de sentidos é um critério para sobrevivência daquela cultura. Se todos se "apropriam" daquela cultura e a modificam, ela deixa de ser a mesma.

No ditado popular é a "faca de dois gumes" (Ou legumes, como diz o tio do Pavê)

O mesmo movimento que busca a preservação de culturas vulneráveis, se usado de forma inapropriada, pode gerar toda essa discussão nas redes...

Por um lado temos pessoas que sentem-se legitimamente ofendidas, mas sem perceber a fluidez daquilo que chamamos de cultura. Já por outro lado, temos pessoas que se atentam para a fluidez cultural, mas sem perceber as relações de poder envolvidas.

A questão é complexa, necessita reflexão e está longe de ser uma "babaquice" como dizem alguns comentários dos especialistas em cultura diplomados pelo Facebook (leia com ironia).

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.

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