OPINIÃO

Não 'basta de Paulo Freire'

17/03/2015 15:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02
ricardoromanoff/Flickr
monumento em homenagem a paulo freire, esplanada dos ministérios

No meio de tantas faixas que apareceram na manifestação de 15 de março de 2015, uma delas chamou a atenção - acredito que não só a minha, porque muitas pessoas compartilharam a indignação. Nela estava escrito "CHEGA DE DOUTRINAÇÃO MARXISTA. BASTA DE PAULO FREIRE".

Talvez as pessoas que escreveram tais dizeres não tenham ideia de que o governo está bem distante de realizar a educação dos ideais de Paulo Freire... Mas escrever frases de efeito em cartazes é direito de todos e, como não concordo com esse basta ao NOSSO Paulo Freire - educador mundialmente reconhecido -, trago meu cartaz de "QUEREMOS MAIS PAULO FREIRE NAS ESCOLAS". Eu o defendo com outras frases que poderiam facilmente ser escritas em cartazes e digo: o governo ainda está longe, mas é para um caminho de mais diálogo com os dizeres de Paulo Freire que podemos pensar uma mudança na educação e na sociedade.

Se formos pensar o ensinar, podemos escrever um cartaz com "Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção". Quando pedem um "basta" a Paulo Freire que tipo de "ensinar" os manifestantes querem?

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Alguns professores ainda possuem a mania de achar que são "donos do conhecimento" e que seus alunos nada sabem... A esses professores podemos escrever um cartaz com a frase "Ninguém ignora tudo. Ninguém sabe tudo. Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso aprendemos sempre. " Quando pedem um "basta" a Paulo Freire que tipo de educação os manifestantes querem?

Mas entendo que minhas leituras de mundo podem ser diferentes das leituras daqueles manifestantes... Paulo Freire nos ensina que "Não há saber mais ou saber menos: Há saberes diferentes". . E também entendo que nossas leituras de mundo são guiadas por nossos valores, nossas crenças. Sem Paulo Freire eu ignoraria aquela forma de pensar. Com Paulo Freire eu busco diálogos com ela. Quando pedem um "basta" a Paulo Freire os manifestantes querem uma hierarquização dos diferentes saberes?

E no campo do diálogo que Paulo Freire nos ensina que "Se a educação sozinha não pode transformar a sociedade, tampouco sem ela a sociedade muda". Ele me faz tentar entender que, talvez, quando pedem um "basta" a Paulo Freire, aquelas pessoas não queiram uma mudança no mundo... Mas tudo isso é compreensível, afinal, "Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitissem às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica",

Será esse o medo daqueles manifestantes?

Será um medo de sair da posição de privilegiados para uma posição de oprimidos?

Paulo Freire nos diz: "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor".

Então acho que não precisam se preocupar, porque a educação que ele buscava era uma educação para a libertação.

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