OPINIÃO

'Elite branca' x 'negros e pobres': o jogo das identidades

25/03/2015 16:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
pagina3/Flickr

Inicialmente gostaria de falar sobre a falsa noção de polarização entre uma "Elite Branca" x "Negros e pobres" e relacioná-la com uma notícia que li com a seguinte manchete: "Grupos antigoverno destacam discursos de negros e pobres".

A notícia, publicada pela Folha de S. Paulo, inicia da seguinte maneira: "vistos como representantes da Elite Branca, movimentos contrários à presidente Dilma Rousseff (PT), que ajudaram a organizar os atos do último dia 15 vêm ampliando o espaço para negro e pobres nos palanques e em vídeos nas redes sociais".

Seria muito simplista, em nível de pensamento, acreditar que é possível dividir o Brasil.

Aparentemente negros e pobres não poderiam ir contra o governo, enquanto aqueles que vão contra o governo seriam os ricos e favorecidos? É impossível estabelecer uma generalização dessas por uma aparência física, roupas e outros aspectos. Se alguma generalização é possível de ser feita, é a que identifica algumas pessoas que foram às ruas no dia 15 como mais conservadoras para alguns valores sociais.

Então o caminho para entender quem foi às ruas não seria olhar fotos no Facebook e dizer que não há negros?

Desculpa, gente. Mas não. O caminho não seria a cor da pele ou a conta do banco. De fato eu compreendo que a generalização, no Brasil, é feita por questões históricas e que a classe trabalhadora foi construída em grande parte por negros e as elites por brancos, mas precisamos ir além para pensar os últimos movimentos.

Assim como existem pessoas brancas e com bastante dinheiro que assumem posturas progressistas para questões sociais, mas conservadoras para algumas questões econômicas, existem negros e pobres que assumem pensamentos mais conservadores. Também existem brancos ricos mais conservadores e negros pobres mais progressistas. Por outro lado também há pessoas que são liberais, tanto para economia quanto para questões sociais - sendo pobres ou ricas... e por aí vai.

O que eu quero dizer com isso? Que as pessoas aderem aos movimentos que mais se identificam e os movimentos, as notícias, os jornais, entre outros, exploram a "crença" em uma polarização do Brasil para buscarem adeptos.

Um trecho dos escritos de Stuart Hall em seu livro "A identidade cultural na pós modernidade" nos mostra:

"Em 1991, o então presidente americano, Bush, ansioso por restaurar uma maioria conservadora na Suprema Corte americana, encaminhou a indicação de Clarence Thomas, um juiz negro de visões políticas conservadoras.

No julgamento de Bush, os eleitores brancos (que podiam ter preconceitos em relação a um juiz negro) provavelmente apoiaram Thomas porque ele era conservador em termos da legislação de igualdade de direitos, e os eleitores negros (que apóiam políticas liberais em questões de raça) apoiariam Thomas porque ele era negro. Em síntese, o presidente estava "jogando o jogo das identidades".

Durante as "audiências" em torno da indicação, no Senado, o juiz Thomas foi acusado de assédio sexual por uma mulher negra, Anita Hill, uma ex-colega de Thomas. As audiências causaram um escândalo público e polarizaram a sociedade americana. Alguns negros apoiaram Thomas, baseados na questão da raça; outros se opuseram a ele, tomando como base a questão sexual. As mulheres negras estavam divididas, dependendo de qual identidade prevalecia: sua identidade como negra ou sua identidade como mulher. Os homens negros também estavam divididos, dependendo de qual fator prevalecia: seu sexismo ou seu liberalismo. Os homens brancos estavam divididos, dependendo, não apenas de sua política, mas da forma como eles se identificavam com respeito ao racismo e ao sexismo. As mulheres conservadoras brancas apoiavam Thomas, não apenas com base em sua inclinação política, mas também por causa de sua oposição ao feminismo. As feministas brancas, que freqüentemente tinham posições mais progressistas na questão da raça, se opunham a Thomas tendo como base a questão sexual. E, uma vez que o juiz Thomas era um membro da elite judiciária e Anita Hill, na época do alegado incidente, uma funcionária subalterna, estavam em jogo, nesses argumentos, também questões de classe social."

Daí proponho pensarmos... A quem interessa essa divisão do Brasil? Começar a dar voz para negros com pensamento conservador é chamar mais pessoas negras para os movimentos conservadores. É fortalecer uma linha de pensamento. É jogar o jogo das identidades.

Precisamos pensar além para nos aproximarmos do que realmente nos interessa - se é que alguma aproximação interessa -, e não tratar política apenas como um fla x flu. Precisamos compreender esse jogo das identidades antes que mais pessoas "comprem" um discurso e fortaleçam movimentos que as enfraquecem. Esse ponto é central.

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