OPINIÃO

Do ato de sonhar

14/09/2015 17:00 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
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*Este texto é uma resposta ao texto 'Uma fábula de improdutividade' publicado no Estadão.

Meu nome É Roberto Dalmo e tenho 26 anos. Nasci em Niterói e só consegui estudar em um colégio particular porque minha mãe era funcionária dessa escola - isso me deu uma bolsa de estudos durante todo o ensino médio. No terceiro ano decidi que faria Química, um desses cursos que o senhor diz que não é dos mais difíceis para entrar (e eu concordo) - só peço que tente sair. Meu curso foi em uma universidade pública e bancado pelo dinheiro de muitos contribuintes do País, eu sei disso. Sei tanto que iniciei meus estudos no segundo semestre de 2007, mas o primeiro semestre do mesmo ano comecei a trabalhar em cursos de pré-vestibular comunitário. Além de gastar o dinheiro de muitos para me formar eu tinha uma consciência - fazer com que mais pessoas pudessem ter a oportunidade que eu tive. Posso dizer uma coisa? Tive o prazer de ver alguns alunos entrarem na universidade e buscarem seus sonhos - infelizmente aqui no nosso País o ensino superior não é apenas o "gasto do dinheiro público", mas uma cultura que diz bem alto na cabeça de todos "você precisa ter para ser alguém". Mas fique tranqüilo, meu amigo. Não gastei tanto dinheiro público assim. Meu curso com duração de 5 anos e meio foi feito, por mim, em 4 anos e meio. Ingressei para o mestrado e doutorado, passei no concurso da Universidade Federal do Tocantins (sim, eu sai do grande centro para contribuir com a construção de uma universidade do interior). Ganho dinheiro público e garanto que tenho uma boa produtividade. Com minha idade, nova para o cargo de professor de curso superior, já tenho uns livros publicados, alguns artigos e me dedico bastante nas aulas, na pesquisa e na extensão universitária.

Amo o que eu faço. Meu concurso foi para Químico com mestrado em Educação ou Ensino de Ciências. Caramba... não foi exatamente o que estudei? É... foi sim. O que diferencia a minha história das histórias de João, Pedro, Jorge, Manuel, Márcia, Antonio, Chico? Sou mais inteligente que eles? Não. Sou mais esforçado? Também não posso garantir.

Em algum momento da vida me falaram que eu poderia seguir meus sonhos e que o dinheiro viria como consequência. Eu acreditei mesmo nisso. Acho que consegui. Talvez não ganhe o que João ganha como funcionário público com cargo de Ensino Médio, mas sou bem feliz com o que faço.

Não discordo que a história de João seja verdade, mas será que não seria controlador demais obrigar João a trabalhar como engenheiro, se ele pode ser um excelente funcionário público? Caro colega, talvez João tivesse tido uma pressão de pessoas de classe alta que falaram "só é bom se for engenheiro". Ele fez, não gostou e buscou outra coisa para ser feliz. Agora vamos pensar em quantos engenheiros foram formados, com dinheiro público, e que exercem sua profissão com competência (seja no setor privado ou público)? Existem muitos também.

Pedro mudou de curso 3 vezes, mas não seria (por parte do Estado) um fascismo imenso impedi-lo? Confesso que já pensei muito sobre isso. Sempre que via algumas pessoas pelos bares enchendo a cara enquanto eu estava dando duro pra estudar eu pensava isso, mas impedir isso não seria uma grande arrogância? Quem teria esse direito? O estado? Acho que a tentativa de construir a consciência seja melhor. Talvez se Pedro pagasse pelo primeiro curso ele se formaria, mas será que ele seria um bom profissional? Por outro lado, se o meio empresarial buscasse melhores relações com os funcionários, a garantia de mais direitos e tudo mais, o meio dos concursos públicos tentados por Joãos e Pedros seria tão concorrido?

Jorge também não pensou duas vezes, acho que ele também não era tão feliz sendo advogado... tanto não era feliz que preferiu abrir um cursinho porque ganhava mais. Tem demanda, né? Volto a pensar... como nossas empresas tratam os funcionários para que tanta gente queira ingressar no serviço público, né?

Pedro, por outro lado não conseguiu ser aprovado no concurso e decidiu ser um professor medíocre. Olha, tive aula com alguns Pedros, mas gostaria de olhar para os Albertos, Veras, Claras, e muitos outros que foram professores excepcionais com seus salários baixos e com toda a desvalorização do professor.

Antônio entrou na Universidade Pública por cotas, mas faz parte de uma minoria que não conseguiu, porque há uma maioria que se dedicou muito mais do que os alunos não cotistas. Essa maioria faz parte de muitas estatísticas que desmentem o mito do insucesso dos cotistas. Antônio não conseguiu, mas muitos Antônios conseguiram e serão excelentes engenheiros. Ainda digo mais... Uns desses Antônios decidiram ir para fora do País, porque muita gente diz que lá é melhor do que aqui... tem que ter muito amor para ficar onde tantos dizem que é ruim, né?

Sei que nenhum dos seus personagens teve comportamento ilegal, mas acho que em alguns deles o dinheiro falou MUITO mais alto do que os sonhos. Não discordo que todas essas histórias existam, mas busco pensar também sobre as histórias que não foram narradas. Não discordo que temos que repensar e muito nosso sistema, mas não podemos deixar de lado as histórias não narradas... Sem elas a mudança será injusta.

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