OPINIÃO

Uma Davos auspiciosa

27/01/2014 21:39 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Parabéns ao Brasil Post por sua estreia! Estou animado em poder contribuir para essa promissora iniciativa. Falando em estreias, aproveito este texto para tratar da minha primeira participação, como Diretor-Geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Davos confirmou minhas expectativas de que 2014 realmente é um ano-chave para a OMC. Os negociadores em Genebra terão de mostrar que estão à altura da tarefa que seus ministros lhes confiaram no encontro ministerial de Bali, realizado no mês passado. Bali, como sabemos, foi a primeira Conferência Ministerial da história da OMC que produziu novas regras multilaterais para o comércio. Os próximos passos serão fundamentais para definir o futuro da organização como agente da governança econômica global.

Cheguei ao Fórum preparado para convencer todos da relevância dos trabalhos da OMC -- que jamais havia concluído qualquer acordo desde sua criação em 1995 -- e da importância de mantermos o empenho em avançar as negociações multilaterais. Preocupação desnecessária pois era grande o otimismo de todos com o êxito em Bali e com as perspectivas de novos acordos no futuro.

Assim, precisamos agora mostrar que a OMC está realmente em plena forma, e que Bali é nada mais que o começo de uma nova jornada. Em Davos, ouvi atentamente o que se disse sobre o comércio mundial, e lancei também algumas ideias a respeito de como orientar nosso trabalho em Genebra.

Uma primeira tarefa será implementar tudo o que foi acordado em Bali, em particular o Acordo sobre Facilitação de Comércio, que foi saudado com grande entusiasmo em Davos. Além disso, conforme também decidido pelos ministros, os Membros da OMC devem, até o final do ano, definir um plano de trabalho que nos permita avançar de maneira consistente rumo à conclusão da Rodada Doha.

Esses são os principais desafios que nos acompanharão ao longo de 2014. Temos que começar na direção certa e com clareza de onde queremos ou, sobretudo, de onde podemos chegar. Se quisermos evitar nova sucessão de impasses, será importante encontrar o equilíbrio entre ambição e realismo. Nossas metas na Rodada de Doha não devem ser apenas substanciais, têm que ser também factíveis.

Precisaremos acompanhar o ritmo acelerado das mudanças no mundo dos negócios. Os avanços em Genebra têm que ser mais ágeis. Aqui também precisamos encontrar outro ponto de equilíbrio, desta vez entre a urgência e a cautela. Pouco ajudará adentrarmos de maneira impensada e afoita nas negociações. Este seria o caminho mais seguro e curto para novos impasses.

Aprendemos muito com os fracassos dos últimos 18 anos. Por outro lado, também trazemos lições importantes do êxito em Bali. Algumas delas não podem ser esquecidas. As negociações precisam ter a participação de todos os 160 membros. O processo é um pouco mais lento, mas o resultado final é melhor aceito e conseguir o consenso fica mais fácil. Além disso, é preciso que todos os países tenham ganhos, sobretudo os menos desenvolvidos.

Presidentes e premiês, ministros, empresários, e representantes da sociedade civil, enfim, todos com quem conversei foram unânimes em afirmar que a economia mundial precisa de uma OMC que produza mais resultados e com mais velocidade.

Os países envolvidos em iniciativas comerciais bilaterais e regionais deixaram claro que seguem comprometidos e empenhados em obter resultados multilaterais na OMC, onde os dividendos são bem maiores. A agenda comercial pode e deve avançar em todas as frentes, de maneira complementar.

Volto de Davos motivado pelas expectativas sobre esse processo pós-Bali e encorajado pelo apoio que recebi de todos para avançarmos as negociações. Davos confirmou minha visão de que a economia mundial necessita e anseia por uma OMC a todo vapor.