OPINIÃO

O fim de Trump

"Se Trump demitiu Comey para evitar ser investigado, isso é obstrução de justiça, um delito passível de levar a um processo de impeachment."

23/06/2017 10:39 -03 | Atualizado 23/06/2017 10:47 -03

A dúvida não é mais se existem bases para mover um processo de impeachment contra Donald Trump. É se republicanos em número suficiente vão priorizar a lealdade à América, mais que a lealdade a seu partido.

As declarações de Trump sobre a demissão do ex-diretor do FBI, James Comey, em maio, constituem evidências amplas de que ele praticou obstrução de Justiça. Essa foi uma das acusações mais importantes que constaram dos processos de impeachment movidos contra Richard Nixon e Bill Clinton.

Vale recordar que o ato ilícito que deu origem ao impeachment de Nixon foi um furto no edifício Watergate, enquanto o ato ilícito por trás do processo de impeachment de Clinton foi o fato de ele ter mentido a um grande júri sobre ter feito sexo com uma estagiária na Casa Branca.

A obstrução cometida por Trump é potencialmente muito mais grave. Ela envolve uma investigação para determinar se Trump ou seus assessores entraram em conluio com a Rússia para manipular uma eleição presidencial – o ataque mais direto da história dirigido contra a democracia americana.

Em entrevista que deu a Lester Holt, do NBC News, sobre a demissão de Comey, Trump disse: "Eu ia demiti-lo, independentemente de recomendações". Trump disse também que pressionou Comey, em um jantar reservado, para lhe dizer se ele, Trump, estava sendo investigado.

Embora Trump já tenha feito ameaças indiretas, afirmado que "é bom Comey torcer para não haver 'fitas' de nossas conversas, antes de começar a vazar para a imprensa", ele negou nesta quinta-feira (22), que tenha feito as gravações.

Trump, entretanto, admitiu que a investigação em curso sobre a influência russa sobre a eleição de 2016, que inclui um esforço para averiguar a possibilidade de Moscou ter colaborado com a campanha de Trump, foi um dos fatores que ele levou em conta ao demitir James Comey.

"Na verdade, quando decidi fazer [demitir Comey], eu disse a mim mesmo, 'sabe, essa coisa da Rússia, de Trump e a Rússia, é uma história fabricada, é uma desculpa dos democratas por terem perdido uma eleição que deveriam ter ganho'", falou Trump.

A lei é razoavelmente clara. Se Trump demitiu Comey para evitar ser investigado, isso é obstrução de justiça, um delito passível de levar a um processo de impeachment.

Também aqui a lei é clara. Buscar silenciar, intimidar ou mesmo influenciar uma pessoa que provavelmente vai depor em um processo congressional ou criminal também constitui obstrução de justiça – e é um delito que pode levar ao impeachment de quem o comete.

Em termos práticos, porém, nada vai acontecer enquanto uma maioria dos deputados na Câmara não decidir iniciar um processo de impeachment. Com a composição atual do Congresso, isso significa que 22 deputados republicanos teriam que se unir aos deputados democratas para colocar pressão suficiente sobre o presidente da Câmara para permitir a discussão de tal medida.

As chances de isso acontecer neste Congresso, sob as circunstâncias atuais, são de aproximadamente zero.

Assim – tirando a possibilidade de aparecer uma prova inequívoca que demonstre a cumplicidade de Trump com agentes russos para interferir na eleição de 2016 --, o destino de Trump parece depender das eleições parlamentares de 2018.

Faltam menos de 18 meses para essas eleições. Isso é um tempo muito longo, na política americana. Sob uma presidência de Trump, é uma eternidade.

Mas existe outra possibilidade.

Na minha experiência, a maioria dos políticos eleitos tem duas metas: fazer o que consideram ser as coisas certas para a população americana e ser reeleitos (não necessariamente nessa ordem).

Trump será afastado quando um número suficiente de americanos decidir que não o suporta mais.

Se o índice de popularidade de Trump continuar a cair, especialmente entre republicanos e independentes, é muito possível que 22 deputados republicanos decidam que suas chances de serem reeleitos serão melhores se o abandonarem antes das eleições parlamentares de 2018.

Paul Ryan e a liderança republicana na Câmara podem fazer um cálculo semelhante, pelo menos em grau suficiente para colocar uma proposta de impeachment sobre a mesa.

A maioria dos deputados republicanos prefere o vice-presidente Mike Pence a Donald Trump, de qualquer maneira. Como um deles me disse vários meses atrás, "Pence é um conservador previsível. Trump é um egomaníaco imprevisível. A maioria de nós sente mais segurança com o primeiro."

Há boas chances de os números de Trump nas sondagens continuarem a cair. Para começar, ele já demonstrou que ele próprio é seu pior inimigo. Mesmo quando as coisas vão razoavelmente bem, Trump parece estranhamente decidido a suscitar controvérsia e a dizer ou tuitar coisas que o mergulham em problemas.

Há também a questão da economia. A fase de expansão que começou em 2009 está se esgotando. Se a história serve de precedente, uma desaceleração ou recessão está a caminho. E, seja isso justificado ou não, os presidentes acabam levando a culpa quando americanos perdem seus empregos.

Donald Trump não possui o caráter ou o temperamento para ser presidente dos Estados Unidos. Mas esse fato óbvio não é o bastante para fazê-lo ser demitido.

Ele será demitido quando um número suficiente de americanos decidir que não o suporta mais.

E então, possivelmente em um processo de impeachment, virá à tona que Trump fez alguma coisa incrivelmente estúpida, como aprovar que um dos oportunistas de sua campanha, tipo Roger Stone, mandasse um agente russo seguir adiante com seu plano de interferir na eleição de 2016.

A Câmara abre um processo de impeachment. O Senado condena. É o fim de Trump.

*Este post foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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