OPINIÃO

A economia da partilha das migalhas

05/02/2015 16:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
id-iom/Flickr
So once again we went east to paint up the wall that we have done before because you guessed it, it got tagged up again. Although this time it was a little more tasteful than the word 'Anus' and we also didn't have to fight with any film crews for the space this time either. The letter box bandit comes from a newspaper article i read, about someone who was going around stealing post out of peoples letter boxes. You have to wonder though why you would do such a thing because i know most of the letters i receive are bills or some such rubbish and hardly ever anything interesting and it seems just a complete waste of time. Supposedly this thief was quite determined though carrying his campaign of thievery on for years. He must of had a list of birthdays because why else would you do it? Although there wasn't a picture with the article i was thinking what kind of person would be a letter box bandit and i came to the conclusion he would look like some sort of primary school teacher who has nothing better to do with his time after he's been let out of school at 3 in the afternoon. He's got a few hours before his wife or friends finish their work and he doesn't want to spend it in the pub as he'll just be drunk before anyone gets home, so he decides to embark on a criminal crime wave and become the letter box bandit. Cheers id-iom

O que você acharia de viver numa economia em que robôs fazem tudo o que pode ser programado previsivelmente de antemão e quase todos os lucros ficam com os donos dos robôs?

Enquanto isso, humanos fazem os trabalhos imprevisíveis - trabalhos avulsos, projetos que envolvem ficar de plantão, buscar e consertar aparelhos, dirigir carros e fazer entregas, tarefas pequenas necessárias a qualquer hora e a toda hora - e, com isso, mal conseguem receber o suficiente para sobreviver.

Prepare o seu coração, porque estamos correndo em alta velocidade na direção dessa economia.

Os humanos são motoristas da Uber, pessoas que montam as cestas de compras da Instacart e anfitriões da Airbnb. Fazem pequenos serviços para quem os procura no site Taskrabbit, podem ser os advogados que atendem no Upcounsel ou os médicos online do Healthtap.

Eles são os ajudantes que contribuem com inteligência humana no site Mechanical Turk.

Tudo isso é descrito com o eufemismo "economia da partilha". Um termo mais exato seria "economia da partilha de migalhas".

Novas tecnologias de software hoje permitem que quase qualquer trabalho seja decomposto em tarefas separadas que podem ser distribuídas entre trabalhadores quando necessário. O pagamento é determinado pela demanda existente por aquela tarefa específica naquele momento particular.

Clientes e profissionais são postos em contato online. Os profissionais são classificados segundo a qualidade e confiabilidade de seu trabalho.

O dinheiro grande fica com as grandes empresas que são donas do software. Os profissionais que realizam as tarefas quando e onde são pedidas ficam com as migalhas.

Considere o caso do "Mechanical Turk", da Amazon. A Amazon o descreve como "um mercado de serviços que exigem inteligência humana".

Na realidade, é um mural de serviços na internet que oferece pagamento mínimo por tarefas minúsculas e entediantes. Os computadores não conseguem realizar essas tarefas porque elas exigem alguma capacidade mínima de avaliação, então humanos as fazem por pagamento irrisório. Exemplos: redigir uma descrição de produto, US$3; escolher a melhor entre várias fotos, US$0,30; decifrar letra manuscrita, US$0,50.

Uma parte grande de cada transação fica com a Amazon.

Isso tudo é a coroação lógica de um processo que começou 30 anos atrás, quando corporações começaram a trocar profissionais que trabalhavam em empregos em tempo integral por profissionais em regime temporário, terceirizados, freelancers e consultores.

Foi uma maneira de transferir os riscos e as incertezas aos trabalhadores - por exemplo, trabalhos que poderiam levar mais tempo ou ser mais cansativos que o previsto.

E foi uma maneira de passar ao largo de leis trabalhistas que definiam padrões mínimos em termos de salários, horas trabalhadas e condições de trabalho. Leis essas que possibilitavam aos trabalhadores se unirem para negociar salários e benefícios melhores.

O novo trabalho por empreitada transfere os riscos integralmente para os trabalhadores e elimina por completo as garantias trabalhistas mínimas.

De fato, o trabalho feito a pedido constitui uma reversão ao regime de trabalho por empreitada do século 19 - quando os trabalhadores não tinham poder algum nem direitos legais, assumiam todos os riscos e trabalhavam muitas horas e em qualquer horário em troca de pagamento mínimo.

Os motoristas da Uber usam seus próprios veículos, pagam seu próprio seguro, trabalham tantas horas quanto quiserem ou conseguirem - e pagam uma porcentagem gorda à Uber. Segurança do trabalho? Previdência social? A Uber diz que não é empregadora, logo, não é responsável por nada disso.

Os "mechanical turks" da Amazon trabalham em troca de centavos, literalmente. Salário horário mínimo? Acréscimo de 50% por hora extra? A Amazon diz que ela apenas põe compradores e vendedores em contato, logo, não é responsável.

Os defensores do trabalho a pedido destacam seu caráter flexível. As pessoas podem trabalhar quantas horas quiserem, podem fazer seu próprio horário de trabalho, podem preencher o tempo ocioso em suas agendas.

"As pessoas estão monetizando seu tempo ocioso", diz Arun Sundararajan, professor da escola de administração de empresas da New York University.

Mas esses argumento confunde "tempo ocioso" com o tempo que as pessoas normalmente reservam para o resto de suas vidas.

Ainda há apenas 24 horas em cada dia. Quando o "tempo ocioso" é convertido em horário de trabalho, e quando essas horas de trabalho são imprevisíveis e mal pagas, o que acontece com os relacionamentos pessoais? Com a família? Com nossa saúde?

Outros proponentes do trabalho por empreitada apontam para estudos, como um que foi encomendado recentemente pela Uber, segundo os quais os trabalhadores a pedidos da Uber são "felizes".

Mas quantos deles não seriam mais felizes com um emprego bem pago e um horário de trabalho regular?

Uma oportunidade para ganhar alguns dólares a mais pode parecer altamente atraente numa economia onde o salário médio se encontra estagnado há 30 anos e quase todos os ganhos econômicos vão para a camada mais rica da população.

Isso não significa que essa oportunidade seja um grande negócio. Apenas mostra como a maioria da população trabalhadora anda passando por dificuldades.

Os defensores desse tipo de trabalho também observam que, à medida que o trabalho a pedidos continua a aumentar, os trabalhadores a pedido vêm se unindo em grupos como associações profissionais, para comprar seguro e outros benefícios.

Mas chama a atenção o fato de eles não estarem usando seu poder de barganha para ficar com uma parcela maior da renda que geram ou para trabalhar em horários regulares. Se o fizessem, isso significaria que formaram um sindicato - algo que a Uber, a Amazon e outras empresas de trabalho por empreitada rejeitam.

Alguns economistas saúdam o trabalho a pedido, vendo-o como modo de utilizar trabalhadores com mais eficiência.

Mas o maior desafio econômico que enfrentamos não é fazer uso mais eficiente das pessoas. É fazer uma distribuição mais decente do trabalho e da renda obtida com o trabalho.

Segundo esse critério, a economia da partilha de migalhas nos está impondo um enorme retrocesso.

O filme "Inequality for All" (Desigualdade para todos), de ROBERT B. REICH, está disponível em DVD, blu-ray e no Netflix. Veja o trailer abaixo:

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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