OPINIÃO

A ascensão dos pobres que trabalham e dos ricos que não trabalham

05/04/2015 11:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Gustav Dejert via Getty Images
Businesswoman on small stack of coins looking up to businessman on large stack of coins

Muita gente acredita que os pobres merecem ser pobres porque são preguiçosos. Como disse o presidente da Câmara americana, John Boehner, os pobres pensam algo como: "Não preciso trabalhar, na realidade. Na verdade não quero fazer isso. Acho que prefiro ficar aqui sem fazer nada."

Na realidade, uma fatia grande e crescente dos pobres dos EUA trabalha em período integral - às vezes 60 horas ou mais por semana - e ainda assim não ganha o suficiente para tirar a si mesmos e a suas famílias da pobreza.

Também se acredita, especialmente entre os republicanos, que os ricos merecem sua riqueza porque trabalham mais duro que os outros.

Na verdade, uma fatia grande e crescente dos super-ricos nunca suou a camisa. Sua riqueza foi entregue de bandeja.

A ascensão desses dois grupos - os pobres que trabalham e os ricos que não trabalham - é relativamente nova. Ambos desafiam as premissas americanas básicas de que as pessoas recebem o que vale, e de que o trabalho é remunerado de forma justa.

Por que esses dois grupos estão crescendo?

Os pobres que trabalham crescem porque os salários na parte inferior da pirâmide estão caindo, ajustados pela inflação. Com um número cada vez maior de americanos em empregos que pagam baixos salários de varejo, hoteis, hospitais, cuidando de crianças e idosos e fazendo outros serviços pessoas, os rendimentos do quinto inferior da pirâmide está chegando cada vez mais perto do salário mínimo.

Ao mesmo tempo, o valor real do salário mínimo estabelecido pelo governo federal é mais baixo hoje do que 25 anos atrás.

Além disso, a maior parte das pessoas que recebe ajuda do governo agora precisa ter trabalho para ter direito ao benefício.

A reforma da assistência social de Bill Clinton, em 1996, empurrou muita gente pra fora do sistema e pra dentro do mercado de trabalho. Enquanto isso, os créditos tributários por renda de trabalho, um subsídio nos salários, agora é o maior programa antipobreza do governo. Aqui, também, ter um emprego é um pré-requisito.

Os novos requisitos de trabalho não reduziram o número ou a porcentagem de americanos na pobreza. Eles só mudaram uma situação: em vez de desempregados e pobres agora eles são empregados e pobres.

A pobreza caiu nos primeiros anos da reforma do sistema de benefícios, quando a economia estava em expansão e havia muitos empregos. Mas a pobreza voltou a crescer em 2000. Em 2012, ela ultrapassou os níveis de 1996.

Ao mesmo tempo, o número de ricos que não trabalham vem aumentando. O lendário "self-made man" está sendo substituído pelo herdeiro rico.

Seis dos dez americanos mais ricos de hoje são herdeiros de grandes fortunas. Sozinhos, os herdeiros do Wal-mart têm mais riqueza acumulada que os 40% americanos mais pobres.

Os americanos que ficaram incrivelmente ricos ao longo das últimas três décadas agora estão transferindo suas riquezas para seus filhos e netos.

O país está à beira da maior transferência de riqueza intergeneracional da história. Um estudo do Centro de Riqueza e Filantropia do Boston College projeta um total de 59 trilhões de dólares passados para herdeiros entre 2007 e 2061.

Como nos lembra o economista francês Thomas Piketty, é o tipo de riqueza dinástica que manteve viva a aristocracia europeia durante séculos. Ela está prestes a se tornar a principal fonte de renda para a nova aristocracia americana.

O sistema tributário incentiva isso tudo, favorecendo os rendimentos financeiros em detrimento dos rendimentos do trabalho.

A principal alíquota paga pelos americanos ricos sobre seus ganhos de capital - a principal fonte de renda dos ricos que não trabalham - caiu de 33% no fim dos anos 1980 para 20% hoje, o que a deixa muito aquém da alíquota mais alta sobre os rendimentos comuns (36,9%).

Se os donos de patrimônios cujo valor aumenta ao longo de suas vidas os segurarem até o momento da morte, seus herdeiros não pagam nenhum imposto de ganho de capital. Tais ganhos "não-realizados" agora são mais de metade do valor dos bens dos espólios acima de 100 milhões de dólares.

Ao mesmo tempo, os impostos sobre espólios foram cortados. Antes da chegada de George W. Bush à Presidência, ele incidia sobre bens acima de 2 milhões de dólares por casal, com uma alíquota de 55%. Agora ele só incide acima de 10,7 milhões de dólares por casal, com alíquota de 40%.

No ano passado, somente 1,4 de cada 1 000 espólios deviam impostos, e a alíquota real paga foi de apenas 17%.

Os republicanos, que agora controlam o Congresso, querem ir além. Na sexta passada, o Senado aprovou por 54 votos a 46 uma resolução para acabar com o imposto sobre espólios. Na mesma semana, uma comissão do Congresso também votou a favor da medida. A votação na Câmara deve acontecer nas próximas semanas.

Mas espectro de uma geração inteira que não faz nada pelo dinheiro a não ser ligar para gestores de fortunas não é particularmente atraente.

Uma parcela cada vez maior da responsabilidade de investir uma parte substancial dos bens da nação está nas mãos de pessoas que nunca trabalharam.

Isso também representa um risco para a nossa democracia, pois a riqueza dinástica inevitável e invariavelmente acumula influência política e poder.

Considere a ascensão dos trabalhadores pobres e dos ricos que não trabalham, e o ideal meritocrático com o qual se justifica a crescente desigualdade nos Estados Unidos simplesmente não para em pé.

A desigualdade cada vez maior - somada a um número crescente de pessoas que trabalha em período integral mas ainda é pobre e àqueles que nunca trabalharam mas são fabulosamente ricos - está minando as fundações morais do capitalismo americano.

O filme de Robert B. Reich "Inequality for All" (desigualdade para todos, em tradução livre) está disponível em DVD, Blu-Ray e no Netflix. Assista ao trailer abaixo:

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.