OPINIÃO

Estamos mais perto de entender uma lua que poderia abrigar vida alienígena

29/05/2015 18:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02
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Nesta semana demos um passo importante na compreensão de um mundo do nosso sistema solar que, acredito, tem a melhor chance de sustentar vida além do nosso planeta. A NASA acaba de anunciar os detalhes sobre os instrumentos que estarão a bordo de uma sonda espacial que vai investigar a lua Europa, de Júpiter, na próxima década.

Eu não poderia estar mais empolgado por ser o cientista do projeto dessa missão. Conheci Europa na infância, quando fazia planetas de bolas de tênis cobertas de papel e fita adesiva e as pendurava no teto do meu quarto. Em 1979, as naves gêmeas Voyager 1 e Voyager 2 passaram por Júpiter e suas luas. Apesar de não ser a maior lua de Júpiter, Europa é a mais enigmática: as fotos da Voyager mostraram um labirinto de linhas escuras marcando a superfície brilhante e gelada, como uma casca de ovo rachada.

As primeiras fotos da Voyager 2 inspiraram Carl Sagan a se perguntar se as faixas escuras eram regiões montanhosas ou vales. O que elas dizem a respeito da história desse mundo? Tive a sorte de fazer um curso com Sagan na Universidade Cornell, em 1985, e fiquei fascinado com a possibilidade de haver um oceano em Europa. Era incerto se tal oceano teria congelado ao longo do tempo ou persistiria até hoje.

Para saber mais, a nave Galileo passou por Europa uma dúzia de vezes enquanto estava na órbita de Júpiter, entre 1996 e 2002. As imagens da Galileo mostraram a superfície de Europa cheia de montanhas e vales. Os padrões das montanhas e das rachaduras sugerem que por baixo haja um oceano, que permite que a casca de gelo se flexione e quebre. Crateras enormes com o formato de altos são indicadores de cometas que se colidiram com a lua: o impacto penetrou a casca de gelo e expôs a água líquida abaixo. Em certos lugares, a superfície está quebrada em pedaços do tamanho de cidades, que parecem enormes massas de gelo flutuante.

Além dessa geologia estranha, Europa exibe uma assinatura magnética pouco comum. Os sensores magnéticos da Galileo detectaram uma camada sob a superfície de Europa capaz de conduzir eletricidade, o que pode indicar um oceano subterrâneo salgado. É esse oceano que torna Europa especialmente fascinante, por causa da distinta possibilidade de que haja vida nessas águas escuras. Não esperamos encontrar baleias ou peixes, mas talvez existam microorganismos unicelulares alienígenas ali.

Outras luas de Júpiter - Ganymede e Callisto - provavelmente têm oceanos nas profundezas. A minúscula lua Enceladus, de Saturno, jorra água de gêiseres. Mas o oceano de Europa tem a melhor chance de abrigar vida, porque provavelmente tem os três ingredientes necessários para a vida - água e os elementos necessários para construir moléculas orgânicas e energia química.

Encontrar vida fora da Terra acabaria com nosso isolamento cósmico: se há vida no nosso quintal planetário, então é provável que ela exista em todo o universo.

Essas possibilidades sedutoras explicam por que meus colegas e eu passamos 17 anos desenvolvendo uma missão espacial dedicada a entender Europa. Como a Galileo, vamos orbitar Júpiter, mas desta vez vamos nos concentrar em Europa, com dezenas de sobrevoos próximos e instrumentos desenhados para entender a história dessa lua.

Entre os planos e os dados, haverá uma espera de pelo menos uma década. Alguma criança, em algum lugar do mundo, está pendurando planetas de brinquedo no teto do seu quarto - para nos ajudar no futuro a decifrar se Europa é tudo o que espero que seja.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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