OPINIÃO

E, de repente, começou a Copa do Mundo - e ela já pegou!

16/06/2014 08:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02

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Foto: eu e a patroa curtindo a festa.

A abertura da Copa do Mundo, como todos sabem, começa não quando soltam umas pombas brancas no meio do campo e o juiz apita o inicio do primeiro jogo. Nem na véspera: começa anos antes, quando a pessoa se entende como gente. Começa com uma vaga lembrança de verde e amarelo por todo lado, e de seu pai usando chapéus engraçados, de churrascos e gente pulando, gritando e chorando. A partir disso, é uma expectativa que só cresce até o limite, até que a vida fica incontrolavelmente boa a cada quatro anos.

Agora imagine que essa euforia toda aconteça no seu quintal, na sua cidade, no seu bairro! Os homens mais famosos do mundo estão chegando no seu pedaço. Não falo de Leonardo DiCaprio ou Mick Jagger. Esses caras também vêm para a festa, mas eles se sentam na arquibancada como qualquer um de nós. Falo dos verdadeiros rockstars destes dias em que o cinema perde força e o rock virou peça de museu: jovens que realmente são ídolos das crianças de hoje. Messi e Robben passeando no Rio de Janeiro; Schweinsteiger, boa-praça, confraternizando com os locais na quebrada da Bahia; Iniesta e cia em Curitiba; Cristiano Ronaldo arrastando 10 mil fãs para o treino de Portugal em Campinas; Neymar na TV e no Insta o tempo todo (e a namorada dele na novela das oito). Como num comercial da Nike ou da Adidas, contra um time desses não há quem possa. Até os mal humorados e catastrofistas de plantão se renderam (ou tiveram suas vozes encobertas) pela onda do bem que cobriu o Brasil todo desde que as seleções começaram a desembarcar no país.

Mas não fica por aí. Imagine que você pode se misturar a hordas de estrangeiros de toda espécie - japoneses andando em grupos organizados com alguém portando uma plaquinha que indica o caminho; ingleses e holandeses vermelhos de tanta caipirinha; alegres moças escandinavas (qualquer gringa doravante será chamada de escandinava) rodando os bares da Vila Madalena ou de Santa Teresa; croatas, mexicanos, chilenos, até mesmo uns argentinos encrenqueiros... Todos procurando um ingresso de última hora ou, na falta dele, um trago e meia hora de conversa.

Só que você tem o ingresso, e vai testemunhar um dos poucos eventos que, aconteça o que acontecer, ficam na história. E você entrará num estádio colorido, com gente de diversas nações se misturando, adversários sentando lado a lado e tirando fotos uns dos outros. E verá um futebol de qualidade muito superior àquela do que vemos no dia-a-dia (e pelo qual ainda tem gente que briga!). E o mundo inteiro saberá e discutirá em detalhes aquilo que você viu ao vivo. Eventualmente, jornalistas renomados discutirão o que você ajudou a fazer, seja um hino cantado a plenos pulmões, uma vaia mais grosseira, um silêncio assustador ao sofrer um gol ou uma insana gritaria ao testemunhar o gol da virada.

Se tudo isso acontecesse, você ainda faria biquinho e ficaria procurando defeitos? Nem eu.

Por isso, pouparei vocês dos detalhes. Não vou falar de como foi fácil atravessar São Paulo num metrô, convenhamos, mais decente do que o de Paris. Não discutirei os detalhes arquitetônicos e o estado de completude da Arena Corinthians. Não reclamarei das filas e da falta de sanduíches no estádio (e quem liga pra sanduíche numa hora dessas?). Evitarei reclamar da sinalização insuficiente e dos voluntários mal treinados. Só vou dizer que a coisa passou meio como num sonho, tudo meio enevoado e rápido, sem entender direito o entorno e o contexto - as coisas só iam acontecendo, numa sucessão de absurdos. Andávamos alguns passos e uma cerveja me era colocada nas mãos; daqui a pouco uma atriz global procurava seu portão de entrada. Washington Olivetto aliviava a bexiga no mictório vizinho ao meu, e respondeu com classe à minha saudação, "vai Corinthians" - resmungou ele com tranquilidade. Minha esposa tirando uma foto com o Raí, eu trocando uma ideia rápida com o Fábio Luciano, amigos são-paulinos repetindo o bordão "aqui é trabalho, meu filho", abraçados a Muricy. No gramado coberto por uma lona, um troço muito estranho acontecia, gente vestida de árvore, um moleque remando numa canoa voadora. Tudo meio psicodélico. E tudo pouco importante perto da expectativa de ver a Seleção jogando numa Copa do Mundo.

Como tudo que realmente importa - a infância, o sexo, a vida -, o jogo passou voando, desde a cena bonita do hino cantado à capela até o gol tranquilizante de Oscar. Dele, guardarei o fato de que Neymar é o cara. Que o tal de Modric, do Real Madrid, é um "cracaço" e que a Copa do Mundo traz talentos por todo lado. Que o Felipão terá trabalho para acertar o time, especialmente os buracos na marcação e que a paulada que paguei nos ingressos foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida.

Alguns flashs surreais que divido com o leitor:

- Dois integrantes de alguma torcida organizada do Corinthians que investiram todas suas economias, forças e lábia para instalar uma faixa alvinegra na arquibancada. Os seguranças não deixavam de jeito nenhum. Fui lá perto ouvir a discussão, e os rapazes lançaram mão de termos como "apartheid social", "discriminação" e outros maniqueísmos para sensibilizar os censores. Eu sugeri, "deixa os 'curíntia' botarem a faixa", na tentativa de criar um clamor do pessoal das redondezas. Mas o diretor de uma empresa patrocinadora ficou muito contrariado, pois a faixa alvinegra estragaria a foto que ele sonhou ter com seus convidados, todos sentados logo acima do local da faixa. A faixa acabou sendo pendurada no final do primeiro tempo, e os corinthianos comemoraram e correram para outro ponto do estádio, onde outra faixa deveria ser instalada.

- Ao fazer o segundo gol, Neymar levou a mão acima dos olhos, protegendo-os da iluminação do estádio e buscando encontrar alguém. Viu minha turma e, aparentemente, dedicou o gol a nós. Então, uma certa comoção começa a acontecer umas dez fileiras abaixo da nossa. Era a Bruna Marquezine, homenageada e feliz da vida.

- Na volta para casa, cansados, conhecemos uma turminha da pesada no metrô. A moça trazia uns 30 copos de cerveja enfiados uns nos outros, como o souvenir definitivo da abertura da Copa. Seu namorado barbudo mal se aguenta em pé de tão bêbado. Um amigo está ainda pior, e aplica cantadas desajeitadas em qualquer ser bípede - e isso incluiu um amigo meu, minha esposa e finalmente uma moça que o acolheu e aceitou sua cabeça deitada em seu ombro. Sob o som de dezenas de pessoas cantando a melodia de Love Story, o barbudo pede silêncio, se ajoelha e pede a moça em casamento. A resposta dela: "você tá bêbado, porra!"

- Enquanto escrevo estas linhas, holandeses e brasileiros fazem trenzinho nas arquibancadas da Fonte Nova, em Salvador. O motivo é a goleada de 5 a 1 da Holanda sobre a Espanha mas, se não fosse esse, seria por qualquer outra coisa.

Pra quem reclama da falta de "brasilidade" no evento, minha opinião é a seguinte: a Copa do Mundo é sempre a mesma, só muda a sede. Sua cultura é a de coexistência. Ela é meio padronizada, com aquela pinta de aldeia global asséptica à Epcot Center (gente fantasiada de maneira folclórica, Waka Waka etc), mas é bacana. O congraçamento é espontâneo e honesto, e o denominador comum de tudo é a curiosidade geral pelo outro - porque é uma coisa entre crianças. Ontem, eu era uma delas. Todos éramos.

Próxima parada: quinta-feira, Inglaterra x Uruguai, novamente em Itaquera. Rooney, Gerrard, Lampard, Cavani e Suarez. E mais gringos com quem beber, rir e celebrar-se mutuamente.

A Copa do Mundo já pegou. Não desperdice a chance de curtir este momento único.

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