OPINIÃO

Bom Senso: pela modernização do futebol brasileiro

11/07/2014 13:19 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Agora já se foram vários dias desde aquela roda de bobinho de luxo da Alemanha sobre o Brasil. Tentei curar a ressaca indo ao estádio ver Argentina e Holanda. Tentei pensar em outras coisas - como o trabalho, a vida, essas coisas menores em tempos de Copa do Mundo. Finalmente, entreguei-me ao vício e passei duas noites assistindo àquele primeiro tempo horroroso, voltando os lances e revendo-os em câmera lenta. Cheguei ao cúmulo de anotar cada erro de posicionamento e marcação, de tão inverossímil que foi a coisa toda.

Esta Copa de 2014 me trouxe uma epifania, como só 1982 tinha feito. Mas agora foi diferente. Em 1982, perecebi que o mundo era um lugar feio e injusto, onde Zico e Sócrates não ganhavam a Copa do Mundo. Em 2014, descobri que vivemos dentro da Matrix, e tudo que eu pensava entender sobre futebol não significa nada, e a Alemanha foi a pílula vermelha que me fez enxergar tudo. E agora me resta entender.

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O momento antes de tudo começar a mudar: ligação direta 1982-2014.

Li muitos textos, bons e ruins, catastrofistas e equilibrados, alguns de visão curta e, outros, verdadeiros tratados filosóficos. Tenho minha opinião sobre a coisa toda, mas acho que ela acrescentaria pouco a tudo que já foi falado (a saber, acredito que seja uma soma de vários fatores, aqui em breves linhas: a cultura do futebol bem jogado foi varrida pela obrigação de vencer a qualquer custo - algo que começou justamente com a derrota na Copa de 1982 -; não há e nunca houve qualquer programa de formação de jogadores, e nossos treinadores e dirigentes são toscos e escravos de resultados de curto prazo (como os políticos, os executivos e, pensando bem, os cidadãos); a safra de jogadores - até pelas razões anteriores - é ruim; o futebol mudou muito durante os últimos anos, capitaneado por Pep Guardiola e os times que derivaram de seu ideário (Barcelona, Espanha, Bayern e Alemanha); Felipão é um técnico ultrapassado, que convocou mal - time muito jovem -, escalou mal - meio-de-campo inexistente e atacantes isolados - e mexeu mal; e, finalmente, aconteceu um apagão inexplicável que dificilmente se repetiria em qualquer outra ocasião. Resumindo, acredito que acidentes acontecem, mas acontecem com mais frequência e intensidade onde há negligência e despreparo.)

Mas prefiro não ficar discursando aqui. Mais útil é dar minha pequena contribuição para amplificar o depoimento de quem tem muita disposição de mudar as coisas e algum poder para isso. Por isso, meu post de hoje reproduz a íntegra da nota oficial do zagueiro Paulo André, líder do Bom Senso F.C..

(Não conheço Paulo André, exceto por um curioso incidente acontecido em Tóquio, em dezembro de 2012: sua família e eu estávamos hospedados no mesmo hotel e, no dia da semifinal do Mundial de Clubes que o Corinthians disputava, carreguei a pedido de seu pai um precioso envelope contendo fotos e cartas dos familiares para o zagueiro ler antes do jogo. Foram duas horas de trem-bala até chegar a Nagoya, onde entreguei a encomenda a um funcionário do Corinthians. Paulo jogou muito naqueles dois jogos no Japão.)

Mas o que interessa não são meus causos; é o que Paulo André tem a dizer sobre o momento do futebol brasileiro, aproveitando o momento de uma derrota acachapante. Vale ler, vale refletir. Eu apoio.

Com vocês, Paulo André:

Para não parecer oportunista, apesar de estar lutando publicamente contra as mazelas do nosso futebol há um bom tempo, decidi não escrever sobre o jogo, os sete gols, a comissão técnica, etc.. O resultado da partida e a consequente eliminação do Brasil não alteram, em nada, a minha opinião sobre a crise existencial que arrasa o futebol brasileiro há mais de uma década. Porém, devo confessar que o título, se conquistado fosse, me assustaria na mesma medida de grandeza que me assustou esta impressionante derrota. No fim, a vitória (pela qual eu torci) também não influenciaria a minha análise, apesar de eu saber que passaria os próximos 10 anos falando às moscas, como faz, desde 2002, o meu querido amigo, visionário e fundador da Universidade do Futebol, Prof. Medina.

Nos últimos dois dias muito se falou, muito se escreveu e muito se criticou. O que só fez aumentar o meu temor com relação ao futuro. Digo isto porque este filme é uma cópia fidedigna do que aconteceu na derrota do Santos para o Barcelona, em 2011. Aquele jogo deixou a mesma péssima impressão, de homens jogando contra meninos; causou os mesmos óbvios questionamentos (exaustivamente mastigados pela crítica) e, promoveu uma tentativa de caça as bruxas, mudança de mentalidade e "evolução tática" que em nada resultou. O buraco é muito mais embaixo. Os que dirigem o futebol nacional não deram as caras, se esconderam em ambas oportunidades. Como de costume, evitaram e evitarão ao máximo falar sobre as propostas para o futuro pois não entendem bulhufas do que deve ser feito. Entendem de política, de se manter no poder, de explorar o futebol, de mamar nas tetas da vaca. E como disse o senhor José Maria Marin na primeira reunião do Bom Senso na CBF: "Posso afirmar que não temos nada a aprender com ninguém de fora, principalmente no futebol. Sempre tivemos os melhores do mundo no Brasil. Já vencemos cinco vezes a Copa".

Ninguém tem necessidade daquilo que desconhece. "Coitado", ele e seus pares achavam que tudo ia muito bem e que o talento bruto resolveria a questão. Pior, nem fazem ideia de que a Seleção Brasileira é o menor, apenas a ponta do iceberg (incrível dizer isso depois de tomar de 7), dos problemas do nosso futebol.

Devemos aceitar esta derrota como mais uma das muitas importantes lições (sociais e esportivas) que a Copa nos trouxe até aqui. Se a procura por um legado era apenas para justificar o excesso dos gastos públicos, agora passou a ser o último lampejo de dignidade. Então proponho uma solução ao caos, DEMOCRATIZEM A CBF e salvem o futebol brasileiro.

Campeões, Bicampeões, Tricampeões, Tetracampeões, Pentacampeões, vocês que construíram o futebol brasileiro dentro de campo, estão convocados. Precisamos de vocês, precisamos ainda mais dos que já provaram sua capacidade fora de campo, gerindo, planejando, vivenciando o que há de melhor no futebol contemporâneo mundial.

Zico, Tostão, Leonardo, Raí, Cafu, Juninho Pernambucano, Kaká, Ricardo Gomes, Roque Junior, Edmilson, Juninho Paulista, Vagner Mancini, Tite, Paulo Autuori e tantos outros, venham, passou da hora de discutirmos um plano de desenvolvimento nacional do futebol, de criarmos regras e licenças para capacitar os novos treinadores, de formarmos melhor as nossas jovens promessas, de desenvolvermos ou resgatarmos o estilo de jogo brasileiro, de protegermos as boas práticas de gestão, de punirmos os infratores, de trazermos as famílias de volta aos estádios de futebol, etc...

Se a CBF não promove esse debate, montemos a nossa Seleção fora dos gramados para desbancar a paralisia da entidade e desatar os nós das amarras políticas que impedem o desenvolvimento, a transparência e a democracia do nosso futebol.

Não os queremos apenas para que deem a cara e tenham a imagem explorada, como aconteceu com alguns de nossos companheiros nos últimos anos. Queremos sua experiência, sua paixão pelo esporte, sua alma vencedora e incansável para concretizar mudanças significativas a longo prazo. Acadêmicos, cientistas, estudiosos também são bem vindos, o conhecimento de vocês é fundamental na construção de um novo rumo.

À imprensa e ao torcedor, digo: Não esperem milagres, não acreditem em soluções mágicas como uma simples troca de comissão técnica ou o aparecimento de um novo Neymar. Se o planejamento e o trabalho forem executados por pessoas competentes, apaixonadas e com conhecimento técnico em cada uma das diversas dimensões do futebol, ainda assim, levaremos pelo menos 10 anos para chegar lá. Uma caminhada de mil milhas começa com um simples primeiro passo.

PS: Explicarei no próximo texto o que quero dizer com democratizar a CBF, o gol que pode salvar a Copa.

Abs,

PA

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