OPINIÃO

O inferno vive dentro da gente

04/02/2014 09:32 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Aí você consegue realizar aquele grande grande sonho. No meu caso, me mudar para uma casa maravilhosa em Ilhabela, de frente para o mar, com piscina, cachoeira e espaço de sobra para criar minhas duas filhas, mantendo um trabalho que só me exigia um ou dois dias em São Paulo. É o paraíso, certo? Mas e quando, bem no centro do jardim do éden, você percebe que continua sofrendo e fazendo os outros sofrerem? E quando descobre que a serpente vive dentro do seu coração?

Acho que o mesmo vale para qualquer sonho. Pode ser uma viagem ao Oriente, um carro novo, aquele emprego que a gente sempre desejou. Nossa cultura nos condiciona a sonhar e buscar outras coisas. Chamamos a isso "progresso", "ir em frente", "desenvolvimento pessoal". Só que tem vezes em que o sonho se realiza e o vazio dentro da gente parece ainda maior.

O ano era o mitológico 2000. Além de levar esse vidão, eu tinha reencontrado o olho do furacão da internet, ao propor a um conceituado banco de investimento a criação de uma incubadora de empresas pontocom no Brasil. Como última pincelada no quadro da felicidade supostamente perfeita, minha mulher Gisela ficou grávida pela terceira vez. E desta vez de um menino, para completar a família junto com nossas pequenas Dora e Lorena.

Eu sempre fui agitado e, às vezes, explosivo. Daquele tipo que tem um bom coração, e depois de um surto de estupidez sempre vai pedir desculpas, o que adianta pouco, mas enfim... Com tudo que eu contei acima, era de se esperar que eu estivesse mais feliz, realizado e calmo do que antes, certo? Errado! Olhando em retrospectiva creio que poucas vezes na vida estive tão inquieto e agressivo como naquela virada para o século 21.

Hoje os motivos desse nervosismo me parecem tão claros quanto na época era difícil sequer reconhecer que eu estava doente. Como estava em processo de terapia em São Paulo, duas vezes por semana eu deitava no divã e falava de mim. O paraíso que eu construí era o pano de fundo. Eu me sentia o Sr. Sucesso, tinha tudo que alguém poderia almejar. Mas enfiei na cabeça que minha esposa não dava o "devido valor" a tudo que eu proporcionava para ela, que ela não me dava a atenção que eu merecia, não fazia a "parte dela". E assim eu iniciava uma cantilena interminável de rejeição e acusações de falta de acolhimento.

O que eu não percebia era que eu mesmo não me acolhia. E que, acima de tudo, minha medida do sucesso continuava totalmente equivocada. Sim, fui buscar outras coisas além do dinheiro e do poder, e havia conseguido. Tinha qualidade de vida, contato com a natureza, uma família linda e saudável e um cotidiano invejável. Mas continuava com o referencial do sucesso fora de mim mesmo, no que me faltava, no que eu merecia, no que eu desejava.

É aqui que mora a grande contradição. Eu era infeliz porque só pensava no eu, no que era meu, pra mim. Tinha de superar o egoísmo, mas tinha um ego mal-formado. Mal sabia que ainda ia sofrer e causar sofrimento muito maior àqueles que eu mais amava antes de perceber que a própria ideia de paraíso era o que me levaria ao inferno.

Mas isso é assunto para a semana que vem. Enquanto isso, vamos conversar?