OPINIÃO

Eu sou um machista - e estou sofrendo para me curar dessa doença

04/03/2015 12:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

Infelizmente, tenho de reconhecer que o machismo está no meu DNA. Se isso já é verdade para boa parte dos homens brasileiros, mais ainda para quem nasceu meio século atrás. Minha experiência aqui no Brasil Post, entretanto, hoje me faz sentir isso como uma doença - e daquelas bem difíceis de curar.

Não é de hoje que questiono a visão da mulher que aprendi em casa, na escola e no Brasil onde cresci. Essa ficha caiu faz tempo. Há muito sou simpático à causa do feminismo histórico. Para completar tenho duas filhas, hoje com 20 e 16 anos, e sei que elas não merecem crescer numa sociedade tão injusta para as mulheres.

O difícil é a gente entender que não basta criticar o machismo para se livrar dele. Essa coisa agarra na gente como o cheiro de cigarro na roupa depois da balada _opa, o mundo mudou, hoje ninguém mais fuma em ambientes fechados. Já na objetificação da mulher, infelizmente, parece que as coisas não mudaram tanto assim...

É na puberdade que nós meninos damos os primeiros passos para aprender a tratar a mulher como uma "coisa". Nos anos 60, nossa iniciação sexual era pautada pelos livrinhos de "catecismo". Nos 70, começou a era das revistas masculinas. Desde meados da década de 1990, a internet vem massificando nosso acesso à nudez e à pornografia. Emuldurando esse acesso solitário à pele feminina nua e crua, o cinema e a TV socializam a objetificação do corpo da mulher em tons mais "light".

Assim nós crescemos e nos transformamos em homens. E com uma sexualidade construída a partir da banalização da imagem do corpo feminino nu, fica difícil separar o desejo sexual da compulsão de consumo. Daí a ver todas as mulheres como um simples território a ser conquistado, é apenas um passo. E assim, a cada novo estímulo, o impulso natural vai sendo transformado em mania, em doença.

O impacto do trabalho na filial brasileira do Huffington Post neste meu processo de auto-crítica se deve, em parte, à extensa cobertura que damos aos temas feministas. Da campanha "Não mereço ser estuprada" às recentes ameaças que uma de nossas colunistas recebeu por denunciar comentários machistas em um fórum online, nossas páginas estão cheias de provas do preconceito e da covardia masculinas.

Meu maior aprendizado, entretanto, vêm da convivência com esta nova geração de mulheres jornalistas. Há 25 anos, monto equipes de pessoas com 25 anos para lançar novas plataformas de comunicação, sejam jornais, CD-ROMs, portais, sites ou apps. E essas jovens de agora, hiper-conectadas e engajadas, vêm me dando lições diárias sobre quanto eu ainda preciso andar no caminho dessa cura.

Claro que esse aprendizado não acontece de maneira fácil. Na maior parte das vezes não acolhi instantaneamente as críticas e observações das mulheres que trabalham ou já trabalharam nesta redação. Pouco a pouco, entretanto, as fichas vão caindo...

Nasci numa época em que as mulheres davam duro para ser boas donas de casa. Para agravar, sou filho temporão, nascido de pais bem mais velhos. Minha mãe completa 96 anos em junho, e se ainda estivesse vivo meu pai teria 99. Quando ele chegava do trabalho e buzinava no portão, ela corria para desligar a TV, esconder minhas bagunças e abrir a porta de casa para ele.

Aos sábados, íamos à feira juntos. Papai na frente escolhendo, pechinchando e comprando sempre nas mesmas barracas. Mamãe ia um passo atrás, empurrando o carrinho e tomando conta de mim. Um dia ela resolveu perguntar algo à japonesa da barraca das verduras, a mulher olhou para meu pai bastante admirada e disparou: "nossa, sua esposa fala? pensei que ela era muda..."

Quando meu pai morreu, eu e meus irmãos chegamos e pensar que mamãe não resistiria. Afinal, ele administrava tudo, ela não mexia com dinheiro e se resumia a cuidar da casa. Nunca havia assinado um cheque. Nunca aprendeu a guiar. Surpreendentemente, a viuvez foi uma espécie de renascimento. Minha mãe tomou as rédeas de todas as obrigações de um adulto. Finalmente, teve espaço para florescer. Isso talvez ajude a explicar sua longevidade.

Hoje minha mãe já não consegue cuidar dos aspectos práticos de sua vida, e eu assumi esse papel para ela. Ao mesmo tempo, "racho o apê" aqui em São Paulo com minha filha mais velha, que no final do ano se forma na faculdade de jornalismo _e engrossa a nova geração de profissionais que vem me ensinando um monte.

Essas duas mulheres -como minha outra filha e a mãe delas- sofrem, cada uma à sua maneira, as consequências da discriminação de gênero que ainda toma conta de nosso país. Podem ser salários mais baixos, falta de apoio das empresas para encarar ao mesmo tempo vida profissional e lida com os filhos, cantadas, assédio ou piadinhas infelizes -que, como eu já disse, às vezes ainda escapam de meus próprios lábios.

Ao dividir tudo isso aqui, não pretendo justificar minhas falhas. Tampouco tenho a ilusão de ser bem aceito no seio do feminismo (e isso não é mais uma piada machista). Ao mesmo tempo em que fechou as portas do movimento para nós homens, nossa blogueira Ana Rossato sugeriu:

Homens, querem participar? Desconstruam o machismo dentro dos seus meios. Apontem o machismo na fala dos seus iguais. Intercedam nas situações de opressão.

Preferi começar, aqui, desconstruindo o machismo dentro de mim mesmo.