OPINIÃO

Por que não temos um jantar com os correspondentes do Planalto?

06/05/2014 17:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
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WASHINGTON, DC - MAY 3: (AFP OUT) US President Barack Obama speaks at the annual White House Correspondent's Association Gala at the Washington Hilton hotel May 3, 2014 in Washington, D.C. The dinner is an annual event attended by journalists, politicians and celebrities. (Photo by Olivier Douliery-Pool/Getty Images)

Desde 1920, a Casa Branca promove seu jantar com os correspondentes que trabalham na sede do poder dos EUA - o White House Correspondents' Association. O primeiro presidente americano a participar do evento foi Calvin Coolidge e desde então o encontro ocorre regularmente na noite do último sábado de abril no Washington Hilton.

O formato foi mudando ao longo dos anos, e aquilo que era um show musical foi virando um roast do homem mais poderoso do mundo liderado por comediantes (que nunca são chapa-branca). Os performers têm total liberdade para falar o que quiserem - o que já provocou algumas saias justas, como no jantar de 2006, quando Stephen Colbert (nada menos que o homem que vai substituir David Letterman) irritou os apoiadores de George W. Bush com sua imitação de um radialista de extrema direita (o próprio Bush teria sido incapaz de esconder sua raiva).

Mas o jantar geralmente provoca bons momentos.

Bill Clinton em 2000 exibiu um filme mostrando o ócio de seus últimos dias como presidente, quando ele já era umlame duck.

O mais recente jantar teve como mestre de cerimônias Joel McHale, o implacável apresentador do The Soup no canal E!.

McHale não se inibiu diante do poder e provocou momentos de genuíno mal estar na plateia (sempre um sinal de que está fazendo bem o seu trabalho - basta lembrar-se da brilhante performance de Ricky Gervais no Globo de Ouro de 2012, que revoltou a plateia mas fez os espectadores em casa rirem como nunca).

O próprio Obama, como é tradição, fez seu discurso, atacando adversários - mas sem se poupar de temas difíceis, como os problemas com o site do Obamacare e sua queda de popularidade.

Por que presidentes do terceiro mundo não conseguem rir de si mesmos? Por que não existe um evento semelhante com os correspondentes do Planalto, pr exemplo? A resposta parece simples: nossos governantes são tão patéticos em tempo integral que prescindem de uma noite de humor oficial e patrocinado.

Lembro-me de Sarney, ao anunciar que Tancredo Neves estava melhorando (mantendo a longa tradição de que governantes devem mentir para a população desde o início de seus mandatos), que pediu licença para quebrar "a liturgia do cargo" e apontar o polegar para cima.

Desde sempre, presidentes brasileiros continuam a acreditar que a liturgia do cargo os protege do ridículo. Desde sempre, não vem funcionando.

Pelo contrário, ao elegerem a mídia (juntamente com a "elite", esse conceito intencionalmente vago) como inimigos prioritários, as últimas administrações só pioraram a relação com o quarto poder.

Quem sabe se eles começassem a rir de si mesmos, nós talvez tivéssemos presidentes melhores.

Pelo menos, seria um começo.

Pelo menos, poderia ser divertido.