OPINIÃO

Um mês na terra de ninguém

10/07/2014 16:56 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:46 -02
Wikimedia

O aniversário de 100 anos da 1º Grande Guerra Mundial remete a inúmeras análises, já que os seus impactos são sentidos ainda hoje, como podemos constatar na triste trajetória do Oriente Médio desde então, nascido dos escombros do Império Otomano pela vontade das potências colônias Inglesas e Francesas.

Mas existe uma pequena história, ínfima ante a tragédia superlativa do conflito, que me emociona particularmente. E que tem tudo haver com futebol...

No Natal de 1914, no front de Ypres, na Bélgica, unidades alemãs e inglesas (também francesas, mas em menor número), definiram um cessar-fogo para enterrar os mortos na "terra de ninguém" (o espaço entre as duas trincheiras) e respeitar a data do Natal. A guerra ainda estava no seu início (algo como cinco meses), mas já bastante mortífera naquela ocasião, configurando a luta de trincheiras que, estendendo-se da Bélgica até os alpes, paralisava todos os exércitos da frente ocidental.

E, imaginando-se um final breve da guerra (que naquele Natal já se mostrava cada vez mais utópico), tréguas foram feitas em alguns pontos do front. Em Ypres, aconteceu algo mais extraordinário, e que na verdade justifica esse pequeno texto.

Após o enterro de camaradas, cânticos natalinos foram realizados. Trocas de presentes foram feitas.

A sagração daquela pequena comédia trágica foi a disputa de uma partida de futebol (então um esporte já popular, ainda que bastante diferente daquilo que é hoje) entre ingleses e alemães. E durante algumas horas foi possível sonhar com as diferenças sendo travadas somente em campinhos acidentados e improvisados como aquele, na "terra de ninguém"...

O filme Feliz Natal (Joyeux Noël) de 2005, dirigido por Christian Carion, é um relato tocante do ocorrido.

É uma história tocante que mostra o futebol como um dos idiomas simbólicos do mundo moderno. Do instinto quase infantil de chutar uma bola, passando por um conjunto de regras simples e facilmente assimilável, o Futebol é o esporte integrador por natureza. Todas as nacionalidades, mais ou menos, se interessam pela bola rolando. O futebol incorpora trejeitos culturais, estabelecendo verdadeiras assinaturas nacionais para vários países amantes da bola. Logo, se o alemão é disciplinado e organizado no campo, o camaronês é vigoroso e festivo. Ao brasileiro cabe, nessa ordem própria e específica das coisas, o dom da improvisação, do acaso (que já nos custou derrotas amargas). O argentino tem a sua bossa própria, a "milonga": a habilidade do passe, a destreza malandra do craque, a inclinação para o drama.

O drama. Futebol é drama, é teatro, é ópera...

E nessa Copa, a tão questionada e afamada "Copa das Copas", nos encantamos com o encontro de nacionalidades, numa doce e folclórica dança. Uma curiosidade genuína pelo outro. Uma vontade de abraçar e ser abraçado. Um gozo global em torno da bola.

Essa é a Copa da confirmação de uma suspeita: a entrega dos americanos pelo jogo. Parece que o isolacionismo esportivo foi definitivamente vencido. Os americanos estão, definitivamente, condenados ao drama esportivo: ao equívoco dos bandeirinhas e juízes, aos algozes centroavantes, aos zagueiros implacáveis...

E tudo isso num momento de crise aberta na Ucrânia e no Iraque, de paralisia financeira sem fim na Europa e Estados Unidos e às vésperas de eleições no Brasil.

Mas, assim como aquela partida de futebol entre arames farpados e crateras abertas pelas bombas não resolveu o impasse europeu, não se espera da Copa nenhum milagre geopolítico, econômico ou mesmo social. Apenas um pouco de encantamento, de sonho, de zoeira e de paixão pelo futebol.

Somente um mês "na Terra de Ninguém"...

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