OPINIÃO

Só a Torcida pode salvar o Palmeiras de si mesmo

25/09/2014 18:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Alexandre Schneider via Getty Images
SAO PAULO, BRAZIL - SEPTEMBER 17: Cheers of Palmeiras in action during the match between Palmeiras e Flamengo for the Brazilian Series A 2014 at Pacaembu stadium on September 17, 2014 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)

Instituições fortes, influentes e centenárias morrem?

Sim, faço essa pergunta provocativa ao pensar no Palmeiras. Não na sua morte literal, mas sim, na simbólica. No ambiente competitivo, agressivo e instável do futebol, a morte simbólica costuma preceder o desaparecimento da instituição. Ela evolui rapidamente do escárnio para indiferença dos rivais. Da Revolta para a frustração resignada dos torcedores.

O Palmeiras, clube centenário e glorioso, cuja história se confunde com o próprio futebol brasileiro, agoniza.

E o drama Palmeirense se acentua exatamente no ano do seu centenário, onde o time promete bater todos os recordes negativos (derrotas, gols sofridos etc), ocupando o último lugar da tabela e correndo um risco real de descenso, o que seria o 3º rebaixamento em 12 anos. Um verdadeiro pesadelo infernal de Dante.

E por que tudo isso? Por que com o Palmeiras?

As fatalidades acontecem e nem sempre são explicadas racionalmente. Não é o caso do Palmeiras. As razões para tamanho definhamento são perfeitamente identificáveis, bastando para isso um mergulho no arcabouço cultural do clube, em especial nas últimas décadas. E antes de avançar na breve explicação da minha hipótese para a crise alviverde, já aviso: sou apaixonado pelo Palmeiras, refuto qualquer forma de escárnio ou desrespeito com a instituição e quero muito, mas muito mesmo, que essa crise rapidamente se resolva.

Mas com o disse Einstein, "fazer a mesma coisa várias vezes e esperar resultados diferentes é insanidade".

Primeira observação é sobre a obsoleta governança do clube. Algumas dezenas de conselheiros elegem o presidente de uma instituição que representa e defende os interesses de 16 milhões de aficionados. É mais do que obsoleta, é antidemocrática e bastante distante dos torcedores comuns, os heroicos "geraldinos" anônimos e apaixonados.

Famílias se sucedem no comando do clube, aproveitando-se da sua intrincada estrutura de governança. Não existe vento de mudança. Não existe (ou é raro verificar) a existência de pessoas com trajetórias diferentes. Várias são as barreiras, inclusive simbólicas, que evitam ou afastam qualquer possibilidade do novo no clube.

A elite Palmeirense (é assim que eu os chamo) encastelou-se no comando do clube. Refutou os ventos de mudança que começavam a soprar a partir do final dos anos 70. Foram atropelados pelo mundo, levando para o fundo do seu triste oceano de lembranças o amor de milhões de torcedores.

Essa elite não percebeu a expansão da torcida, atingindo novas geografias e sotaques. Visite o interior da Bahia ou de Pernambuco, por exemplo. É surpreendente o numero de camisas e escudos do clube pintado em muros. O Palmeiras, em função dessa reclusão atávica, se viu numa surda tensão: um time cindido entre as origens Italianas e os novos torcedores, distante culturalmente (e fenotipicamente) dos oriundi. A elite Palmeirense, assustada pela explosão demográfica e cultural da torcida, ergue barreiras, regras e códigos para imperar, sozinhos, nos salões cada vez mais tristes da Turiassu.

Essa tensão é latente quando percebemos as estratégias (??) de marketing do clube, uma sucessão de camisas que fazem referência ao passado Italiano do Palmeiras, como as inacreditáveis camisas com o símbolo de Savoia. Longe de esbravejar contra o passado do clube, parece-me uma obsessão com esse período histórico. O Palmeiras é muito mais do que isso. É um time fundado por operários. É um clube que serviu o futebol com três maravilhosas academias. É o time de Ademir, Dudu, Leão, Luis Pereira, Djama Santos, Evair, Edmundo, Marcos e tantos, tantos outros.

É um colorido de raças e sotaques nas arquibancadas. É um clube Brasileiro. E aqui me queixo: que saudade da camisa verde do Palmeiras...

Essa esquizofrenia mal resolvida, tensão que faz a instituição ter crises de identidade, tem como o reflexo o fetiche do clube por seu passado. Um clube deve se apropriar do seu passado para projetar seu futuro. Mas o que o Palmeiras irradia hoje é uma espécie de culto ao passado, e um desprezo interminável pelo futuro...

A elite Palmeirense, seja por defesa inconsciente ou mesquinha desse Passado, mata o clube. Asfixia-o com as suas eternas brigas pelo poder. O Palmeiras hoje é um sistema entrópico autodestrutivo.

Qualquer lei básica de Inovação diz que, quanto mais rico e diverso um grupo, maior a possibilidade de criação. Do surgimento de uma ideia. De um paradigma desafiado. Fazendo referência à frase do físico genial, como esperar algo novo dessa gente? Como esperar um vento, um sopro de criatividade, de lucidez? Nossos comandantes nos governam tendo um mundo esquecido como taboa.

O que pode salvar o Palmeiras? Simples...

A diversidade pode salvar o Palmeiras. A pluralidade de sua arquibancada, a riqueza das suas muitas trajetórias, o contraditório. Da onde virão as novas ideias, estratégias, ações e o resgate das ambições perdidas. É imperativo, portanto, mudar a governança do clube.

Só a torcida pode salvar o Palmeiras de si mesmo...

torcida

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