OPINIÃO

Megaeventos esportivos e os seus legados

10/08/2015 14:57 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
divulgação

O recente anúncio de que as obras dos Jogos Olímpicos do Rio estão "a todo vapor" e de que o evento "será o maior legado da história dos Jogos Olímpicos", feito por Eduardo Paes, prefeito do Rio de Janeiro, coloca em questão o legado dos megaeventos esportivos em economias emergentes, especialmente após 2008, ano em que os países chamados BRICS deram início à corrida para sediar megaeventos esportivos.

Os megaeventos tais quais a Copa do Mundo da FIFA e os Jogos Olímpicos de Inverno e Verão carregam consigo algumas características que são comuns a todos eles e, principalmente, a todos os países-sede, quais sejam: (1) são eventos de grande escala, (2) têm forte apelo popular, (3) grande relevância internacional (4) atraem a atenção da mídia global e (5) são vistos como uma oportunidade e alavancar a economia local.

Não é por acaso que os megaeventos esportivos têm sido cada vez mais procurados por cidades e países ao redor do mundo. Até 2018, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (os BRICS) terão sediado um megaevento esportivo: Jogos Olímpicos de Beijing (2008) e Rio de Janeiro (2016), Jogos da Commonwealth, Índia (2010), Copa do Mundo da FIFA, África do Sul (2010), Brasil (2014) e Rússia (2018).

Frequentemente, ao postular sediar um megaevento esportivo, os Estados são atraídos pela promessa de legados sociais, esportivos, econômicos e ambientais. Vislumbra-se, a partir dos megaeventos, a oportunidade de alavancar a economia local pari passu a inserção do país/cidade-sede na rota do turismo mundial.

No caso dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro não é diferente. De um lado, o discurso oficial procura construir uma imagem de confiabilidade na execução das obras perante a audiência externa, conforme disse Eduardo Paes: "a Olimpíada é uma oportunidade de mostrar um Brasil diferente do país que atrasa licitações e superfatura preços. (...) É uma enorme oportunidade de transformação". E, de outro lado, procura-se vincular o megaevento esportivo aos ganhos econômicos para a região, especialmente no quesito "mobilidade urbana". A ideia é que o megaevento esportivo seja o motor de arranque para investimentos que a população reivindica há muito tempo.

Por trás dos discursos otimistas, cujos legados social, cultural, ambiental, político, econômico ou esportivo são os grande atrativos, o que se nota é quase sempre previsões superestimadas, tanto do ponto de vista dos ganhos econômicos quanto da projeção internacional do país/cidade-sede.

Barcelona, por exemplo, é sempre citada como exemplo de legado. No entanto, diversos estudos apontam para a geração de empregos de baixa qualidade, baixo salário e pouca duração, bem como o aumento na especulação imobiliária. A tendência dos tomadores de decisão de superestimar o potencial econômico dos megaeventos esportivos tem sido cada vez mais questionada por estudos acadêmicos. Londres (Olimpíadas, 2012), por sua vez, também reduziu a expectativa em relação ao número de visitantes estrangeiros.

A fantasia de subestimar custos, superestimar receitas, subestimar impactos ambientais e sobre valorizar efeitos do desenvolvimento econômico não é exclusividade dos países em desenvolvimento (ou, no caso, os BRICS). Por isso, é preciso um olhar atento sobre os megaeventos esportivos. É preciso, portanto, considerar como pesquisa futura os impactos sociais dos megaeventos. Além disso, depois do caso de corrupção que envolve altos funcionários da FIFA, faz-se necessário uma ampla consulta pública antes de aprovar projetos de megaeventos, bem como tornar mais democrática a decisão de sediar uma Olimpíada ou uma Copa do Mundo.

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