OPINIÃO

Fanatismo e vingança: salve-se quem puder

12/01/2015 15:59 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:17 -02

"A dor sempre pergunta pela causa, enquanto o prazer é propenso a ficar junto de si próprio e não olhar para trás". A frase de Nietzsche nos dá algumas dicas de como serão os próximos anos na política internacional.

Antes de tudo, é preciso destacar que não intento aqui buscar as antecedências históricas, nem apontar o dedo para culpados. O título já deixa claro a minha opção: fanatismo e vingança.

O atentado em Paris deve aprofundar ainda mais a famigerada 'guerra ao terror', deflagrada no governo de G. W. Bush filho logo após o fatídico 11 de setembro. E a "causa pela dor" será a pergunta a ser respondida nos próximos anos, provavelmente as resposta se darão em forma de novos ataques e mais violência.

Ao procurar entender o conflito a partir da ótica da vingança e do fanatismo ou, então da dificuldade de controlar as paixões, não pretendo retomar os antecedentes históricos do conflito que dura mais de cem anos - datado em fins do século XIX? Talvez. A reboque do movimento sionista de defesa da nação judaica unificada, com resultados mais concretos a partir do colapso do Império Otomano e o surgimento dos primeiros assentamentos no território da palestina.

Alongar-me-ia se, por ventura, adentrasse no terreno geopolítico do pós-Guerra Mundial e, consequentemente, no recorte fronteiriço artificial articulado pelas potências ocidentais, particularmente, o Reino Unido e a França. Tampouco seria possível, neste breve espaço, explanar de forma mais profunda sobre a criação do Estado de Israel e a contínua perda de territórios palestinos desde a derrota na Guerra árabe-israelense em 1948.

No entanto, para não incorrer no discurso de creditar à religião os conflitos geopolíticos supracitados, é preciso apontar para o lado bom do intercâmbio entre as diferentes culturas. Menos verdade é a afirmação de que as três religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo) não conviveram em relativa paz durante séculos. E mesmo havendo conflitos, estes foram fundamentais para o intercambio civilizatório, haja vista a importância da ascendência do Islã na Europa Meridional como, por exemplo, os Mouros na Espanha e em Portugal, e a sua significância para o comércio (no mediterrâneo), para as letras e para a ciência.

Mesmo que se tente de alguma forma isolar os fatos, ou seja, concentrar esforços para analisar apenas o ataque aos cartunistas da Charlie Hedbo, todas as experiências anteriores vêm à tona, são consequências de ações; são reações. Sem apontar para culpados, é possível dizer que não há "bom" nem "mau" neste conflito. Há, sobretudo, uma amálgama de afetos e instintos e a incapacidade de controla-los.

Valendo-me do pensamento de Nietzsche, é possível enxergar na atual luta entre os líderes das potências ocidentais e extremistas islâmicos um misto de fanatismo e vingança. De um lado, o fanatismo e a dificuldade de interpretar a realidade leva o indivíduo ao extremo da violência. Do outro, a vingança - enquanto força reativa - descarrega no outro o sofrimento que lhe acomete.

Quando os irmãos atacam os cartunistas e os policiais em Paris ou, até mesmo, quando os Estados Unidos decidem caçar Osama Bin Laden e o fazem até as últimas consequências, não é apenas a descarga de afetos e instintos que está em jogo, não é a vingança 'em si' que serve como catarse, mas, sobretudo, é o resultado desta vingança que vem à baila. Em outras palavras, é a constatação de que o outro está sofrendo que justifica o seu ato de violência. Nietzsche chama isso de "troca de sofrimento" ou "tentativa de inverter as relações de dominação".

Ora, posso ser arbitrário ao usar o Filólogo alemão, mas nada mais atual do que buscar no outro as causas para o seu sofrimento. Notamos isso o tempo todo, inclusive na realidade brasileira, vide ressentimento político pós-eleitoral e etc. Na falta de atacar o responsável direto pelo seu sofrimento, busca-se qualquer um para descarregar os seus afetos, desde o policial muçulmano, até inocentes em Nova Iorque ou Bagdá.

A próxima reunião convocada por Obama terá o elemento fundamental para justificar ainda mais a "guerra ao terror": a razão. A razão para novas reações já está dada: "Je Suis Charlie Hedbo" e salve-se quem puder.