OPINIÃO

A imagem do Brasil 'lá fora' pós-escândalos de corrupção da Petrobras

26/10/2015 16:49 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian President Dilma Rousseff speaks during a signature ceremony of a Law which regulates the Lottery activity at the Planalto Palace in Brasilia, on October 22, 2015. AFP PHOTO / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

O tema corrupção tomou conta de toda a imprensa brasileira e incendiou a política doméstica do país. No entanto, pouco se pensou sobre os desdobramentos da crise de corrupção para a imagem do Brasil no plano externo. Nas próximas linhas poucas respostas serão apresentadas. Há, no entanto, uma tentativa de apontar vantagens e desvantagens que a crise traz para a imagem do país no sistema internacional. Porém, o tema requer contextualizações do interno e do externo, idas e vindas e, sobretudo, o que as outras experiências nos indicam.

Antes de se aventurar sobre vantagens e desvantagens e questionar se de fato elas existem, é preciso dar significação a duas palavras que aqui foram levantadas e soam - para quem se debruça sobre o estudo das Relações Internacionais - como conceitos.

A primeira e talvez o mais complexa, diz respeito à ideia de "imagem" brasileira. Em primeiro lugar, é correto afirmar que ao escolher o Estado, neste caso o Estado brasileiro, como una persona, isto é, como um ente que de fato existe para além do imaginário, estamos por força assumindo uma postura científica em detrimento de outra. Em outras palavras, ao falar do Brasil, somos levados a caminhar lado-a-lado com as correntes teóricas tradicionais do campo das Relações Internacionais, a saber: o realismo, o liberalismo e as suas vertentes. De partida, portanto, passamos a tratar o Estado brasileiro como um ator desejoso e racional.

O problema dessa perspectiva é que, ao se pensar na "imagem" do Brasil perante o sistema internacional, abre-se mão de explicar os meandros que suscitaram o que imaginamos como sendo Brasil. Exclui-se, portanto, os embates internos, as forças sociais, a luta por hegemonia e a corrida pelo poder em troca de um espectro final pronto para uso: a imagem do Brasil. Toda a construção anterior à formação da suposta "imagem" importa pouco neste tipo de vertente. No entanto, uma análise deste tipo parece insuficiente. Excluir as forças sociais que constroem e desconstroem o que entendemos por Brasil é repetir velhos erros das ciências sociais.

Dito isso, resta agora o segundo conceito a ser mais bem explicado: o sistema internacional. O sistema internacional é o ambiente cuja relação de poder entre os Estados não é regulada por um governo central supranacional. Simplificando, o sistema internacional (por onde orbitam os Estados) é anárquico. Tomemos assim uma escolha teórica. Está nos interessa mais para a explicação como um todo.

Em um contexto de anarquia internacional, entre os Estados prevalece uma relação dúbia de amizade e inimizade. Algumas correntes teóricas refutam a ideia de amigo versus inimigo, incluindo uma terceira categoria: a neutralidade. Importa menos essas nuanças. Nesse nível de análise, cabe aqui demonstrar que o que há de fato entre os Estados é uma permanente situação de alerta entre uns e outros. A desconfiança reflete as relações sociais, que também caminham entre a cooperação e o conflito, quando menos é o império do medo do desconhecido, do outro, do estranho e do estrangeiro que condicionam atitudes e ações. Basta olhar os atuais conflitos de magnitude global.

Não obstante, a título de simplificação, dividiremos aqui a imagem de um Estado em duas faces. A face interna, de como o país se percebe, e a face externa, de como o país é percebido. Se nas relações entre os Estados impera a priori a desconfiança, importa ao Estado o quanto de esforço ele fará para que a sua imagem perante a audiência externa seja positiva, amistosa e segura. Essa visão não se limita a questões militares, somam-se a isso questões econômicas e diplomáticas.

No caso brasileiro, a imagem pós-escandalos da Petrobrás pode ser definida, grosso modo, de duas formas: em primeiro lugar, a desconfiança em torno dos negócios espúrios através do alto índice de corrupção e do espalhamento do escândalo para o alto escalão governamental. Ou certa institucionalização de expedientes corruptíveis no seio da democracia. A segunda, a confiança no país que escancara seus problemas, aponta os focos de corrupção, pune os culpados e ao mesmo tempo fortalece as suas instituições democráticas.

Essa imagem dúbia repercute nos editorais de jornais estrangeiros, em think tanks que debatem sobre o atual momento dos países emergentes e na academia de forma geral. No Brasil, o termômetro diz muito mais sobre a polarização que toma conta da política nacional desde meados da década de 1990 do que às possibilidades para o futuro. Portanto, os embates internos corroboram para repercutir a imagem brasileira no exterior, ora positiva (de combate às mazelas), ora negativa (de corrupção intrínseca). O jogo de soma zero só é desfeito se o analista se atentar ao que ocorre no além-fronteiras. Lá é possível obter mais ferramentas para a análise do atual momento.

Só nós últimos meses cresceu, sobremaneira, a quantidade de casos de corrupção envolvendo empresas, grandes empresários, governos nacionais, políticos, federações esportivas, entre outras. A enxurrada de casos - sem novidades - indica desgaste em três frentes. O primeiro desgaste está na relação de distanciamento entre o político e o cidadão - desgaste da democracia representativa em boa parte dos países ocidentais. O segundo, a impossibilidade de extirpar o fator corrupção, intrínseco aos seres humanos; a quebra do mito moral de que a corrupção é particular aos países da periferia. Por último, a corrosão de uma fase particular do capitalismo e a procura por novos mercados, novas fontes de rendimento, novas formas de o Estado assegurar o lucro do capital.

A resultante é a impossibilidade de se analisar os países de forma isolada ou de ignorar o que há dentro da "caixa preta". Brasil, Turquia, Alemanha ou Suíça, por exemplo, estão inseridos em um sistema de produção que ultrapassa as suas fronteiras, perpassa as formas de governo e, ao menos, impulsiona as formas de se relacionar, particularmente, no século XXI.

A imagem do Brasil pós-escândalos é, portanto, a caricatura da dificuldade de se projetar uma nova forma de relação entre governos, empresas e cidadãos. Tal dificuldade exporta imagens dúbias de um Estado que não mais deveria representar o interesse da classe política e/ou empresarial, mas o anseio de outros milhões.

*Este artigo foi originalmente publicado no 'Estadão Noite' de 19 de outubro de 2015.