OPINIÃO

Censura e controle do corpo feminino

10/07/2014 13:49 -03 | Atualizado 22/04/2017 18:58 -03
Reprodução

Muito louca esta história: um quadro pintado pela artista plástica Leena McCall foi retirado da exibição anual de mulheres artistas da Mall Galleries, em Londres, devido a reclamações de frequentadores sobre o seu conteúdo "pornográfico" e "perturbador" (disgusting) e seu efeito sobre crianças e adultos "vulneráveis".

O quadro "pornográfico":

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O jornal britânico The Guardian publicou a história. A autora do artigo, Rowan Pelling, diz que quando soube da notícia pensou que o motivo de tanta crítica vinha do fato de a mulher retratada estar fumando um cachimbo, já que o ato de fumar em público é cada vez mais questionado. Mas não, a "perturbação" vinha do fato de a modelo retratada estar com parte de sua calça aberta, mostrando os pelos pubianos em uma atitude do tipo: "sou dona do meu corpo, vai encarar?"

A modelo que posou para o quadro, Ruby May, é uma conhecida terapeuta que promove workshops para liberar o potencial erótico das pessoas, e decidiu posar com os pelos púbicos à mostra para desafiar a estética atual das "vaginas infantis", ou seja, depiladas ao extremo. Mas o que parece realmente incomodar as pessoas é a combinação de semi-nudez e atitude da retratada.

O quadro não mostra a mulher como um ser passivo, mas como alguém que controla seu corpo e sexualidade e isto estaria na gênese da reação à pintura. O contrário disso, por exemplo, seria a aceitação de quadros da Renascença com mulheres completamente nuas em situação de entrega ou contemplação e nos quais geralmente as vaginas são retratadas em pureza branca (sem pelos).

O texto do Guardian chama atenção para outros momentos de puritanismo hipócrita, como no período de guerra quando um famoso clube de striptease londrino foi autorizado a que suas modelos ficassem nuas desde que paradas e com as mãos tapando suas "forks" (vulvas). Como diz a autora do artigo, a implicação era óbvia: no momento em que a mulher estivesse livre para se mover e, portanto, exalar sua sexualidade, transformava-se em uma "ameaça para a sociedade".

Outro dado interessante desta história toda é que o quadro foi censurado de uma exposição exibindo apenas artistas femininas e cuja curadoria esteve sob total responsabilidade de mulheres. Em uma nota pública, a Mall Galleries explicou assim sua decisão: "Depois de várias reclamações relacionadas à representação do personagem e tendo em conta sua localização no caminho das crianças para o centro de aprendizagem, nós pedimos que a pintura fosse removida".

Por mais que veja o quadro não consigo identificar que tipo de "deformação moral" ele poderia gerar em qualquer criança neste mundo de acesso absoluto a todo tipo de imagens. Obviamente a deformação moral está na cabeça dos adultos que fizeram as reclamações e dos adultos que covardemente se dobraram e censuraram o quadro.

Também não dá para não lembrar de outro quadro famoso, que mostra uma vulva em todo o seu esplendor e povoada por pubianos - L'Origine du Monde, de Gustave Courbet, em exibição no Museu D'Orsay, em Paris, e à plena vista de crianças e adultos "vulneráveis" ou não. Mas mesmo aí parece haver uma não tão sutil diferença: a vulva retratada por Coubet não tem "cabeça". Ou seja, o rosto da mulher que serviu de modelo não aparece no quadro. Não sabemos se ela está dormindo, acordada, como expressa sua personalidade.

L'Origine du Monde:

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Já no quadro de Leena McCall, a mulher retratada nem chega a exibir de verdade a sua vulva, apenas os pelos pubianos e parte dos seios, mas claramente está encarando e desafiando quem a observa. É neste "desafio" que parece estar a gênese da "pornografia" que tanto incomodou parte do público.

Ou seja, esta história mostra como a guerra pelo controle do corpo da mulher está mais viva do que nunca.

Por último, mas não menos importante, a autora do quadro lançou uma campanha no Twitter pedindo aos apoiadores que enviem tweets pedindo o fim da censura para @mallgalleries usando a hashtag #eroticcensorship.

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