OPINIÃO

Brasil quer mudar tudo, para deixar tudo como está

29/04/2016 18:48 BRT | Atualizado 27/01/2017 00:31 BRST
ASSOCIATED PRESS
Anti-government demonstrators walk past a Brazilian flag during a demonstration in favor of the impeachment of Brazil's President Dilma Rousseff in Brasilia, Brazil, Sunday, April 17, 2016. Sunday's vote in the lower house will determine whether the impeachment proceeds to the Senate. Rousseff is accused of violating Brazil's fiscal laws to shore up public support amid a flagging economy. (AP Photo/Joedson Alves)

Deixemos um pouco de lado a retórica do "impeachment é justo"versus"impeachment é golpismo" e admitamos que basicamente eu, você, 99,9% da população brasileira, para variar, estamos fazendo papel de otários, bestializados que somos há tantos anos.

O impeachment pelo visto vai sair e a casca da ferida, a parte mais exposta da nossa gangrena política, a que tanto incomoda e que faz tanta gente bater panelas nas noites tropicais, vai ser aparentemente arrancada.

Será posto um curativo com aparência de médico de clínica particular (nada de cubanos ou SUS) e uma boa parte dos patriotas ficará feliz por não ser exposta mais à casca de ferida vermelha que tanto detesta.

Mas lá por baixo do ferimento a gangrena segue evoluindo como sempre - como sempre foi. Matando gente, como no caso da ciclovia do Rio. Com os mesmos atores, os mesmos vermes, carcomendo tudo.

Mas os vermes são inteligentes. Não matam completamente o hospedeiro. De vez em quando, aliás, lhe dão a ilusão de que está melhorando, de forma que ele até se levanta da cama e acredita que a cura está próxima. Mas aí, na próxima dormida, volta tudo como era antes.

Sabe o que seria lindo? Se movimentos à esquerda e direita, todos que gritam que querem um Brasil melhor, levassem isso a sério e fossem para a rua juntos, exigindo, por exemplo, que a Lava-Jato vá até as últimas consequências. Que acabe com qualquer dúvida sobre seletividade nas apurações e vazamento de informações. Que arraste todo o fio da meada de crimes e corrupções, os quais todo mundo sabe que não foram inventadas agora e tem os mesmos personagens de hoje envolvidos há tempos. Nem que isto implique a prisão de 300 parlamentares, do Temer, Cunha, Renan e cia. Ltda. Nem que isto gere uma crise política sem precedentes.

Reconheço que isto é de uma ingenuidade tosca. Na hora H tudo se acomoda, como sempre. A partir de agora, a única retórica possível será a da "governabilidade" e da "volta ao crescimento", nem que para mantê-la seja preciso voltar a alimentar os vermes que carcomem a estrutura política do Brasil. Este parece ser o nosso destino.

Curiosamente, a tirar por boa parte dos que votaram a favor do impeachment, uma verdadeira escumalha, acho que não dá nem para esperar que depois da Lava-Jato a corrupção fique um pouco mais sofisticada, menos tosca e atrevida, como tem sido.

Os vermes não se transmutam tão rapidamente, especialmente quando não precisam fazê-lo de verdade.

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