OPINIÃO

Virei hippie aos 50! É bom demais

27/01/2014 22:05 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Quando, em 1975, deixei Ribeirão Preto rumo a São Paulo, onde iria fazer faculdade, abanei as mãos desde o banco de trás do carro que me dava uma carona. Eu ria alegremente para os meus pais, que me olhavam da esquina. Minha mãe chorava. Não queriam que eu fosse para a cidade grande, sozinha, e, embora fosse a terceira de seis filhos, era a primeira que se aventurava na metrópole.

Eu estava em êxtase. Tinha entrado na faculdade que queria, a USP!, seria independente na maior cidade do país e jornalista. Jornalista! Eu tinha certeza do que queria fazer desde os 14 anos, quando meus professores de português disseram que eu escrevia bem e deveria investir nisso.

Fui com a condição de morar com uma tia, com quem vivi dois anos. Depois, república. E, depois, um apartamento de um quarto com o primeiro marido, Fernando, meu colega de faculdade com quem me casei quando estávamos no segundo ano.

O casamento durou sete anos e foi, na maior parte, ruim. Mas a carreira foi de vento em popa. Com 23 anos já era editora na Folha. Adorava o que fazia, mas trabalhava muito, demais, várias vezes 14, 15 horas por dia. Foi sempre assim, em todos os lugares que trabalhei. Fui ascendendo na profissão e com isso arrebatando mais responsabilidades. Minha vida era, principalmente, trabalho.

Claro que também me divertia. Com o salário subindo, podia experimentar ótimos restaurantes, conhecer os novos bares mais descolados. Descobri as boas bebidas, a maconha, os parceiros eventuais. Me apaixonei e desapaixonei várias vezes.

Mas o trabalho estava sempre em primeiro lugar. Eu sempre fui séria, responsável, e, dizem, brava. Não concordo: quando um trabalho estava ruim, falava em voz baixa com o autor. Quando era ótimo, gritava para a Redação toda. Sim, reconheço, eu sou barulhenta.

Mas a vida de trabalho em excesso e outras coisas em excesso cobraram seu preço. Fui diagnosticada com uma doença autoimune, incurável, que felizmente está sob controle. Mas depois tive uma depressão profunda e, mais tarde, isquemias nos braços e nas pernas que me deixaram sem andar por um bom tempo.

Sofri muito, muito, muito. A recuperação foi lenta e, ainda assim, continuei trabalhando. Foi meu neurologista quem me disse primeiro: Renata, sua doença requer uma vida mais tranquila, porque ela te fadiga. Você deveria trabalhar seis horas por dia. Mas como? Eu havia me tornado diretora da revista Casa e Jardim, da Globo, e a estava reestruturando toda. Trabalhava, trabalhava e, quando fora do trabalho, continuava pensando nele.

Eu estava casada pela segunda vez, há sete anos (o mesmo tempo que durou o primeiro), desta vez com um artista plástico. Quando tive a alta da trombose, que me deixou internada quinze dias, resolvemos, no leito do hospital mesmo, que faríamos a coisa mais importante das nossas vidas: iríamos adotar uma filha. Esperamos cinco anos por ela.

Mas comecei a pensar na vida que queria. Pensei em voltar para Ribeirão, ficar perto da minha mãe, Jacy, de quem estava longe há 30 anos e cuidar da nossa filha, quando surgisse, em uma cidade mais tranquila. Nos 30 anos que vivi em São Paulo a cidade mudou muito, e para pior. Tornou-se violenta, com gente demais, carros demais, tudo demais. Não podia nem sonhar em andar pelas ruas à noite. Saíamos pouco, as reuniões eram todas em casa ou na casa de amigos. As pessoas se tornaram mais ríspidas. Eu não queria isso.

Conversei com meu marido. Ele não queria vir para o interior. Entrei com o pedido de aposentadoria achando que demoraria seis meses no mínimo, tempo em que eu organizaria a mudança. Saiu no mesmo dia. Repentinamente me vi sem trabalho e foi um susto, um baita susto!

Eu ganhava um salário muito alto, todos os anos viajava para o exterior, tinha um apartamento maravilhoso numa rua fechada, tranquila. Poderia ter ficado com aquela vida bastante confortável por muitos anos ainda, mas, de repente, tudo fez sentido. Não quero mais viver assim! Quero por os pés na terra, viver numa casa, ter árvores frutíferas e vizinhos com quem conversar. Quero demorar quinze minutos para chegar ao meu destino, não uma hora, como em São Paulo.

Combinamos que eu voltaria para o interior e meu marido ficaria em São Paulo. Nos veríamos aos finais de semana. Funcionou durante muito pouco tempo. Logo descobri que ele me traía e nos separamos. Esta foi a pior parte da mudança. Sofri muito, chorei muito, brigamos demais. Foi feio. Foi punk!

Mas o bom é que não deixei a derrocada afetiva alterar meus planos. Comprei um terreno ao lado da casa onde morava e nele construí a casa dos meus sonhos. Tem minha cara, com arquitetura moderna, mas um pé na roça - chão de cimento queimado, lavabo forrado de ladrilhos hidráulicos, o vento que atravessa a casa toda. O pé direito tem mais de sete metros. De dentro da sala, pelos vidros, vejo a praça da frente.

Sim, moro numa rua de cem metros, sem saída, que acaba numa pracinha lotada de frutos: manga, jaca, acerola, pitanga, abacate, carambola...

Em frente à porta de entrada, plantei uma bananeira ornamental, que dá flores enormes. Nos fundos, temos o que chamamos de praça, com goiabeira, bananeira, jabuticabeira que dá frutas a cada dois meses... Depois da praça, a casa da minha irmã, Patrícia, que se mudou com as três filhas no final do ano.

É também uma nova experiência: morar ao lado da família, em comunidade. Tem sido muito bom. As duas famílias convivem, conversam, mas mantêm a sua privacidade. Virei hippie aos 50! E é bom demais. Tenho pouco dinheiro, vivo dura, mas rego o jardim e piso na grama molhada, sinto o perfume das flores, quase todo dia entra um beija-flor dentro de casa. Eu, finalmente, estou vivendo. E acho que viverei muito mais do que se estivesse em São Paulo - para onde vou de vez em quando, visitar os amigos.

Parece bom demais? É bom demais, e verdadeiro. É preciso ter coragem para abrir mão da grana, dar a volta inteira dentro de si e encontrar a felicidade esteja ela onde estiver. Pasmem: tenho um novo amor, o Vasco, vamos nos casar em maio com contrato, festa e viagem (tudo a que tenho direito).

E mais, o maior, o melhor, o que parecia impossível! Chegou minha filha, Manuela, com dois meses. Agora ela tem dois anos e cinco meses, é agarradíssima em mim, me chama de mamãe o dia todo e me dá beijos na boca. Quando dorme, segura a minha mão. Mudei minha vida inteira. Hoje eu tenho vida!

Na próxima falo só sobre ela, Manuela.