OPINIÃO

Carta de amor aos mortos

28/10/2015 11:22 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
DeeAshley/Flickr
Unanswered **** The night air gives birth to a chill not quite ready to settle beneath these aching bones. I am beautiful, standing here beneath the heavens. Okay with unanswered wishes long ago sent to stars. Perfectly fine knowing there is no one above them who knows my longing, and grateful for those I have found here on earth who absolutely do. A sigh dances from the depths of woman to waltz upon the chill of ancient seasons; singing of contentment. I can’t help but wonder does the happy it contained travel far and long? And will it make home inside the heart of another where it lands? (Poem via: Awiseuh.tumblr.com)

É difícil aceitar a morte. Ela é a única certeza que temos, mas, no entanto, nos debatemos contra a ideia como peixes fora da água; sem ar. Simplesmente não parece normal. Ou aceitável. Ou algo que se possa dizer "nossa, já faz tanto tempo".

Não existe espaço-tempo nessa fórmula. Aqueles vão permanecem conosco. E mesmo que se passem quatro anos ou quatro décadas, de repente bate aquela saudade, uma lágrima foge, uma imagem clara vêm à cabeça. Meu pai fumando - e lendo. Meu avô fazendo doce de leite. Meu marido brincando com nossos filhos - e lendo. Meu primo vendo um clipe do Kiss - e eu morrendo de medo. Minha avó fazendo os almoços de domingo. Minha sogra indo aos almoços de domingo na minha casa - que não existem mais.

A gente também morre um pouco com a morte dos outros. Morre aquela pessoa que eles viam em nós. Que parecia tão maior, tão mais guerreira, tão mais feliz. Tão mais completa. Tão mais eu.

O que é o eu, afinal, como identidade, senão um amontoado de percepções que os outros têm da gente?

A morte também tem efeitos colaterais de esticamento e achatamento. Só quem passa perto dela entende, e eu passo desde que me reconheço como gente, em uma dança fúnebre e persistente. Primeiro diminuímos de tamanho, ficamos tão pequenos que é difícil encontrar - ou se encontrar. Nos perdemos. Quase caímos, como anjos que negam Deus.

Depois, aprendemos a crescer, dobramos de tamanho porque levamos todos que já foram dentro da gente. A alma e o coração viram uma república, com velhos e novos moradores.

Sim, a vida segue, novas paixões surgem, novas amizades brotam, enquanto outras vão embora - a morte ainda tem esse efeito rebote, dominó, que leva para longe todos que orbitavam naquele sistema.

No final, ou melhor, enquanto ainda não chega a nossa hora de ter a linha da vida cortada, continuamos funcionando, guardando tudo o que podemos, tudo o que resta de cada um deles - ora com dor, ora com uma alegria contida, como se tivéssemos tesouros (e a verdade é que temos).

Se a tradição mexicana estiver certa, lembrar de quem amamos é a melhor maneira de garantir uma festa no céu. Espero que vocês estejam se divertindo.

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