OPINIÃO

Nas ondas - ou bits - do podcasting

22/04/2015 10:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
Fey Ilyas/Flickr
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Demorei para descobrir o "Serial". A série de podcasts, cuja estreia aconteceu em outubro de 2014, é comandada pela jornalista americana Sarah Koenig e firmou-se como um sucesso do gênero, com mais de 68 milhões de downloads. No programa de 12 episódios, a repórter investiga o assassinato de uma adolescente em Baltimore, nos Estados Unidos. O que faz de "Serial" um fenômeno em todo o mundo? A transparência de Sarah, que não só reporta o fato como qualquer bom jornalista, mas também detalha toda a sua apuração ao longo de cada um dos 12 episódios.

"Serial" ganhou a simpatia da audiência e de analistas de mídia e chegou a ser considerado um bom exemplo de como o jornalismo pode - e deve - ganhar uma nova roupagem na internet. Não que o podcasting seja um formato inédito, afinal há mais de 10 anos produzem-se podcasts na rede, mas é preciso reconhecer que a maneira como Sarah explorou o recurso, modesto e despretensioso, foi sensacional. A repercussão acerca da série reacendeu um debate e trouxe à tona a pergunta: seria o podcasting o sucessor do rádio ao vivo?

Eu, particularmente, acho difícil acreditar no fim do rádio ao vivo, talvez por ter trabalhado em rádio e nutrir um carinho especial por esse veículo. Não descarto, contudo, a necessidade do meio passar por uma boa recauchutada. Na Noruega, por exemplo, as transmissões de rádio via FM serão desativadas em 2017. Não se trata, porém, apenas da migração para a transmissão digital, mas também de um cenário com mais concorrência e, consequentemente, com maior diversidade de conteúdo. Nessa briga, meus caros, o podcasting leva a melhor. Pelo menos por enquanto.

Em tese, os podcasts se diferem de uma rádio ao vivo por se tratar de um conteúdo sob demanda, ou seja, que pode ser ouvido mais tarde, com calma, até mesmo sem conexão à internet. Informais, eles também costumam ser dedicados a um tema específico - nerdices, cinema, cerveja etc - e não seguem uma estrutura fixa. No Brasil, os podcasts ainda são poucos, mas não menos relevantes. O Nerdcast, principal expoente do gênero no país, tem mais de 700.000 downloads por episódio e uma média de 1 milhão de ouvintes. Vale lembrar, contudo, que o programa surgiu em 2006, quando a primeira onda do podcasting vinha à tona.

Dia desses, em uma reunião, um amigo me perguntou: "Por que você acha que os podcasts não 'viraram' no Brasil como 'viraram' nos Estados Unidos?". Pensei, pensei, não encontrei uma resposta, mas segui me questionando sobre o "problema". Talvez o formato não seja o mais simpático, uma vez que você precisa usar um programa agregador (iTunes, Stitcher) para ouvir e assinar um podcast; ou ainda, eventualmente, não exista no país a cultura da produção de conteúdo em áudio. Mas isso tende a mudar. Algumas empresas já oferecem serviços de edição para os interessados em produzir seus próprios podcasts e plataformas de streaming dão indícios de que passarão a oferecer esse tipo de conteúdo para além da música. O futuro do podcasting é, portanto, promissor. E eu não vejo a hora das redações Brasil afora se inspirarem no "Serial" para produzir super reportagens em áudio, um formato que chegou a ganhar fôlego no rádio, mas que sumiu à medida que o bom jornalismo migrou das ondas para os bits.