OPINIÃO

Tributo digital ao Clube da Esquina traz versões surpreendentes e testa modelo de negócios musical

01/07/2015 14:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

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A iniciativa independente de dois amigos cariocas fanáticos pela música de Minas Gerais deu origem a um interessante tributo em toda a habitual leva de tributos e projetos comemorativos para os medalhões da MPB. Dessa vez, a dupla Fernando Neumayer e Luís Martino, comandantes da produtora de vídeos digitais Tocavideos , investiu na série audiovisual Mar Azul , em que artistas como Moska, Silva, Maíra Freitas e Pedro Luís arriscam versões com alta voltagem autoral para os clássicos de Milton Nascimento, Ronaldo Bastos, Lô Borges, além do saudoso Fernando Brant e companhia.

Os vídeos foram gravados no Bituca Estúdio, na casa do próprio no Rio de Janeiro. Tudo ao vivo, em poucos takes e com um adendo: a maioria das versões dos artistas só foi conhecida pelos produtores na hora. "A ideia de fazer vídeos para a web começou em 2011. Um amigo me mostrou o La Blogotheque, com aquelas produções do Vincent Moon. Eu adorei aquilo e comentei com o Luís. Foi uma loucura, a gente nunca tinha filmado! Hoje a gente filma, dirige, produz, faz o catering, a curadoria e vê locação", explica Fernando. Mesmo com pouca verba, eles já produziram vídeos até para o duo Fernanda Takai & Andy Summers (The Police), sempre editando em casa e divulgando nas redes sociais. A recompensa? Jogar por amor à camisa.

Dessa vez, porém, a coisa não parou no YouTube. Por meio do selo Slap, a gravadora Som Livre desdobrou os 11 vídeos em um álbum disponível em plataformas como Spotify, iTunes, Rdio, Google Play. Procurado inicialmente para autorizar a participação dos músicos Silva e Dani Black, o coordenador artístico do selo, Paulo Monte, investiu no projeto mesmo dando visibilidade aos artistas de outras gravadoras no mesmo barco.

"O conceito, o repertório e as interpretações eram bonitas demais pra serem deixadas de lado", afirma Paulo. "Temos contratos com todos os artistas, pedimos as devidas autorizações e identificamos autores e editoras. Tem muito material independente bacana que não contempla a cadeia produtiva da música. O projeto é liberado pra download gratuito, mas os autores, editoras e artistas acabam não recebendo por isso. A intenção do Mar Azul não é necessariamente gerar lucro, mas pelo menos estamos preparados para isso. Todos os envolvidos serão remunerados da forma correta".

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Foto: Cafi/reprodução

Fernando, um fã de rock progressivo do tipo apegado aos álbuns físicos, sempre pensou numa sequência de LP. "Nesse meu delírio, Mar Azul também tem lado A, que vai até a faixa 6, meio light side, e lado B, que começa na faixa 7 e fica mais noturno até o final", explica. A escolha dos músicos, assim como as faixas, foi natural. Michele Leal, Lucas Arruda, Pedro Luís e Dani Black já tinham lançado vídeos pelo projeto, enquanto Moska e o grupo vocal Ordinarius foram convidados a dedo e artistas como Maíra Freitas e Júlia Vargas.

"Houve uma troca muito legal com todos os 11 artistas que participaram. O Moska, por exemplo, não topou a minha primeira sugestão e dias depois respondeu com Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor, o que foi incrível; já para o César Lacerda, eu cheguei com a ideia do Beto Guedes, descobri que ele era muito fã e aí decidimos por Pedras Rolando. E também teve o caso do João Bittencourt, que eu convidei já com o objetivo que ele fechasse a série com uma versão de Nascente só no piano", conta ele. Um volume 2 só com músicas de Lô Borges já desponta no horizonte.

Dani Black, dono de uma das mais ousadas versões do tributo, soa propositalmente desesperado e urgente em Travessia. "É importante respeitar as obras-primas mas é melhor ainda ser surpreendido por traços autorais em uma versão. Nesse caso, acelerei a música e mexi na harmonia toda, apesar de ter mantido uma estética de voz e violão. O Milton me encontrou antes da gravação e contei pra ele tudo isso. Ele brincou e disse: 'vai apanhar, hein?'".

Bituca e os demais membros do Clube só ouviram o conjunto de versões depois de prontas. Ao que parece, ninguém apanhou até agora. ;-)