OPINIÃO

Um bom desaniversário: Os 150 anos de 'Alice no País das Maravilhas'

20/10/2015 11:07 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

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A história já está mais que conhecida: no dia 4 de julho de 1862, o professor de matemática e reverendo Charles Lutwidge Dodgson saiu em um passeio de barco com as irmãs Lorina, Edith e Alice Liddell, filhas do seu amigo e deão da Christ Church College Henry George Liddell, e para entretê-las, inventou de uma só vez uma história em que uma menina seguia um Coelho Branco através de um buraco no chão e se deparava com um mundo fantástico, povoado por personagens peculiares e conceitos filosóficos. A heroína? A pequena Alice.

Encantada, a menina pediu para que ele colocasse a história no papel e em 1864 Dodgson entregou a ela o manuscrito As aventuras de Alice no Subterrâneo, ilustrada por ele e assinada com o pseudônimo Lewis Carroll, a primeira versão do que no ano seguinte se tornaria Alice no País das Maravilhas, um grande sucesso que definiu a literatura infantil e mesmo 150 anos depois de sua publicação se mantém como fonte inesgotável de interpretações e adaptações, transcendido os limites da literatura e se tornado tanto um ícone da cultura pop quanto objeto de sérios estudos acadêmicos.

A história, criada para entreter crianças e repleta de referências tanto ao universo particular que envolvia Dodgson e as Liddell (o Coelho Branco, por exemplo, era Henry George Liddell, que andava com um relógio de bolso e estava sempre atrasado; o buraco em que entra seria uma referência ao costume em Oxford de chamar as escadas atrás do salão principal de 'buraco de coelho') quanto a outros textos que circulavam na época, costuma ser amplamente interpretada à luz da matemática, da lógica e da filosofia, sem se limitar a essas bordas: da psicanálise à psicodelia das drogas, muitas leituras já foram feitas a respeito de "Alice" e novas leituras continuarão a ser feitas. Em seu texto para a revista New Yorker, Adam Gopnick chama atenção para a pertinência de uma leitura mais "sentimental" do livro, baseada "na interação entre uma criança que representa não a inocência, mas o senso comum em um mundo onde não há [sentido] nenhum", escreve ele.

"Os livros de Alice falam sobre a ambivalência da nossa experiência intelectual. Os mesmos hábitos mentais que produzem uma cadeia arbitrária e absurda de racionalidade também produzem teorias que aniquilam esplendidamente nossas noções comuns de tempo e espaço e lógica. A indulgência que damos à imaginação para seguir uma linha de raciocínio até o fim é o que nos dá o triunfo da filosofia e da física; é ela que também nos dá 'A Foca e o Carpinteiro'. A indulgência que damos ao intelecto é também exigida por aqueles que não conseguem mais distinguir entre um absurdo e um argumento. Os dois tipos de racionalização estão tão bem relacionados, e só podem ser diferenciados caso a caso, que nós não podemos proteger um sem ceder ao outro, e é por isso que nós nos apegamos às mesmas pessoas que mais nos irritam. E finalmente, Alice é a representação de toda mulher: é possível adicionar [à edição comentada do livro] uma seção inteira de anotações traçando o imaginário de Alice e a imitação de Alice na ficção feita por mulheres, de Cathleen Schine a Virginia Woolf. (Todo homem se identifica com Hamlet, dizem, já que todo homem imagina a si mesmo como um monarca deserdado; toda mulher se identifica com Alice, já que toda mulher enxerga a si mesma como a única pessoa lúcida em um mundo repleto de lunáticos que se imaginam monarcas deserdados.)"

E por falar em Virginia Woolf, a escritora inglesa de fato se sentiu muito estimulada pela leitura da obra de Lewis Carroll, chegando a afirmar que os livros não seriam para crianças mas "são os únicos livros em que nós nos tornamos crianças". Em seu texto sobre Carroll, publicado pela editora Cosac Naify na edição especial em comemoração aos 150 anos de Alice, Woolf explica o que significa se tornar criança através de Alice:

"É ser muito literal; é achar tudo tão estranho que nada é surpreendente; é ser impiedoso, cruel, e no entanto tão passional que qualquer desdém, uma sombra, veste o mundo inteiro de luto. É ver o mundo de ponta-cabeça. Muitos dos grandes satiristas e moralistas nos mostraram o mundo de cabeça para baixo, e nos fizeram vê-lo, como as pessoas adultas o veem, como selvageria. Apenas Lewis Carroll nos mostrou o mundo de ponta-cabeça como uma criança o vê, e nos fez dar risada como uma criança dá risada, irresponsavelmente."

Além da Cosac Naify, a editora Zahar também lançou uma edição comemorativa da obra, que traz ambos livros "Aventuras de Alice no País das Maravilhas" e "Através do Espelho e o que Alice encontrou por lá" em um volume único de luxo com projeto gráfico em dupla face, trazendo a tradução de Maria Luiza X. de A. Borges, premiada com um Jabuti, e com posfácio e ilustrações da artista plástica Adriana Peliano, que de tão apaixonada por Alice é ainda presidente da Sociedade Lewis Carroll do Brasil.

A partir das ilustrações originais de John Tenniel, que acompanharam as duas edições originais de Alice, Peliano criou colagens que dialogam com artistas como Salvador Dalí, M.C. Escher, Hieronymus Bosc, entre outros, para fazer a sua própria narrativa visual, carregada de surrealismo e psicodelia. Ao invés de se limitar a reproduzir em imagens o que está escrito, as ilustrações de Peliano desafiam o leitor a buscar interpretações que fogem do óbvio, expandindo o texto de Carroll e proporcionando uma experiência ainda mais rica dentro deste universo mágico.

Em conversa com o Brasil Post, Adriana Peliano falou sobre o processo de criação de suas colagens para a nova edição de Alice, as atividades da Sociedade Lewis Carroll, literatura infantil e o legado deste livro "de perguntas móveis e mutantes que nos convida a procurar o jardim das inesgotáveis possibilidades criativas que existe em cada um de nós".

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Suas ilustrações não traduzem visualmente o que diz o texto, mas fazem uma interpretação do contexto das situações. Você pode explicar um pouco sobre como foi o processo criativo das colagens?

Com as minhas colagens para os dois livros de Alice busco acordar dimensões da obra que não se encaixam na estória literalmente narrada. Traduzir visualmente o que diz o texto é uma aventura muito mais mirabolante do que parece. O que diz o texto de Alice? Alice se transforma na imaginação e no pensamento e desafia diferentes leituras, sempre múltipla e mutante. Enquanto Alice dialoga com ideias complexas em diversas áreas do conhecimento, muitas vezes esperamos que as imagens descrevam os personagens e as cenas de uma história de forma direta, reconhecível e confortável. Maravilhosamente isso vem mudando bastante nas últimas décadas e hoje encontramos inúmeras Alices alicedélicas e alicinantes na ilustração e nas diversas artes, que ampliam a visão tradicional da representação em direção aos desafios da reinvenção e da experimentação de linguagem.

Ao longo da história as ilustrações originais de John Tenniel foram uma referência considerada inigualável e insuperável no universo visual de Alice. Elas influenciaram gerações de ilustradores em todo mundo. Nesse trabalho utilizo as ilustrações de Tenniel em colagens num confronto amoroso e provocante com outros artistas que mergulham no surrealismo e na imaginação delirante e aqueles que propõe geometrias improváveis e impossíveis, num encontro entre o sonho e a lógica tão determinante no universo literário de Lewis Carroll.

Assim estabeleço um contraponto entre a Inglaterra vitoriana e as viagens de Alice através do tempo e espaço da relatividade. Convido então os seus personagens para se aventurar em paradoxos, enigmas e quebra cabeças. Procuro desestabilizar o conhecido e chamar o leitor para viagens enigmágicas nas margens e entrelinhas, não oferecendo respostas, mas perguntas em movimento. Assim podemos nos libertar da ideia de que a obra literária tem um sentido pronto esperando para ser desvendado. Junto com Alice acredito na infinita possibilidade de produção de sentidos, nos saltos no inesperado e na criatividade fértil de alicinagens. Os caminhos da criação são perturbadores e imprevisíveis, assim me torno também uma Alice em dimensões de sonhos dentro de sonhos.

Há uma forte abordagem psicodélica nas ilustrações, principalmente no primeiro livro, remetendo à interpretação muito em voga a partir dos anos 60, das aventuras de Alice como uma viagem alucinógena. Você se considera fã dessa leitura? Tem alguma interpretação pessoal sobre a obra?

De fato a psicodelia foi responsável por uma reviravolta nas visões de Alice. Na música, na arte, na cultura pop, nas experiências místicas e viagens de expansão da consciência. Num primeiro plano a obra era vista como uma viagem de drogas, já que Alice visitou um mundo louco comendo cogumelos e outras bebidas e comidas com consequências transformadoras e perturbadoras. Mas foi muito mais que isso. Alice passou a ser vista como uma buscadora numa jornada iniciática que ia além do mundo conhecido e convencional, desestabilizando todas as nossas certezas em direção a uma realidade ampliada, multidimensional e além da imaginação. Alice era vista como uma forma de viver outras dimensões da mente e da espiritualidade, num estimulo constante à transformação e a crianção em liberdade. Nesse sentido sim, tenho admiração e conexão com a Alice psico-alicedélica.

Se tenho uma interpretação pessoal sobre a obra? Sem dúvida e ela sempre se renova na arte e na vida como um jardim de metamorfoses e transmutações alquímicas. Quando Alice responde a pergunta da lagarta dizendo que não sabe quem é pois está em continua transformação, vejo que essa inquietação extrapola as páginas do livro e a menina segue sua viagem caleidoscópica em uma volta ao mundo em 150 anos. Vejo a transformação no cerne da obra e portanto não crio hierarquias fixas entre as diferentes leituras. Alice é a própria potência de tornar-se outra e assim desestabilizar certezas, num convite ao mergulho no desconhecido e na coragem para atravessar o espelho. Faz tempo que Alice já não é mais apenas nome de menininha, ou de personagem de obra extravagante. Alice é nome de viagem, sonho, metamorfose e desafios enigmágicósmicos.

Há algum trecho preferido? Aquele que você mais gosta de reimaginar?

Vários, em especial os momentos que desafiam a identidade pessoal de Alice, abrindo portas para o maravilhoso e a transformação. O mergulho na toca do coelho seguindo sua curiosidade ardente, também me inspira sempre. E é claro, a sequencia de transformações tentando chegar no jardim mais lindo que já se viu até mergulhar no rio de suas próprias lágrimas. Ainda estou buscando esse jardim de maravilhas... Hoje, em mim, posso dizer que Alice, personagem e obra, vive em fluxo constante. Mergulho, mudo, misturo, recrio, brinco, me assusto, tudo junto, Alice, menina com olhos de caleidoscópio, essa metamorfose ambulante.

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Qual foi seu primeiro contato com Alice e como chegou a se tornar presidente da Sociedade Lewis Carroll Brasil?

Sou muito ligada à Alice desde criança. Conforme fui crescendo esse vínculo foi também se transformando. Foi só na década de 90 que comecei um estudo mais sistemático e aprofundado quando resolvi eu mesma ilustrar os dois livros de Alice no país das maravilhas e através do espelho. Uma viagem e tanto. Quase vinte anos depois tive a oportunidade de ilustrar os dois livros novamente, numa edição mágica comemorativa dos 150 anos de Alice publicada esse ano pela editora Zahar.

Apresentei as minhas primeiras ilustrações de Alice - alicinações - em 1998 em Oxford, no centenário da morte do autor. Naquele encontro percebi a potência e a fertilidade do tema e a capacidade de confrontar saberes e promover diálogos entre diferentes leituras da obra. Foi quando entrei em contato com as Sociedades Lewis Carroll da Inglaterra, Estados Unidos e Japão. Anos depois, após um processo intenso convívio com esses livros através da arte, colecionando e investigando, percebi que poderia também criar um grupo aqui dedicado ao estudo e divulgação da obra de Carroll.

Como funciona a Sociedade?

A Sociedade Lewis Carroll do Brasil foi fundada em 2009, por um grupo de três pessoas e hoje conta com cerca de 60 membros. Alguns desses membros têm um importante histórico de pesquisa e atuação cultural na divulgação da obra literária de Carroll e de seus desdobramentos na cultura nesses 150 anos. Fora isso realizamos eventos culturais com palestras, leituras e apresentações de música e vídeo, entre outros, sempre com manifestações artísticas de diversas naturezas. Esses eventos aconteceram em diversos locais da cidade de São Paulo como o Centro Cultural Brasileiro Britânico, a Casa das Rosas, a Casa das Caldeiras, entre outros. Mantemos correspondência com membros de diversos países e atuamos como suporte de pesquisas entre membros da Sociedade e o público em geral.

No dia a dia mantenho 2 blogs ativos onde posto informações interessantes relacionadas em grande parte a presença de Alice nas artes e na cultura. Dou oficinas de arte junto com palestras sobre a história das ilustrações de Alice e cada um cria o seu próprio portal de sonhos através de colagens. Enfim, convidamos o público interessado que queira se engajar nesse projeto que parte da literatura, para a arte e a busca de vidas mais livres e criativas.

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Recentemente, um grupo de pais reclamou contra a utilização em escola de uma adaptação de Oliver Twist em quadrinhos que, segundo eles, trazia linguagem imprópria. Hoje em dia também há um certo debate sobre a moral de contos de fadas e importância de se colocar aviso em obras infantis como as de Monteiro Lobato. Embora Alice não seja objeto deste tipo de debate, há especulações sobre a relação entre Lewis Carroll e a menina Alice Liddell, que inspirou a obra. O que você pensa sobre essas discussões e iniciativas em busca de uma moralização das obras clássicas infantis?

Penso que aprender a ler vai muito além de reconhecer o significado de palavras e sentenças, mas ler o mundo. Meu sábio avô costumava dizer: Analfabeto é quem não lê o que não está escrito. Se existem questões polêmicas problemáticas e relevantes, devem tornar-se matéria prima para a reflexão, o aprofundamento e o pensamento crítico, em especial na educação. Nada no mundo e na vida vem certinho, comportado, coerente, politicamente correto. Até porque as pessoas algumas vezes ouvem essas críticas que você menciona sem espírito crítico, apenas reproduzindo o que ouviram dizer, criando preconceitos e rótulos sem investigar com consistência a complexidade de cada situação.

No caso de Carroll, não existe nenhuma prova de que ele tenha desrespeitado suas amigas. Acredito que Carroll tinha sim uma forte ligação com Alice, um encantamento, uma cumplicidade mágica no que dizia respeito a todo universo de atividades lúdicas e criativas que faziam juntos. Eles criavam brincadeiras, jogos, faziam pic nics e passeios de barco, Carroll estava sempre inventando estórias. Alice como outras meninas que ele conhecia se vestia de personagens para aparecer nas fotos maravilhosas que ele tirou. Alice Liddell tinha muita imaginação e ousadia e conta-se que sua frase predileta era "faz de conta que...". Eles se divertiam e eles as adorava. A natureza desse afeto não somos capazes de compreender. Um amor existia entre eles, mas o amor é múltiplo e amplo, não precisa estar ligado às convenções sociais ou regras de comportamento.

Nesses 150 anos, qual você pensa estar sendo o grande legado de Alice?

Creio que essa pergunta não cabe em uma única resposta. A importância de Alice sempre se renova, seja na arte, na cultura, nas viagens da imaginação e nos caminhos no pensamento, nas mais diversas leituras que vem despertando nos últimos 150 anos. Quando a menina vitoriana caiu na toca do coelho iniciou uma viagem sem fim, que continua a despertar corações e mentes. Alice atravessa o surrealismo, a psicanálise, a filosofia, a física quântica, a semiótica, a psicodelia, tantos ismos e alicismos, desafiando fronteiras e desestabilizando nossa necessidade de interpretar, explicar e enquadrar o mundo em categorias e conceitos pré-estabelecidos.

Creio que Alice é acima de tudo uma grande potência de criação e produção de sentidos tanto na arte quando no mundo das ideias. Como disse o Gata de Chershire, o caminho a seguir depende de onde que chegar, isso ultrapassa as visões moralistas e limitantes de certo e errado e nos desafia a nos tornarmos responsáveis por nossas escolhas, sempre. Alice é viva e desafia todo saber instituído despertando a multiplicidade caleidoscópica da metamorfose de tudo o que existe. Um livro de perguntas móveis e mutantes que nos convida a procurar o jardim das inesgotáveis possibilidades criativas que existe em cada um de nós. Como disse o escritor Paulo Mendes Campos em carta para sua filha Maria da Graça: Esse livro é doido, o sentido está em ti!

Conheça a Sociedade Lewis Carroll do Brasil

Site:www.lewiscarrollbrasil.com.br

Blogs: alicenations.blogspot.com.br e alicenagens.blogspot.com.br

Todas as colagens que ilustram o texto são de Adriana Peliano e usadas sob permissão.

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