OPINIÃO

Por que 'A Bela e a Fera' não é uma história sobre Síndrome de Estocolmo

Com tantas nuances, referências e interpretações possíveis, tachar o romance de "história sobre relacionamento abusivo" alimenta desinformação.

08/04/2017 23:40 -03 | Atualizado 14/04/2017 20:13 -03
Divulgação/Facebook
Colunista reflete sobre a relação das personagens Bela e Fera.

Desde que foi anunciada a versão live-action de A Bela e a Fera, longa de animação lançado pela Disney em 1991 e primeiro do gênero a ser indicado ao Oscar como melhor filme, foi aquecida a controvérsia ao redor do filme: para algumas pessoas, a história trata de um relacionamento abusivo e o romance entre a Bela e a Fera seria possível devido a Bela ter desenvolvido uma síndrome de Estocolmo em relação à Fera. Segundo as críticas, o relacionamento entre ambos partiria de uma enganosa noção de amor romântico e transmitiria uma mensagem perigosa, que levaria meninas a normalizarem situações de abuso moral em seus relacionamentos quando adultas, dizendo a elas que o amor seria capaz de modificar uma pessoa abusiva.

Esse tipo de interpretação costuma se basear em determinas premissas, a saber: uma Fera que toma Bela como prisioneira, uma heroína que enxergaria o lado bom de um homem aparentemente mau, um romance que redimiria a Fera e o transforma em lindo príncipe. Acontece que não é bem assim.

A Síndrome de Estocolmo

Antes de tudo, é necessário entender o que é a Síndrome de Estocolmo e como funcionam os relacionamentos abusivos.

A chamada Síndrome de Estocolmo ganhou este nome após um famoso caso de assalto a banco na cidade de Estocolmo em que o criminoso Jan-Erik Olsson e seus reféns conviveram durante seis dias e, durante este tempo, laços afetivos foram criados entre eles.

Os reféns chegaram a proteger o assaltante com o corpo para que a polícia não atirasse nele e um deles chegou mesmo a afirmar: "confio plenamente nele, viajaria por todo o mundo com ele".

Olsson era um assaltante peculiar: ele queria encerrar o assalto logo após receber o resgate e, apesar de estar armado e mantendo seus reféns em cativeiro, em momento nenhum os intimidou de forma violenta, agrediu verbal ou fisicamente ou fez que tivessem medo dele. Inclusive, após sua prisão, dois dos reféns chegaram a visitá-lo. Carismático, ele inclusive chegou a se casar na prisão e teve policiais como testemunhas. Não chegou a se envolver em mais nenhum crime após isso.

Apesar de Olsson não demonstrar ter as características de uma pessoa violenta, na época do episódio o criminologista Nils Berejot, que ajudou a polícia sueca a lidar com o assalto, achou que não era natural que os reféns tivessem se afeiçoado a seu raptor e levantou a hipótese de que eles estariam sofrendo de um mecanismo de defesa psicológico gerado pelo medo, em que a vítima amplifica qualquer atitude amigável de seu agressor na tentativa de se identificar com ele - e chamou esse mecanismo de defesa de Síndrome de Estocolmo. Hoje talvez seja possível afirmar que aquele homem de fato não era uma pessoa agressiva e que as vítimas talvez não estivessem mesmo com medo dele. Mas isso não significa que o transtorno psicológico não exista.

Os relacionamentos românticos abusivos

Segundo a psicologia, pessoas que sofrem abuso físico e/ou moral podem desenvolver um transtorno como uma maneira inconsciente de autopreservação. Por medo, a vítima acredita que não terá meios de sair daquela situação e passa a tentar não desagradar seu agressor, chegando ao ponto de passar a encará-lo com simpatia. A vítima fica submetida a uma dependência física e emocional tão intensa, que passa a enxergar seu agressor como seu único protetor e amigo, muitas vezes sendo capaz de defendê-lo. Ela não percebe que a pessoa faz mal para ela. Em alguns casos o abuso é tão sutil que a pessoa oprimida não consegue perceber que está sendo manipulada e até encara seu agressor como alguém incompreendido e que todos que estão de fora não conseguem perceber que, no fundo, ele é uma boa pessoa. É muito comum ouvir de vítimas de relacionamentos românticos abusivos dizerem coisas como "você não entende, ele me ama!".

A vítima não se reconhece como alguém que sofre de um estresse psicológico, ela não aceita que esteja em um relacionamento abusivo e acredita que, se tiver paciência, irá conseguir mudar o temperamento de seu agressor. Muitas vezes ela é levada pelo próprio agressor a pensar isso através da prática do gaslighting, que acontece quando o agressor leva a sua vítima a acreditar que está distorcendo as situações na própria cabeça, que as coisas não são como ela acredita e se sentir culpada. Ela é levada a acreditar que exagera ou que está louca.

A dinâmica de um relacionamento abusivo exige um equilíbrio desigual de poder. A pessoa oprimida é colocada em várias situações de estresse por seu opressor: costuma ser levada a se afastar da família e dos amigos, ser impedida de sair ou trabalhar - em alguns casos não acontece um impedimento, mas a pessoa é deixada para fazer sozinha as atividades que não interessam a seu par e é levada a se sentir culpada por isso.

Também costuma haver controle de horários ou exigência de provas, como a obrigação de mandar mensagens, fotos ou fazer telefonemas frequentes para confirmar que ela está onde disse que estaria. A vítima de um relacionamento abusivo é vigiada todo tempo, ela costuma sentir medo das consequências de suas atitudes frequentemente e evita falar com alguém sobre o que está acontecendo. Ela vive em estado de medo, vergonha e ameaças, chegando a ser agredida fisicamente em alguns casos. Quando tenta sair dessa submissão, o agressor promete mudar de comportamento e a relação entra em clima de lua-de-mel. Para logo em seguida o ciclo recomeçar.

Como você pode ver, relacionamentos abusivos têm várias características de abuso de poder, agressão, manipulação e dependência emocional. Elementos que em "A Bela e a Fera" não existem.

A Fera não é um agressor

O fato de a Fera ser um animal está relacionada a um subgênero dos contos de fadas chamado "noivos animalescos" (animal bridegrooms, em inglês), em que de fato os animais encontram sua redenção através do amor de um ser humano. O que não significa que esses seres sejam ruins.

O simbolismo desse tipo de história alude ao lado selvagem dos seres humanos, aquele lado obscuro que todos temos dentro de nós e que sem o contato humano adequado nos leva a um estado primitivo de animalização. Como conta Rodrigo Lacerda em sua introdução ao livro A Bela e A Fera, lançado no Brasil no ano passado pela editora Zahar, "neste tipo de narrativa, a trajetória do protagonista costuma envolver um encontro do humano com o poder ambíguo, assustador e fascinante do mundo fantástico, encontro do qual o homem ou a mulher sairá integralmente imbuído de generosidade, abertura de espírito e compreensão."

Jovens protagonistas provam sua pureza e afirmam o amor sobre todas as outras forças da natureza, mostrando-se capazes de redesenhar as fronteiras entre o humano e a dimensão fantástica do mundo. (...) Por sua vez, o noivo ou a noiva animalesco de modo geral representa nosso lado selvagem, e o de nossos cônjuges -- aquele lado que, mesmo quando conhecemos, não podemos controlar.

Ou seja, a intenção não é romantizar o comportamento abusivo de um homem em relação à sua amante, mas propiciar um confronto entre o humano e o animal, nem sempre deliberadamente, e necessariamente, ruim.

Para fazer uma comparação, basta se lembrar de um outro conto, o do Barba Azul - este sim, um personagem violento, abusivo e mau. Em Barba Azul, o homem é temido por todos, mas finge ser uma boa pessoa para se casar com uma mocinha. Ele permite que sua esposa ande por todos os domínios de seu castelo, mas jamais abra uma determinada porta. Curiosa, ela abre a porta e descobre os ossos das antigas esposas de Barba Azul no armário. A sentença pela sua curiosidade e desobediência é a morte. Aqui temos de fato uma história sombria e aterrorizante, que culmina na morte do agressor.

Embora a Disney tenha tomado emprestada a proibição de entrar em determinada ala do castelo, coisa que não existe na história original da Bela e a Fera, qualquer possível semelhança entre as narrativas termina aí.

O romance original de Madame de Villeneuve e a inspiração da vida real

Escrita por Gabrielle Villeneuve, e mais tarde adaptada em conto educativo para crianças por Madame Jeanne-Marie de Beaumont, a história original de A Bela e a Fera é um romance voltado para o público adulto. Nela, o príncipe se torna uma Fera não como lição de humildade, mas devido a uma vingança cometida por uma bruxa que se apaixona por ele e não pode desposá-lo. Ele não se torna uma Fera por ser selvagem, mas sim para se tornar um pária da sociedade.

Uma das inspirações da vida real real pode ter sido a história do espanhol Pedro González, nascido com hipertricose, a chamada "síndrome do lobisomem". Pedro não recebeu educação formal até os 10 anos de idade, quando foi vendido pelo próprio pai ao rei Carlos I da Espanha. Tendo o navio em que viajava sido atacado por piratas franceses, estes o mandaram para o rei Henrique II, da França, como animal de estimação - naquela época, possuir criaturas provenientes de terras distantes era simbolo de status e fonte de prestígio para seus "proprietários".

Nos domínios de Henrique II, o rei francês resolveu submetê-lo a uma experiência para saber se ele poderia ser humanizado. Assim, Pedro ganhou o nome latino de Petrus Gonsalvus, foi vestido com roupas nobres e recebeu educação sofisticada.

Surpreendendo a corte, Pedro aprendeu a ler, a escrever, a falar várias línguas e agir com etiqueta - afinal, era um ser humano como qualquer outro. Dessa forma, o rei passou a pagá-lo para que prestasse serviços diplomáticos junto a estrangeiros na corte. Com a morte do rei, a viúva Catarina de Médici resolveu casá-lo com uma bela mulher -- curiosidade era saber se o casal poderia gerar filhos e como eles nasceriam. A noiva, que desmaiou ao avistar Pedro pela primeira vez, acabou se acalmando devido aos bons modos do marido. Os dois viveram em uma relação amorosa e um bom casamento, segundo conta a história.

A partir disso, fica mais fácil entender como a Fera é uma metáfora para uma pessoa marginalizada pela sociedade e vista como uma besta; nesse caso, devido a uma condição física atípica. Quando a bruxa transforma o príncipe em Fera, ela não o condena a ser mau nem grosseiro, nem ele era nada disso antes da maldição.

Ela retira dele as características físicas humanas e ainda o obriga a se mostrar como uma pessoa burra, justamente porque se Bela descobrir que na verdade a Fera é um ser inteligente e refinado, pode se afeiçoar a ele. A única coisa de terrível que a Fera possui é sua aparência e Bela é a mulher predestinada a enxergar o ser que existe além disso, o que ela de fato faz, devido a sua natureza piedosa e compreensiva.

A Fera no filme da Disney

No filme, a Fera de fato é um ser menos conformado e muito mais temperamental e irascível do que na história original, o que faz mais sentido para o público dos dias de hoje. [ora, se se tratasse apenas de uma condição física diferente, como é o caso, por exemplo, de Quasímodo, o corcunda de Notre Dame, o filme não veria confronto algum entre a Bela e a Fera e o público encararia com maior naturalidade o romance entre os protagonistas.] Além disso, é muito pouco verossímil que uma pessoa condenada a perder suas características físicas humanas e que além disso seja obrigada a viver isolada de sua família, de sua corte e de qualquer outro ser humano não se transforme em uma criatura irada e amargurada.

E é justamente isto que a Fera da Disney é: um ser frustrado. É uma criatura inflexível, que fica ofendido e condena à prisão o pai de Bela por considerá-lo um ladrão, simplesmente devido ao roubo de uma rosa. Apesar disso, é importante notar que a Fera jamais machuca o pai de Bela. Pelo contrário, ele oferece comida e hospitalidade sem interesse nenhum em troca, porque ele nem mesmo sabe quem aquele homem é.

No filme, quando a Bela chega e assume o lugar do pai, ela toma essa decisão sozinha, não é persuadida por ninguém a isso, o que demonstra que a Fera não tinha intenção de manipulá-la.

Um outro detalhe que dá dicas sobre o caráter da Fera é a sua relação com seus empregados, transformados em objetos falantes: nenhum deles leva muito a sério os arroubos de raiva de seu patrão, nenhum deles teme por sua integridade ou quer deixar aquele lugar. Seus empregados o respeitam e o amam, e são capazes de desobedecê-lo sem temer consequências mais graves, sabendo que ele será capaz de ouvi-los após uma discussão. Isso demonstra que há um lado razoável naquela criatura, uma bondade que ele não se permite mais demonstrar por ninguém.

E é importante que a Fera não seja uma criatura dócil e submissa, que se revolte ao ser retirada de uma sociedade da qual não pode mais pertencer. Sabemos que ele tem razão: assim como Quasímodo, que é ridicularizado pelo povo quando notam que ele não veste uma máscara, a primeira reação do povo da fictícia Villeneuve é acreditar que aquela Fera é um monstro. Se antecipando ao julgamento que a sociedade fará dele - e demonstrando acreditar ele mesmo nisso - a Fera entra no papel de ser que deve ser temido. Um mecanismo de defesa gerado pela raiva, do qual ninguém está imune.

Segundo o psicanalista Bruno Bettelheim, é importante que existam personagens como a Fera nas histórias infantis. Em A psicanálise dos contos de fadas (Paz e Terra, ANO), ele ensina a importância de a criança perceber que ninguém é inteiramente bom e aprender a lidar com isso de forma menos ansiosa:

Existe uma recusa difundida em deixar as crianças saberem que a fonte de tantos insucessos na vida está na nossa própria natureza – na propensão de todos os homens para agir de forma agressiva, não social, egoísta, por raiva e ansiedade. Em vez disso, queremos que nossos filhos acreditem que, inerentemente, todos os homens são bons. Mas as crianças sabem que elas não são sempre boas; e com frequência, mesmo quando são, preferiam não sê-lo. Isso contradiz o que lhes é dito pelos pais, e portanto faz a criança sentir-se um monstro a seus próprios olhos

A dinâmica entre a Bela e a Fera

A chegada de Bela deixa os empregados do castelo em polvorosa, mas não a Fera. Ciente da aparência que exibe, ele acredita que as chances da Bela encará-lo como um ser humano são mínimas e que mulher nenhuma se atrairia por uma criatura como aquela. Para ele, Bela é um incômodo. Apesar disso, ele é encorajado por seus amigos a tentar interagir com ela, tarefa na qual falha miseravelmente. Humilhado, ele apela para o abuso de poder: se não vai jantar comigo, então vai morrer de fome.

Ordem que a Bela prontamente não obedece. Quando questionada sobre Bela sofrer ou não de Síndrome de Estocolmo, Emma Watson é perspicaz em sua resposta: "Bela discorda e discute constantemente com a Fera. Ela não apresenta nenhuma das características de alguém com Síndrome de Estocolmo porque ela mantém sua independência, ela mantém aquela independência da mente. (...) Ela devolve na mesma moeda. Ele bate a porta, ela também bate. Há um desafio: 'Você está pensando que eu vou sair e jantar com você e ser sua prisioneira - de forma alguma'".

Ou seja, Bela não tem medo de desagradar a Fera e não se deixa intimidar por suas ameaças. Ela não vê nenhum motivo para passar a gostar dele e ele, por sua vez, também não demonstra nenhum interesse espontâneo por ela. Ele não tem intenção de obrigá-la a ficar com ele de forma romântica -- para a Fera, Bela é uma prisioneira pagando a pena de seu pai. O movimento que faz de tentar jantar com a moça é um plano de seus empregados que, por algum motivo, acreditam que a Bela será capaz de gostar da Fera, se for tratada da forma correta.

Apesar de ter um quarto para si, ganhar vestidos e receber os melhores cuidados, Bela não acredita que a Fera é uma pessoa boa por isso. Ela não se deslumbra e não aceita qualquer migalha de gentileza: ao contrário, resolve fugir. Em sua fuga, é atacada por lobos e a Fera aparece de repente, salvando a sua vida. Na luta com os lobos, a Fera fica gravemente ferida e pode morrer se for deixada lá.

Bela tem duas opções: partir e deixar a Fera à própria sorte ou retribuir o que a Fera fez por ela, mas acabar voltando para o cativeiro. É aí que o relacionamento entre a Bela e a Fera muda: quando a consciência de Bela fala mais alto e ela não consegue deixar que a criatura que salvou a sua vida morra. E é quando a Fera percebe que aquela pessoa não é como as outras e, apesar de tudo, foi incapaz de deixá-lo morrer. Então os dois baixam suas guardas. E se tornam, antes de qualquer coisa, amigos.

Perceba que a Bela em momento algum se afeiçoa a Fera devido ao estresse, como um mecanismo de defesa engatilhado pelo medo, pela intimidação ou pela manipulação. Logo que ambos salvam as vidas um do outro, a Fera deixa toda a sua grosseria de lado para conviver em harmonia com a Bela, permitindo que ela explore o castelo, dando sua biblioteca de presente a ela e deixando que faça o que ela bem quiser.

Ela faz companhia a ele e, de certa forma, ele também faz companhia a ela. Porque o que a Bela percebe não é que o amor e a gentileza podem mudar uma pessoa abusiva - o que ela nota é que aquela criatura não é verdadeiramente violenta, para começo de conversa, e que ambos são outsiders, marginalizados pela sociedade da época. Para uma inventora e leitora voraz, a imagem da biblioteca (não decorativa, a Fera de fato leu muitos daqueles livros e ambos debatem sobre eles) é eloquente: Bela se sente mais compreendida por uma Fera do que pelas pessoas provincianas de sua aldeia, que a encaram, riem e apontam para ela.

Mas ainda há uma dinâmica de poder: Bela pode fazer o que quiser dentro dos limites do castelo e permanece sendo prisioneira da Fera, estando à mercê do humor e das decisões da criatura. E é quando ocorre este momento no filme: a Fera, esperançosa, pergunta à Bela se ela acha que conseguiria ser feliz vivendo no castelo. Bela responde que não sabe porque como ela poderia ser feliz em um lugar onde não é livre? Se dando conta disso, a Fera então a liberta. Bruno Bettelheim explica:

As crianças devem ser capazes de acreditar que é possível atingir uma forma de existência mais alta, se dominam os graus de desenvolvimento que isso requer. As histórias contando que isso, além de ser possível, é o provável, têm uma tremenda atração para as crianças, porque combatem o temor sempre presente de que não conseguirão fazer essa transição ou de que perderão muito no processo.

A metáfora do outsider e a outra história da vida real

Se voltarmos ao conto do Barba Azul, citado anteriormente, veremos que apesar da sua fama de mau, ele finge ser um homem bom para conquistar a simpatia da sua noiva e da família dela, até o momento em que seus assassinatos são descobertos. Esta costuma ser a dinâmica de relacionamentos abusivos: a vítima está lidando com um narcista, com alguém dominador que normalmente faz uma boa figura fora do relacionamento, mas que esconde diversos esqueletos em seu armário.

A Fera de A Bela e a Fera é quase o contrário: age como uma criatura perigosa que deve ser temida, mas que na verdade é uma pessoa sensível e com um lado bom submerso, já que nunca encontrou alguém que não o tivesse tratado como uma aberração, desde que foi condenado pela maldição.

A mensagem aqui não se trata de dizer que há um lado bom em pessoas aparentemente terríveis. Não se trata de uma história sobre como a resiliência e o amor trazem recompensas no final. A história é sobre pessoas marginalizadas pela sociedade e como a falta de contato humano pode fazer aflorar o que há de pior em qualquer pessoa. A Fera é como a Criatura de Victor Frankenstein, que abandonada por seu criador devido à aparência repugnante, precisa aprender a se virar sozinha e é capaz de chegar a extremos como retaliação a ter sido negado a ela o contato com uma família e a amizade de outros seres humanos.

Não à toa, o criador da série Penny Dreadful diz ter se inspirado na história de Frankenstein para criar a série - como homossexual, ele sentia empatia pelo monstro incompreendido. Da mesma maneira, a animação da Disney de A Bela e a Fera, de 1991, pode ser encarada como uma metáfora sobre pessoas infectadas com o vírus HIV.

Howard Ashman, o compositor das peças musicais, era portador do vírus e fez que a história do desenho, que inicialmente seria centrada apenas em Bela, se tornasse também a história de Fera (o que inclusive se aproxima mais do romance original de Madame Villeneuve). Homossexual assumido, Ashman morreu apenas quatro dias após a primeira exibição do filme e, para ele, a história era uma metáfora para a aids, ainda tão estigmatizada naquele início dos anos 1990.

Com tantas nuances, referências e interpretações possíveis, insistir em tachar o romance de "história sobre relacionamento abusivo" é recorrer a um lugar-comum que alimenta a desinformação, propagando uma ideia preconcebida que pode afastar pessoas das obras, quando mais saudável seria que cada um lesse os livros, assistisse aos filmes e tirasse suas próprias conclusões. Ainda pior é impor esse tipo de interpretação para o público infantil, justamente a quem se diz querer proteger. Como nos lembra Bruno Bettelheim:

O valor do conto de fadas para a criança é destruído se alguém detalha os significados. (...) Todos os bons contos de fadas têm significados em muitos níveis; só a criança pode saber quais significados são importantes para ela no momento. À medida que cresce, a criança descobre novos aspectos desses contos bem conhecidos, e isso lhe dá a convicção de que realmente amadureceu em compreensão, já que a mesma história agora revela tantas coisas novas para ela. Isso só pode concorrer se a criança não ouviu uma narrativa didática do assunto. A história só alcança um sentido pleno para a criança quando é ela quem descobre espontânea e intuitivamente os significados previamente ocultos.

O que é necessário entender é que, não se tratando de uma história sobre Síndrome de Estocolmo, o que fica também não é a mensagem de que o amor romântico supera tudo e muda as pessoas no final. Antes, transmite-se a ideia de que, sendo Fera, é possível transcender para um plano mais alto de existência, saindo de um estágio selvagem e primitivo, ou melhor, imaturo, para outro mais belo e nobre.

No romance original, a ideia de Madame de Villeneuve era mostrar para as menina das quais era preceptora que os casamentos de aparências não tinham valor verdadeiro: o dinheiro pode acabar e a beleza é superficial. O que sobra no final é o caráter. E se A Bela e Fera deixa uma mensagem, seria esta: é sobre mostrar as provações pelas quais devemos passar se quisermos nos tornar seres humanos melhores e sobre a importância de se enxergar além das aparências -- afinal, o preconceito marginaliza as pessoas e a falta de contato humano pode gerar verdadeiros monstros.

No conto de fadas existe um perigo, mas ele é superado com êxito. Não há morte sem destruição, mas uma melhor integração simbolizada pela vitória sobre o inimigo ou competidor, e pela felicidade – e ela é recompensa do herói no final do conto. Para consegui-la, passa por experiências de crescimento comparáveis às experiências de que a criança necessita quando se desenvolve para a maturidade. Isso dá coragem à criança para que não desanime com as dificuldades que encontra na luta para chegar a ser ela mesma.

Citações utilizadas nesta matéria: BETTELHEIM, BRUNO; Na terra das fadas: análise das personagens femininas; Paz e Terra, 2008, exceto quando mencionado.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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