OPINIÃO

Os fantásticos contos de Charles Perrault

13/04/2016 18:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

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Em determinado capítulo de seu livro Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da Mulher Selvagem (Rocco, 2014), a psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés utiliza a fábula do Barba Azul como metáfora para discutir o princípio da iniciação feminina em que a mulher ainda ingênua se torna presa fácil para os tipos predatórios, sejam eles homens, situações desgastantes ou mesmo complexos psíquicos.

Clarissa P. Estés discorre sobre a simbologia presente no conto, como o predador, que com alguns agrados consegue convencer a mais ingênua das irmãs de que não é assim tão mau; a chave do conhecimento, que faz com que a mocinha finalmente se depare com o conhecimento da verdade, embora tenha sido instruída a não entrar no cômodo secreto; e o sangue enquanto a própria verdade em si, que quase leva a heroína à ruína se ela não tivesse sabido o momento certo de pensar, buscar sua força interna e pedir ajuda.

À luz da interpretação da analista, o conto do Barba Azul ganha uma profundidade poderosa, bastante útil para se trabalhar com meninas e mulheres a noção de autonomia, busca pelo conhecimento e abandono da ingenuidade em situações abusivas, indo na contramão da moral publicada em 1697 por Charles Perrault, que aconselhava contra os perigos a que estão expostas as personalidades curiosas: "A curiosidade, com seu deslumbramento causa muito arrependimento", diz ele nos primeiros versos de sua moral, traduzidos por Leonardo Fróes para a nova edição dos Contos da mamãe gansa ou histórias do tempo antigo, que a Cosac Naify acaba de colocar nas prateleiras.

A história de terror, sanguinolenta e aterrorizante, foi uma das que espantou até mesmo Fróes que, em seu texto de apoio, conta que foi uma jovem mãe que o alertou sobre o que significavam tais contos na época de Perrault: mais que simplesmente histórias violentas, elas se tratavam de "ferramentas para salvar as crianças que há três séculos se expunham, sem qualquer lei que as protegesse, aos perigos mais horripilantes possíveis", escreve ele, lembrando da constante presença desse tema nos romances de Charles Dickens e Victor Hugo.

Apesar disso, os contos não eram exatamente voltados para as crianças da época, mas sim uma forma de auxiliar a educação das jovens moças e, ainda, entretenimento destinado às mulheres nos salões da França, muito apreciadoras de histórias fantásticas.

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Além de O Barba Azul, o volume traz também versões mais sinistras de Chapeuzinho Vermelho e O Pequeno Polegar, cujo enredo aqui se parece menos com a versão de mesmo nome escrita pelos irmãos Grimm e se aproxima mais de outro clássico deles, João e Maria. E como nem tudo é horror, acompanham a edição contos com aventuras mais leves, divertidas e românticas, como A Bela Adormecida, O Gato de Botas, As Fadas, Cinderela ou a Gata Borralheira, Riquet, o Topetudo e Pele de Asno, seguindo a íntegra do texto de 1697, com as morais escritas pelo influente Charles Perrault.

Vale pontuar que, como se sabe, Perrault não é o inventor destes textos, tendo se limitado a dar forma literária às histórias populares contadas na época, com o auxílio de seu filho Perrault D'Armancour, que inclusive é quem assina a dedicatória à Mademoiselle de Chartres, sobrinha de Luís XIV.

Repletos de humor e fantasia, as versões são bem diferentes daquelas estabelecidas pós-Disney, como por exemplo a de A Bela Adormecida, que precisa lidar com uma sogra que na verdade é uma ogra que um belo dia decide comer a nora e seus filhos, ocasionando uma enorme confusão. A moral de uma história tão peculiar? "[...] às vezes os agradáveis nós do casório,/Mesmo que tardem, podem dar em caso sério". E se alguém está se perguntando, não existe nenhum tipo de abuso por parte do princípe nesta versão da história.

Como complemento, além do texto de Leonardo Fróes sobre a tradução da obra, a edição traz ainda um posfácio assinado pelo escritor francês Michel Tournier, que utiliza o caráter arquetípico do conto do mesmo Barba Azul e sua possível analogia com a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, como base para demonstrar as possibilidades inesgotáveis deste gênero literário.

As belas ilustrações ficaram a cargo do estúdio espanhol Milimbo, que, com tanto capricho, entregou um projeto gráfico especial para cada conto, utilizando desde técnicas de ilustração diferentes (desenhos à mão em lápis de cor, grafite e canetinha, colagens, carimbos, cenários fotografados e ilustrações vetoriais feitas no computador) a impressão em diversos tipos de papel (A Bela Adormecida, por exemplo, foi impresso em papel couché, enquanto em Cinderela foi usado o papel jornal), dando um aspecto luxuoso ao livro e fazendo com que a leitura de cada história seja uma experiência mais rica e mais divertida.

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