OPINIÃO

Em "A Arte de Pedir", Amanda Palmer fala sobre a importância de permitir a ajuda alheia

04/08/2015 19:01 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

amanda palmer

Há alguns meses, um homem foi preso acusado de ter roubado dois quilos de carne em um supermercado. Na delegacia, ele confessou o crime: desempregado e passando fome há dois dias, ele precisava arranjar um jeito de alimentar seus dois filhos e pediu para que os policiais mandassem comida para as crianças. Comovidos, os policiais não só fizeram comoras para a família do homem como ainda pagaram sua fiança. O caso chegou aos jornais e logo várias pessoas ofereceram ajuda -- o homem, cuja profissão é eletricista, logo conseguiu uma oferta de emprego. Em uma caixa de comentários desse faroeste que é a internet, um comentarista perguntou: "por que em vez de roubar, ele não pediu ajuda?".

Entrando no terreno da especulação, pode-se desconfiar de um motivo muito simples: porque para a maioria das pessoas, pedir é um ato extremamente difícil -- quando não penoso -- e muita gente prefere chegar às últimas consequências na tentativa de resolver seus problemas sozinhos a pedir ajuda. Para essas pessoas, pedir é um ato de vulnerabilidade e fraqueza que beira a indignidade; para elas, pedir é equivalente a mendigar. E ninguém quer ser visto em tal posição.

Esta é uma das premissas abordadas por Amanda Palmer em A Arte de Pedir, livro que surgiu na esteira do sucesso da palestra feita pela cantora em um TED Talk em fevereiro de 2013, em que Amanda fala sobre a importância de saber receber e pedir ajuda, menos para obter vantagens e mais como forma de criar conexões reais entre as pessoas. Mas e a diferença entre pedir e mendigar, qual é afinal? Segundo Amanda, "pedir é uma colaboração, mendigar é uma solicitação menos conectada: o ato de mendigar não é capaz de fornecer um valor a quem doa; por definição, não oferece nenhuma troca. (...) Pedir é um ato de intimidade e confiança. Mendigar é uma função de medo, desespero ou fraqueza", ou seja, aquele que pede constrói, ou ao menos supõe, uma relação de confiança com quem pode oferecer, despertando naturalmente no outro a sensação de fazer parte de algo, de ser recompensado de alguma maneira (ainda que seja a mera sensação de se sentir bem consigo mesmo e sua boa ação).

Nesse caso, quem dá o faz porque também recebe algo em troca, seja um resultado prático, um bem ou uma satisfação pessoal. Já aquele que mendiga, por seu desespero, exige a ajuda do outro, que muitas vezes doa (dinheiro, tempo, o que for) a contragosto, por um mero senso de obrigação. Essa distinção é importante dentro do livro por ser o elemento-chave que explica a questão que levou a artista a ser convidada a falar sobre o assunto na TED Talk, em primeiro lugar. Uma questão levantada por alguns jornalistas da grande mídia que voltaram suas atenções para Amanda quando o projeto de financiamento coletivo de seu álbum no Kickstarter conseguiu ultrapassar a meta dos cem mil dólares e arrecadou um milhão, em um feito inédito na história da indústria musical: "Diga, Amanda, você pode explicar essa sua relação com os seus fãs?". E é a partir desta pergunta que a cantora desvela o fio condutor do seu livro, baseando a obra em memórias sobre sua carreira artística que mostram como seu espírito criativo e gregário permitiu com que ela construísse uma rede colaborativa desde seus tempos como artista independente à frente do duo The Dresden Dolls.

Antes de iniciar sua carreira artística na música, Amanda Palmer teve vários tipos de emprego: balconista, vendedora, massagista, modelo de nu artístico, ajudante de costura, hostess, dominatrix, stripper, estátua viva. Foi como estátua em uma praça de Boston que ela teve seu primeiro contato tanto com a indiferença quanto com a atenção humana: milhares de pessoas passavam diariamente por ela sem nem mesmo notá-la, mas às vezes alguém colocava algum dinheiro em seu chapéu e a magia acontecia: a estátua ganhava vida e havia um breve momento de conexão olho-no-olho enquanto entregava uma flor à boa alma, muitas vezes alguma pessoa solitária que buscava algum tipo de interação humana. Foi esta experiência que fez com que Amanda refletisse sobre a necessidade das pessoas de serem vistas: "Existe uma diferença entre querer ser olhada e querer ser vista.(...) Um é exibicionismo, outro é conexão. Nem todo mundo quer ser olhado. Todo mundo quer ser visto", escreve ela.

Com o dinheiro ganho como estátua, ela conseguiu alugar um quarto em uma espécie de pensão de artistas e foi lá onde Amanda teve contato com diversos outros artistas da cidade, incluindo aquele que seria seu parceiro no Dresden Dolls. A falta de dinheiro nunca foi um empecilho: adeptos do faça-você-mesmo eles tocavam com os instrumentos que arranjavam, gravavam em estúdios emprestados por amigos, usavam roupas de brechó, dormiam em casas de amigos quando era preciso viajar e gravavam seus CDs em casa, fazendo manualmente as capas com colagens. Uma das estratégias, que Amanda mantém até hoje, era ter um mailing com os emails de todos os fãs ou qualquer um que demonstrasse interesse pela banda, para que ela pudesse se comunicar diretamente com eles, contando a respeito de músicas, lançamentos e próximos shows -- esta parte especialmente importante: através do mailing, Amanda podia conseguir dicas de locais para tocar, casas onde dormir, músicos locais que quisessem tocar com eles ou abrir os shows e tudo mais que fosse necessário. Em troca, a banda oferecia ingressos, CDs, comes e bebes e "muito amor".

Nascia aí o embrião do método que fez com que Amanda Palmer reunisse em torno de si fãs tão conectados a ela -- que dorme em suas casas, faz sessões gratuitas de música nas cidades onde passa, convida artistas locais para seus shows, atende um por um no camarim após as apresentações, para ficar em alguns exemplos --, que quando chegou o momento de gravar um novo álbum fora de uma gravadora, 25 mil pessoas desembolsaram um milhão de dólares de bom grado. E o projeto era generoso: com apenas $1, o apoiador recebia um link para download do álbum. Com um pouco mais, podia receber brindes mais exclusivos, como um vinil duplo ou um porta-garrafas criado pela cantora. Com alguns milhares, uma sessão de arte na sua casa ou uma festa particular para 50 pessoas em qualquer lugar do mundo. Mas o que Amanda Palmer descobriu foi que mais que receber algo em troca, as pessoas que apoiam financiamentos coletivos querem apenas ajudar um artista que admiram a fazer seu trabalho, sabendo que participaram do projeto. Muitos dos apoiadores desses financiamentos escolhem não receber nada em troca.

2015-07-31-1438378375-9480019-CAPA_AArteDePedir_WEB.jpg

Além das histórias sobre sua carreira musical, o livro traz ainda outras duas mais íntimas, que falam sobre dois dos relacionamentos mais importantes da cantora, sem deixar de lado a temática da obra: a primeira, sobre seu mentor Anthony, que lutava contra um tipo raro de leucemia enquanto o livro era escrito e publicado e que veio a falecer há pouco tempo, que aparece no livro não apenas como o grande amigo e conselheiro de Amanda mas também em uma espécie de arco narrativo tocante sobre como ela saiu da posição de quem recebe ajuda para aquela que dá; e sobre seu relacionamento com Neil Gaiman, com o foco voltado para a tensão que a cantora experimentou ao ter que lidar com uma despesa com a qual não poderia arcar e toda a resistência que sentiu em ter que receber ajuda de seu próprio marido.

Sobre Gaiman, vale um parêntese: no livro, o escritor é retratado com uma fragilidade que dificilmente veríamos o próprio demonstrar, inclusive como protagonista de uma história um tanto comovente: em certas ocasiões em que Amanda esteve doente, Gaiman assumiu uma personalidade distante e fria para voltar ao normal tão logo a cantora se recuperasse. Quando finalmente confrontado com a questão, ele ficou desconcertado: em sua concepção de mundo, deixar a esposa em paz nesses momentos era a coisa certa a se fazer.

"'Talvez tenha algo a ver com o que me ensinaram quando eu era criança, sobre doentes.' Conte. Aprendi que bastava só... ficar por perto bem quieto. Aprendi que não se devia dizer nada, nem mostrar nenhuma simpatia nem nada. Tinha só que ficar bem quieto.' Ele pestanejou. Está errado?

Mas...você nunca pediu?

'Amanda, meu bem. Não dá pra pedir coisas que você nem imagina que existem. Não dá pra pedir o que você não conhece. Era esse o meu mundo. Era o que eu conhecia.'"

Com coragem (e com a generosidade de todos os citados na obra), Amanda humaniza a si mesma e aos seus, sem medo de demonstrar inseguranças pessoais ou sua hiper-confiança nas pessoas, usando a própria vida como exemplo de que a vida pode ser mais fácil se houver um esforço de comunicação entre as pessoas, sabendo aceitar o que elas têm a oferecer e poder oferecer algo em troca, de maneira a estreitar os laços e criar um vínculo de confiança e colaboração.

Se o título do livro remete à autoajuda, A Arte de Pedir passa longe disso: são as histórias de vida e carreira de Amanda que se são contadas sem pretensão literária, também não descamba para a fofoca ou para o (mau) diário; Amanda é madura e reflexiva e seu bom repertório cultural aliado à sua escrita honesta e sem firulas deixa a impressão de um grande bate-papo com uma cantora que é tudo, menos entediante. O destaque fica por conta dos trechos sobre a indústria musical, mídia, carreira e fãs, interessantes para o público interessado em geral, e provavelmente úteis para artistas iniciantes ou independentes. No lugar de capítulos, a divisão fica por conta de fotos e letras de música relacionadas aos temas e épocas tratados em cada seção e o resultado é uma leitura divertida e também inspiradora, que vale a pena ser lido por artistas e público em geral, homens e mulheres, fãs ou não da cantora.

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS:


VEJA TAMBÉM:

Mulheres brasileiras que arrebentam nos quadrinhos