OPINIÃO

Entre a Idade Média e a maior Parada do Orgulho LGBT do mundo

O Brasil não pode viver refém de uma moralidade da Idade Média ostentando uma Parada do Orgulho LGBT com essas dimensões.

21/06/2017 14:53 -03 | Atualizado 21/06/2017 14:56 -03
NurPhoto via Getty Images
Importante é constatar que se trata, sem dúvida alguma, da maior e mais diversa manifestação popular no Brasil. Nem em junho de 2013 houve uma concentração desse tamanho.

Todos os anos, a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo me impressiona. E por diversas razões.

Ela me impressiona pela enorme quantidade de pessoas reunidas, pelo fluxo ininterrupto de gente que vai escorrendo pelas principais vias até tomar todo o centro da cidade, pelo modo descontraído e divertido de reivindicar visibilidade e reconhecimento público, pela diversidade de todos os tipos de corpos que formam esse mosaico tão singular.

Neste ano, foram mais de 3 milhões de pessoas nas ruas. Mas, sinceramente, pouco importa o número exato. Importante é constatar que se trata, sem dúvida alguma, da maior e mais diversa manifestação popular no Brasil. Nem em junho de 2013 houve uma concentração desse tamanho.

Além disso, a parada paulistana não vem como um evento pontual ou um espasmo único, ela acontece todos os anos e já se consagrou como um marco no calendário político e cultural do País.

Alguns ainda reproduzem um olhar desinformado e um tanto preconceituoso afirmando que a parada não é um ato político, mas "só uma festa". Ainda que ela fosse "só uma festa", a verdade é que, quando se é LGBT, a mera existência já é um ato político. Celebrar o orgulho de uma existência constituída e marcada por violências tem ainda mais potencial subversivo e político.

Neste ano, os gritos e cartazes pedindo "Fora Temer" e "Diretas Já", ao lado do discurso da defesa do Estado laico e contra os fundamentalismos religiosos, tornaram a Parada ainda mais especial.

Mas, infelizmente, a parada parece ser muito mais a exceção do que a normalidade em um país no qual uma pessoa LGBT é assassinada a cada 25 horas.

É inaceitável que o Brasil não tenha ainda uma lei criminalizando a LGBTfobia e também não tenha sequer uma lei consagrando o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo (temos apenas uma decisão judicial). É inaceitável que o debate sobre gênero e sexualidade nas escolas ainda se dê em termos tão tacanhos e conservadores.

É preciso que esses mais de 3 milhões de pessoas se façam ouvir e ocupem, cada vez mais, os espaços de poder e de construção das políticas públicas. O Brasil não pode viver refém de uma moralidade da Idade Média ostentando uma Parada do Orgulho LGBT com essas dimensões.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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