OPINIÃO

A separação que mudou minha vida

10/01/2017 19:02 -02
Meriel Jane Waissman via Getty Images
Broken heart! A stylized vector cartoon reminiscent of a screen print poster, of a couple under a giant broken red heart. Symbolizing heartbreak, divorce, relationship difficulties or infidelity. Man, Woman, Heart and background are on different layers for easy editing. Please note: clipping paths have been used.

Por: Andrea Bartz

O fim de 2006 foi um dos períodos mais sombrios da minha vida, de várias maneiras. Estava morando com quase-desconhecidos em Nova York, longe de casa, em meu primeiro estágio, quando meu namorado de quatro anos - que eu tinha conhecido aos 16, num grupo da igreja - me ligou dizendo apressado e sem rodeios que tinha ficado com uma menina que conhecera num retiro católico e que a gente deveria "sair com outras pessoas".

Ainda lembro da minha reação visceral a essas palavras, sentada imóvel no meu quarto no Upper East Side: náusea preenchendo meu tronco inteiro. Pinceladas geladas no nariz, nas bochechas e no queixo. A certeza repentina de que as coisas seriam diferentes e piores para sempre.

Meses depois, a dor não tinha passado: eu estava bem, trabalhando na revista, e de repente pensava nele - não, naquilo: a traição, o soco no estômago. Não acreditava que alguém em quem confiava tão plenamente pudesse me magoar tanto assim.

Parece histriônico agora, mas me sentia solitária, longe dos meus melhores amigos, exausta de me comportar como se tudo estivesse bem e, como uma menina privilegiada de 20 e poucos anos, despreparada para essa grande decepção.

Porque íamos nos casar. Estava tudo resolvido: ele iria estudar medicina, depois de tirar uma nota incrível na prova para a qual eu tanto o ajudei a se preparar. Ele entraria na faculdade dos sonhos, graças à minha ajuda nas redações que ele mandou como parte do processo de inscrição.

Mudaríamos para Chicago, uma cidade a apenas 90 minutos de nossos pais - depois de incontáveis horas e noites e viagens juntos. A família dele parecia a minha, afinal de contas. Teríamos um belo casamento católico (eu era luterana, mas estava pronta para me converter) e um número pequeno e administrável de filhos. Estávamos falando disso desde que nos apaixonamos no ensino médio. Estava tudo certo.

E aí o futuro de desfez. Ele conseguiu o que queria, até onde eu sei: pesquisas no Google mostram que ele é médico no Meio-Oeste, casado com a mesma menina católica sobre a qual ele me contou aquele dia, com crianças correndo pela casa, suponho. Não sei disso de primeira mão porque não nos falamos há dez anos. Mas acho que estou feliz com o fato de a vida dele ter seguido adiante sem maiores percalços.

Lembro de outra noite de 2006, de menos impacto mas igualmente importante para mim. Foi uma noite estranhamente quente de novembro. Depois de um dia trabalhando na Times Square, andei até o Bryant Park.

Sentei numa das mesas verdes de metal e ouvi o barulho da cidade, os nova-iorquinos caminhando apressados, cheios de competência e propósito. E aí ouvi, claro como se tivessem sussurrado no meu ouvido: "Você pode fazer o que quiser".

Não tinha me ocorrido antes, o que parece quase risível e estranho agora, especialmente quando os dez anos anteriores foram tão cheios de ambição pessoal e conquistas criativas e grandes decisões que dependiam só da minha vontade. Mas isso era novidade.

Meu ex era controlador e às vezes manipulador, me acusando de ser uma namorada terrível e pouco confiável quando eu queria fazer alguma coisa diferente dele: viajar com amigos que ele não aprovava, fazer festa com minha irmã, procurar faculdades seculares, passar um verão estudando no exterior, longe das garras dele.

Eu tinha aceitado os planos dele para nós, me convencendo que os sonhos dele também eram os meus. E aí, de repente, um espaço em branco se abriu onde antes havia o futuro. Um vácuo. A separação foi como eu encarando a mim mesma e percebendo: "Oi. Você tem sonhos e ideias e talento e se valoriza. Vamos lá."

E por que não deveríamos comemorar esses espaços negativos (fins de relacionamentos, demissões, não conseguir o que você tanto queria) da mesma maneira como marcamos os espaços positivos?

Normalmente só comemoramos o que durou, mas, no meu caso - e em vários outros --, a separação foi o momento em que meu mundo se abriu. Penso nela todos os anos, quando começa o outono em Nova York.

E por que não deveríamos comemorar esses espaços negativos (fins de relacionamentos, demissões, não conseguir o que você tanto queria) da mesma maneira como marcamos os espaços positivos?

Os humanos tendem a ter uma relação emocional com o calendário, segundo o pesquisador John Sharp; quem pensa numa pessoa querida no aniversário da morte dela, por exemplo.

Para mim, o outono é quando sempre lembro do fim de 2006. Lembro da dor aguda, mas não consigo senti-la de novo; ela parece distante, um fato que sei que existiu mas que não tenho como verificar. Mas aquela sensação de perceber que posso fazer a porra que quiser com o resto da minha vida - aquela sensação de espaço e maravilhamento - nunca deixa de parecer nova.

Este ano marcou uma década da separação que mudou tudo, e só posso dizer: feliz aniversário para mim.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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