OPINIÃO

A coragem de ficar

01/10/2014 07:31 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02
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Há uns quatro meses, eu e o meu marido fomos passar uns dias na praia de Pipa, no Rio Grande do Norte. Um lugar deslumbrante, com paisagens de tirar o fôlego, desses destinos que despertam no fundo da alma aquela vontadezinha de largar tudo e ir morar lá. Conversando com a recepcionista do hotel em que estávamos hospedados, descobrimos que ela e o marido eram advogados e haviam feito exatamente isso. Deixaram para trás a vida estressante que tinham em São Paulo (ela trabalhava em um escritório e ele estudava para prestar concurso público) e foram residir neste paraíso.

Quando ouvimos este tipo de história, inevitavelmente, é despertado em nós um sentimento de admiração combinado com uma pontinha de inveja de quem tomou tal atitude. Mais tarde, no mesmo dia, ainda com esse sentimento pairando no ar, o Bernardo fez o seguinte comentário: "é muita coragem largar tudo e vir viver aqui". Apesar de não discordar da afirmação dele, comecei a refletir sobre o oposto: é também muita coragem ficar.

Não faço aqui nenhuma crítica a quem ouve a voz de um sonho e muda totalmente sua realidade, significando isso mudar de cidade, profissão ou abandonar qualquer condição pré-estabelecida e que aparentemente é imutável. Entretanto, é preciso também muita coragem para enfrentar os problemas do dia a dia a cada manhã, arregaçar as mangas, levantar a cabeça e seguir em frente.

É preciso mais coragem ainda para se encarar, para identificar, ouvir e compreender seus medos mais escondidos, suas vergonhas mais assustadoras e, sem ficar entorpecido por tais sentimentos, permanecer no combate... Continuar mesmo sabendo que somos imperfeitos, que nunca atingiremos a perfeição e nos amar por sermos desse jeito.

Mudar de cidade, de país, de faculdade, de emprego, de namorado, de grupo de amigos pode contribuir muito para sermos mais leves, mais livres e por que não mais felizes. Não há dúvidas que o ambiente a nossa volta nos afeta e influencia diretamente nosso grau de felicidade. Além disso, mudanças dessa natureza, inquestionavelmente, podem ser os gatilhos que tanto precisamos para iniciar um caminho de descoberta de nós mesmos.

Quando olho para trás, vejo que ter ido morar fora do país, mudar da minha cidade natal após a faculdade, mudar por duas vezes o rumo da minha carreira foi de extrema importância para meu amadurecimento e para que eu compreendesse melhor meus desejos e anseios. Foram tais mudanças que me deram fôlego para continuar a caminhada, que abriram meus olhos para novas possibilidades e renovaram minhas forças e esperanças.

Contudo, de nada adianta mudar aquilo que nos incomoda no exterior sem remexer verdadeiramente nos nossos entulhos e caminhos internos. É preciso compreender e, principalmente, se apropriar dos nossos desejos, dos nossos medos e dúvidas.

Por um tempo, pode até parecer que a situação foi resolvida com a mudança ambiental e aquilo que nos incomodava pode ser abafado momentaneamente... Todavia quando menos esperarmos, quando algo começar a nos atormentar - pois seja em Pipa, em Nova Iorque ou na Austrália, seja no emprego dos nossos sonhos, seja com o amor da nossa vida haverá problemas e desconfortos - esses temas voltam a nos causar chateação. Algumas vezes voltam de forma menos sútil que anteriormente, nos forçando a parar e a entender que o problema inicial talvez nem fosse aquele chefe chato ou a cidade onde morávamos. Pode ser que "a nossa pedrinha no sapato" tivesse muito mais a ver com nossas arquiteturas internas e nossa maneira de lidar com as situações do que poderíamos imaginar.

Que possamos sempre ter a coragem de seguir em frente e principalmente a coragem de ser feliz, seja morando em São Paulo, em Pipa ou no Japão.

Texto originalmente publicado no blog Céu de Nuances

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