OPINIÃO

A fala superficial que diz muito sobre quem você realmente é

12/01/2017 13:58 -02 | Atualizado 12/01/2017 13:58 -02
Malte Mueller via Getty Images

Que as redes sociais fazem parte da vida e linguagem atual do mundo, isso é um fato e sinto muito quem não gosta. E ao que tudo indica esta linguagem que é cheia de fotos da rotina de vida (do picolé na padaria até aquela viagem para Europa), cheia de auto fotos/selfies (para se ver na rede, na fala e no olhar dos outros), com mensagens de auto ajuda, pensamentos do dia, opiniões políticas, religiosas, sociais e culturais (independente se é algo realmente pensado ou não), veio para ficar, ou seja, não há indícios que seja passageira ou seja uma moda ou uma fase. O mundo agora se relaciona por suas redes digitais e muitas pessoas aproveitam esse canal para expor aquilo que até elas desconhecem sobre si mesmo, talvez nem desconfiem e isso não significa necessariamente um problema, significa que é apenas uma fato.

Não podemos, me arrisco a complementar em hipótese alguma, desconsiderar os poréns desta nova linguagem. O mundo vem falando, seja por vídeos, fotos ou escritas aquilo que lhe veem a cabeça e provavelmente não da forma que acredita, mas sim da forma que desejam. Sim, é uma exposição de desejos, que não surgiram por conta das redes sociais, mas já existiam no ser humano. Somos é uma máquina de desejos, vivendo sentindo e produzindo desejos desde o nascimento, talvez a diferença é que muitos ou quase todos eram contidos para si e de si mesmos e tínhamos que arrumar outras formas de nos realizarmos até certo tempo atrás e hoje em dia com as redes sociais esses mesmos desejos são revelados, mesmo que camuflados para todos, diria até que um convite ao deleite.

E aquilo que desperta desejos e encantamento por uns, também gera repulsas e incômodos em outros, mas no fim o que importa é que a função por si só é atendida, isto é, os desejos expostos geram sentimentos e reações no outro e esperamos (mesmo inconscientemente), diria até que buscamos isso na vida, o outro reagindo a nosso desejo e vontade. Pois é, buscamos o olhar e a fala do outro para nos percebermos através dele, é nesta imagem gerada que somente então temos a chance de nos percebermos um dia em nós mesmos.

Logo, essa história de que pouco me importa a opinião do outro sobre mim, não é bem assim! Na verdade sem ela nem existiríamos, pois não teríamos uma base de estrutura emocional e de pensamentos. E isso sempre aconteceu na vida do ser humano, sempre existimos através de uma rede social, que se inicia com a mãe, com pai, irmãos e vai se ampliando para parentes, amigos, colegas, escolas, trabalhos... Um bebê só pode ser considerado um bebê porque uma mãe ou alguém que faça tal função o olha assim e o trata assim. Ele só é bonito, querido, fofo, gracinha ou mesmo irritante, terrível, levado, porque alguém o nomeia assim, alguém de fora dita que aquela imagem, jeito, som e momento e isso gera um retorno na estrutura existencial que alimenta aquele ser desde sempre de possibilidades sobre seu existir. Assim precisamos constantemente do outro para que nossa imagem seja refletida ou interpretada por ele e assim eu possa sentir que existo. Pensando por esse caminho, não fica tão difícil entender o porque das redes sociais serem a nova linguagem do mundo.

Claro que crescemos e aprendemos ou deveríamos, em algum momento da vida, a enxergar com os próprios olhos, isto é, ter opiniões, discordar ou complementar as visões que até então eram dos outros sobre nós e para nós. E então ouvimos a tal história de amor próprio, gostar de si mesmo, não importa o que dizem e pensam sobre mim, sou mais eu. Mas a verdade é que só posso ser eu e mais eu ou até menos eu, se alguém em algum lugar falar e ver algo sobre isso, seja concordando ou discordando, caso contrario seria nada mais que eu mesma e minhas próprias fantasias.

As selfies são um belo exemplo disso, auto fotos para se enxergar, se admirar ou se questionar que são expostas nas redes, muitas com o título do eu me amo , sou mais eu ou só Deus pode me julgar, mas na verdade carrega consigo um grande pedido de criança:

- Alguém pode julgar? Isto é alguém pode olhar pra mim e dizer o que sou, que existo e que sou legal ou bonito?

Talvez seja esse o ponto que tanto chama a atenção das redes sociais, por usuários admiradores e mesmo por críticos que podem até não postar, mas assistem e assim participam de alguma forma desta oportunidade compartilhada dos desejos mais íntimos de existência, mesmo que criticando e questionando se realizam em seus desejos internos também.

O fato é que a linguagem virtual das redes sociais, apesar de ser usada tão superficialmente nos diz muito sobre nossas profundezas, mas o que fazemos e como lidamos com isso aí já é um outro ponto.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

LEIA MAIS:

- A cegueira afetiva dos pais gera filhos abandonados

- Marina e Maria: As mulheres que foram assassinadas pela conivência social

Também no HuffPost Brasil:

11 livros infantis sobre gênero e orientação sexual