OPINIÃO

Ser anti-PT é legítimo? Sim.

29/12/2015 15:28 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

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"Me diz uma coisa: 'ser' anti-DEM, anti-tucano, anti-PMDB é democrático, mas 'ser' anti-PT é fascismo? Quero mesmo saber. O PT já foi santificado, algo acima de qualquer suspeita, e falo por mim, tá? Hoje em dia se profanou, é apenas mais um partido no jogo do poder.

'Ser' anti-PT é tão legítimo e democrático quanto 'ser' anti-PSDB (para ficar na polarização predileta). Claro que ao falar isso, que é legítimo 'ser' anti-PT, não quero justificar atos de violência - alguns, aliás, já praticados pelos próprios petistas em relação aos seus 'anti'."

Marcelo Castañeda

Ser "anti" um partido é normal em qualquer lugar do mundo.

Na Espanha é comum eleitores fiéis do PP serem anti-PSOE, assim como qualquer eleitor fiel de esquerda ser anti-PP. Muitos hoje são anti-Podemos e no País Basco PP e PSOE são abertamente anti-EH Bildu, o partido de esquerda nacionalista.

Ser "anti" é posição legítima.

No Brasil a militância petista sempre foi aberta e orgulhosamente anti-PSDB (ao menos antes de chegar ao poder, depois passou a ser mais discurso que prática).

Ser "anti" qualquer partido sempre foi um posicionamento ideológico absolutamente aceitável.

Indica que a ideologia do outro não é compatível com a sua, que uma aliança ou aproximação com este outro é impossível, ou ao menos muito difícil. É um "statement", um posicionamento político.

No Brasil, porém, cada vez mais hostes (ou hordas?) petistas têm se insurgido contra o que chamam de "anti-PT" ou "antipetismo" (isso partindo do princípio que "petismo" seja uma ideologia, e não é), que basicamente serve para, no discurso da militância petista, definir a linha entre "esquerda" - nós - e "fascismo" - tudo e todos que não concordam conosco.

Não vou entrar no debate sobre fascismo porque seria perda de tempo, mas deixo aqui uma entrevista que trata da questão do "fascismo" e o crescimento - ou readequação - da direita nos últimos tempos.

Voltando ao tema principal, o "petismo" acabou por traçar linhas onde quem não os apoia se tornaria imediatamente "anti-PT" ou "anti-petista" e isso automaticamente transformaria os críticos em fascistas.

Além de não fazer qualquer sentido, não passa de um espantalho. É uma forma torpe ou mesmo burra de tentar criminalizar qualquer tipo de oposição ao partido, tido como único caminho para a salvação.

Esse discurso, aliado a outros como "cuidado com o Golpe", "cuidado com a direita", "com Aécio seria pior" e etc formam o corpo do que o petismo se transformou: uma casca vazia sustentada por jargões e frases soltas de efeito para despistar. Não resta nada de ideológico dentro do PT - ao menos nada digno de nota ou capaz de realizar a tão falada "guinada à esquerda" que já se tornou mais folclórico que o Saci ou a Cuca.

Não faltam exemplos de debates - ou tentativas de debates - em que o "argumento" final usado pelos petitas diante de críticas que não são capazes de rebater (ou desmentir) é "nossa, você é anti-petista" ou "cuidado com esse seu antipetismo".

Sinto muito, mas isso não é argumento. É apenas uma denúncia da total incapacidade argumentativa e mesmo intelectual da militância petista.

Detestar um partido é legítimo, ser "anti" um partido é legítimo. Claro que este sentimento pode se encaixar no tão falado "fascismo", mas não sempre - talvez nem na maioria das vezes.

O PT está no poder há 13 anos, mas ainda é incapaz de lidar de forma democrática com qualquer oposição, seja à direita, seja à esquerda. Chama a todos de "anti-PT", o equivalente na novilingua petista, de "fascistas". Não é capaz de travar um debate com argumentos.

Se perguntamos sobre as alianças com Kassab, Kátia Abreu, Pezão, Renan Calheiros e etc nos respondem que somos "puristas" e que apenas reclamamos por sermos "anti-PT".

Se questionamos o apoio do PT às UPPs assassinas no Rio ou à ocupação militar na Maré, respondem que as críticas são "anti-PT".

Por que não temos Reforma Agrária? Por que o ecocídio do qual Belo Monte faz parte continua à toda? Estamos fazendo o jogo da direita ao questionar, logo, somos "anti-PT".

E a história se repete eternamente.

Gritar "você é "Anti-PT/antipetismo" se tornou uma espécie de reductio ad hitlerum da militância petista.

É obvio que se pode denunciar o vazio que existe muitas vezes no discurso anti-PT, assim como sabemos que há fascistas que nutrem o mesmo sentimento contra o PT.

Mas reconhecer isto não significa reduzir absolutamente toda crítica ou mesmo o sentimento anti-PT enquanto sustentado por uma ideologia legítima ao fascismo de alguns.

O único ponto válido do petismo na questão é apontar que, em geral, a ideia de ser "anti" algum partido está mais ligada à países bipartidários como EUA, Inglaterra ou a Espanha (que o era até as últimas eleições), porém, ainda assim, tentar deslegitimar a crítica com o "reductio ad você é anti-petista" ou mesmo o próprio sentimento anti-PT -- como se fosse um (des)qualificador natural -- é simplesmente estúpido.

E ajuda, inclusive, a entender por que o PT chegou no fundo do poço atual tendo apenas palavras de efeito para se "defender".

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