OPINIÃO

Jean Wyllys é criticado pela esquerda democrática por sua visita a Israel

11/01/2016 21:31 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

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Uma reportagem do HuffPost Brasil informou, no dia 8 de janeiro, que as críticas da esquerda e dos defensores do povo palestino ao deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) seriam "reacionárias".

A opinião expressa do repórter no título da matéria, porém, acabou não ficando mais clara ao longo do texto, que reproduz comentários do Facebook de diversas fontes.

Por que se opor à visita de um deputado conhecido por sua defesa dos direitos humanos a um Estado que constantemente viola os direitos humanos da população palestina, torturando e matando crianças, aprisionando ilegalmente milhares de palestinos, construindo assentamentos ilegais (e um muro) em território ocupado, seria "reacionário"?

O repórter escreveu ao fim de sua reportagem com opinião:

"Wyllys promete seguir publicando boletins diários de sua viagem a Israel. E é bem possível que o ódio que ele combate siga se voltando contra ele na sessão de comentários."

Fiquei na dúvida se questionar um deputado passou a ser ódio apenas hoje ou se é uma regra antiga. Ou se questionar Israel e seus métodos é que seria inaceitável.

Ou mesmo se questionar a visita de um deputado a Israel, a uma universidade construída parcialmente em território ocupado (o que é ilegal), em território palestino roubado pela força das armas, é que passa dos limites e torna-se "reacionário".

Enfim, apenas o repórter pode responder a estas questões.

A grosseria da "Ascom"

Em relação à visita em si, o deputado Jean Wyllys foi de fato bombardeado de questionamentos. E, em geral, os ignorou ou, quando os respondeu, o fez de maneira vergonhosa.

Em uma de suas postagens, na qual critica o BDS (Boycott, Divestment and Sanctions ou Boicote, Desinvestimento e Sanções), o deputado -- ou sua assessoria -- chegou a censurar diversos comentários críticos. Em um dos casos a censura foi questionada pela autora do comentário, Mariana Parra, no Twitter, o que resultou no seu banimento da página do deputado e em uma série de xingamentos e ofensas por parte da assessoria (Ascom).

A atitude grosseira da assessoria do deputado já vinha sendo criticada há tempos por diversos ativistas. Este foi apenas mais um caso que demonstra um padrão.

O professor Reginaldo Nasser, conhecido especialista em Oriente Médio prestou solidariedade à Mariana, sua ex-aluna, e criticou o deputado.

Um dos pontos em que o deputado Jean Wyllys foi mais criticado foi por sua insistência em adotar o discurso israelense de que criticar o sionismo -- ideologia que fundamenta assentamentos ilegais e violência contra palestinos -- seria o mesmo que antissemitismo.

Notas e mais notas de repúdio

O judeu socialista e ativista antissionista Waldo Memerstein, em resposta a tais declarações, escreveu uma carta ao deputado no Facebook:

"[...]não é verdade que o movimento de solidariedade aos palestinos se baseie no antissemitismo. A cartada do antissemitismo é uma das maiores mentiras divulgadas pelo movimento sionista. É bom saber que os sionistas nada fizeram para lutar contra o antissemitismo quando ele era importante. Em vez de se unirem aos movimentos sociais para lutar contra o antissemitismo preferiram aderir à ideia de colonizar a Palestina e negociar com todos os poderes opressores, os podres poderes de então, a começar pelo Czar de toda a Rússia, onde viviam 80% dos judeus à época (início do século XX). Há uma mais uma mancha na história dos sionistas que é o acordo de transferência de bens e pessoas para a Palestina, feito com Hitler em 1933, no momento em que a esquerda no continente tentava organizar um boicote à Alemanha. Digo isso porque como descendente de uma família que se perdeu nos campos de concentração e nas câmaras de gás me repugna a utilização falsa desse fato monstruoso. Prefiro a inteireza moral de muitos sobreviventes que sempre disseram que justamente por terem sofrido e presenciado o horror não podem ser cúmplices em uma política racista."

O diplomata Paulo Sérgio Pinheiro, figura de destaque na defesa dos direitos humanos reconhecido internacionalmente postou um vídeo e escreveu uma carta ao deputado. Outras notas criticando o deputado, sua posição e mesmo sua visita a Israel foram publicadas pela ativista Soraya Misleh:

"Você está certo em dizer que não se pode confundir sionismo e judaísmo. Infelizmente quem promove historicamente essa confusão é Israel. No mais, sua explicação sobre o surgimento do sionismo - e pior, sua defesa - demonstra completo desconhecimento da história. O sionismo é, desde sempre, um projeto colonialista e se consolida sobre a limpeza étnica do povo palestino."

Houve críticas pela Frente em Defesa do Povo Palestino, que lembrou ao deputado que a universidade visitada por ele encontra-se construída ilegalmente em território palestino:

"As instituições acadêmicas de Israel têm histórico de cumplicidade com a colonização e ocupação de terras palestinas. A Universidade Hebraica de Jerusalém não só não é exceção, como tem campus construído em área da qual palestinos foram expulsos em 1968 - franca violação à IV Convenção de Genebra."

Pelo blog Convergência, ligado ao PSTU, que reproduziu a carta de Waldo Memerstein e pelo ex-deputado e membro do PSOL, Babá:

Sobre a visita de Jean Wyllys a Israel 500 crianças, 11 mil feridos, 100 mil "deslocados", mais de 2200 mortos! A...

Publicado por Babá em Sexta, 8 de janeiro de 2016


Em nota, a FFIPP Brasil, braço da organização de mesmo nome que atua na Palestina e impulsiona a campanha pelo BDS, respondeu às críticas feitas pelo deputado, que se encontrou em Israel com representantes desta organização:

"A FFIPP-Brasil, por fim, refuta qualquer tentativa e possibilidade de associá-la com discurso de ódio, seja esse de cunho antissemita, islamofóbico, LGBTfóbico e similares. Nosso histórico de atuação, pautado pela diversidade e pelo respeito aos direitos humanos, fala por si."

O ex-deputado e dirigente do PSOL Milton Temer também criticou a postura de Jean Wyllys.

O deputado Jean Wyllys, em outra postagem, respondeu a algumas críticas, notadamente as feitas por Temer e por Paulo Sergio Pinheiro. Em ambos os casos, com desqualificações e comentários que beiram o risível, destaco:

"Um texto de Paulo Sérgio Pinheiro tecendo considerações sobre minha vinda a Israel que são quase um ataque pessoal e gratuito."

"Sendo assim, então a que interesses corresponde esse ataque de Paulo Sérgio Pinheiro? Quais forças o movem? É algo a se investigar."

"Fico lisonjeado, mas não deixo de lamentar que um intelectual da envergadura de Paulo Sérgio Pinheiro suje sua biografia com texto tão constrangedor (este adjetivo agora cabe de fato!) porque eivado de má fé, desonestidade intelectual e inveja."

"Embora eu sempre tenha defendido Milton Temer das acusações de antissemitismo (não porque eu não ache horrorosas algumas de suas expressões a respeito, mas por acreditar que fossem por ignorância e não por maldade), ele preferiu julgar precipitadamente minha viagem, exortando uma horda de homofóbicos de "esquerda" a me insultar, do que me enviar uma mensagem me pedindo informações sobre os objetivos e o programa da visita."

"Se a minha posição sobre o conflito israelense-palestino sempre foi equilibrada[...] É homofobia? É antissemitismo? Tem alguma outra coisa que não sabemos?"

O deputado Jean Wyllys seguiu em uma série de postagens atacando de forma vergonhosa o diplomata, acusando-o de ser um "mentiroso e hipócrita tucano" e o questionando, em outra postagem, por não ter dito nada contra Eduardo Cunha quando este viajou a Israel.

Não posso falar pelo diplomata, mas me parece óbvio que não faria diferença criticar um desqualificado em visita a Israel, mas esperava-se fazer diferença criticar um deputado ligado à questão dos direitos humanos e supostamente capaz de manter um diálogo racional.

O professor doutor James Green pergunta ao mentiroso e hipócrita tucano Paulo Sérgio Pinheiro (afinal, ninguém nunca viu...

Publicado por Jean Wyllys em Sábado, 9 de janeiro de 2016


O professor Reginaldo Nasser reagiu ao vídeo:

"[Q]ue vergonha deputado. Usar terceiros, subverter a mensagem, atacar para não ser criticado. Isso é hasbara? Todo mundo sabe que o prof Paulo Sérgio Pinheiro sempre foi e é independente em suas opiniões. Basta dar uma rápida olhada nos posts aqui no face para ver o quanto está afastado das posições tucanas. Ainda que fosse, não vamos desviar do caso em questão. Agora sim, deputado. Depois dessa viagem podemos dizer que vc está no mesmo nível que a grande maioria de seus colegas no Congresso. Não é mais intócavel no campo da esquerda. Já o mestre Paulo Sérgio Pinheiro continua onde sempre esteve na luta pelos direitos humanos independentemente de eventuais posições partidárias."

Outras personalidades ligadas à comunidade árabe e também aos direitos humanos se manifestaram, como o secretário geral da Federação Árabe Palestina, Emir Mourad, e a ativista Cecilia Olliveira:

Essa visita do Jean Wyllys à Israel e como ele e sua equipe lidam com as críticas online são um caso maravilhoso de mau...

Publicado por Cecília Olliveira em Sexta, 8 de janeiro de 2016


A revista The Intercept* fez, em inglês, um apanhado com as cartas de repúdio e comentários de diversas lideranças e ativistas pró-Palestina, além de terem se dedicado a desmontar uma por uma as alegações feitas pelo deputado para sustentar suas posições sobre Pinkwashing, antissionismo e antissemitismo.

Quem financiou a viagem?

Por sua vez, a FIERJ, Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro, lançou nota demonstrando seu contentamento com a viagem do deputado a Israel, mas levantou suspeitas sobre o financiamento de dita viagem.

O deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ) está em Israel, onde realizou dia 6 de janeiro uma palestra na Universidade...

Publicado por Fierj Federação Israelita em Quinta, 7 de janeiro de 2016

Na nota, a FIERJ afirma que a viagem foi paga por membros da "Comunidade Judaica do Rio de Janeiro", mas a organização diz não ter tomado parte no financiamento.

Antissionismo não é antissemitismo

A esquerda brasileira, bem como a esquerda mundial, tem uma posição majoritariamente de apoio à causa palestina e à sua luta contra a ocupação e as graves violações de direitos humanos que os palestinos sofrem diariamente nas mãos do exército israelense e de colonos.

Israel sistematicamente desrespeita não apenas leis e convenções internacionais, como também se nega a cumprir acordos e se retirar dos territórios que ocupa, além de ter sido acusada por genocídio pelas suas duas últimas ofensivas à Gaza - inclusive com uso de armas proibidas, como fósforo branco.

Desde a fundação de Israel, famílias inteiras de palestinos são aterrorizadas e expulsas de suas terras sem direito a retornar. São milhões de palestinos há mais de 50 anos sem poder retornar às suas casas e terras tomadas à força.

A crítica ao sionismo, entendido como uma ideologia racista e supremacista, não se confunde e nem poderia se confundir com o antissemitismo, também uma ideologia racista e impregnada de ódio.

Não faltam judeus antissionistas, aliados dos palestinos na sua luta por terra e dignidade. A luta contra a violência e a repressão israelense não é uma luta contra judeus - nem mesmo contra Israel em si -, mas sim uma luta para que os crimes cometidos pelo Estado e por muitos de seus cidadãos sejam reconhecidos e punidos. Para que os palestinos tenham seu Estado, possam retomar suas terras e viver com dignidade e dentro dos padrões mínimos de direitos humanos.

As posições do deputado Jean Wyllys em relação a Israel, e sua negativa em sequer dialogar as discordâncias da ampla maioria da esquerda (de seu próprio partido e de uma quantidade incontável de ativistas dos direitos humanos ), surpreenderam a todos que acompanham sua luta no Brasil.

Não seria exagero afirmar que que ficamos pasmos, decepcionados e chocados com tais atitudes e esperamos ainda que o deputado seja capaz de, pelo menos, escutar e dialogar com quem, como ele, tem dedicado a vida à defesa dos direitos humanos, dos direitos dos palestinos e de outros povos oprimidos pelo mundo.

*O texto da revista The Intercept foi traduzido para o português.

*O vídeo, assim como o texto crítico ao deputado Jean Wyllys publicados pelo diplomata Paulo Sérgio Pinheiro encontram-se offline.

*O setor de comunicação da FFIPP-Brasil entrou em contato por e-mail com o autor esclarecendo que: '[...]como previamente exposto em nosso posicionamento oficial, a FFIPP se dedica a levar estudantes brasileiros para participarem de vivências e estagiarem em organizações nos Territórios Ocupados Palestinos e em Israel - não somos uma organização que integre ou impulsione, na condição de organização, o BDS.

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