OPINIÃO

Golpe? PT e PMDB nunca romperam o casamento

Os dois partidos estão juntos na defesa de grandes empresas e contra qualquer operação policial que possa prejudicar quem os financia.

31/03/2017 12:38 -03 | Atualizado 31/03/2017 17:26 -03
Jamil Bittar / Reuters
Lula e Renan sempre mantiveram a aliança, a despeito de aparente cisão entre PT e PMDB.

Muita gente se perguntou (eu inclusive) onde estava a CUT durante a votação da lei das terceirizações.

Mas depois de ler a postagem do Emiliano Augusto  —  entre outros  —,  comecei a pensar que talvez o buraco fosse mais embaixo...

SE EU VIR MAIS ALGUÉM FALANDO QUE A APROVAÇÃO DO PL DA TERCEIRIZAÇÃO É CULPA DOS COXINHAS, EU VOU COLAR ESSE VÍDEO NOS COMENTÁRIOS XINGANDO DE PELEGO TRAIDOR PRA BAIXO

Tá vendo o "muda mais" ali no canto do vídeo? Significa que é vídeo da campanha da Dilma. Significa que a aprovação da terceirização era promessa de campanha de Dilma.

Significa que quem fez panelaço, fez dancinha do impeachment, foi pra rua e ajudou a derrubar a presidenta NA PRÁTICA participou do esforço para que esse ataque demorasse mais de passar, e não menos.

E quem está aí reclamando da galera de camisa da CBF é que é de fato a pelegada que, ao esconder que o PT trabalhou e militou por esse projeto, ao fazer vista grossa aos milhares de ataques que o governo desferiu, é quem são os idiotas que estão pagando o preço da própria inércia!

É preciso não participar do trabalho de esquecimento produzido pelo PT! É preciso fazer força pra lembrar que o PT é a favor de tudo que o governo Temer fez até agora! Eles eram a mesma chapa! Esses ataques eram promessas de campanha para os empresários!

O PT É INIMIGO, E SE VOLTAR PRO PODER VAI FODER A GENTE DE NOVO!

A escolha aqui é clara: ou se luta contra a reforma da previdência, a reforma trabalhista, a lei de terceirização, ou se luta para reabilitar a imagem de quem é a favor de tudo isso mas precisa aparecer como defensor do trabalhador para ganhar mais votos em 2018. As duas coisas não dá!

Num mundo ideal terceirização faria algum sentido. Num mundo ideal. E ainda assim nunca em funções fundamentais da empresa. Mas o mundo não é ideal, aliás, estamos falando do Brasil, quem nem pode ser chamado de sério.

E a Dilma Braveheart defendeu sim a terceirização. Defendeu negociar como foi negociado (sic) o Código Florestal, que basicamente foi um crime bancado pelo lixo do PSeudoB contra os interesses de todos — menos dos ruralistas.

Essa é a noção de "negociação" de Dilma, de quem dá murro na mesa gritando que "*coloque aqui qualquer absurdo criminoso* vai sair".

Mas voltando ao ponto central, não é crível a explicação (mesmo que em tom meio piadístico) de que a grana ou o ânimo da CUT tenham acabado depois da "inauguração" que o Lula fez da transposição do São Francisco. O imposto sindical garante verbas fartas.

Além do que, falta de dinheiro, mesmo que real, não justificaria uma resposta tão tímida de lideranças petistas. Onde estavam os alertas, as campanhas, as mobilizações? Convocaram "greve geral" mais adiante, pós-fato, é verdade, mas mesmo sua divulgação é, no mínimo, tímida.

As centrais têm interesse em lucrar mais do que em defender os trabalhadores e já estão afinando em troca de retorno de contribuições. Existe a possibilidade das terceirizações ampliarem a base de filiados, o que agrada à CUT e demais centrais; o que importa é apenas dinheiro e poder.

Alguns contatos ventilaram uma teoria que me parece mais factível: a CUT não tem interesse em se envolver no debate simplesmente porque o PT, quem manda de fato na central, não é de fato contrário à terceirização (ou à reforma da Previdência).

Aliás, como já ilustrado acima, Dilma pode até tuitar uma mensagem meia boca pagando de revoltada, mas na prática não considerava terceirização como precarização  —  e ela não falava de um mundo ideal, mas desse Brasil assustadoramente desigual.

A tese é simples: Temer calmamente prepara o terreno com suas reformas absolutamente prejudiciais à população e logo Lula retorna como messias, como o salvador que irá nos resgatar das trevas criadas por Temer  —  mas aliado ao próprio PMDB. Retomarei esse ponto.

A questão é que, assim como no primeiro governo Lula, o que FHC tinha feito de terrível não foi revisto. Nada. Privatizações foram mantidas (e ampliadas), dívida nunca foi auditada (Dilma chegou a vetar lei sobre o tema), a criticada reeleição (comprada por FHC) foi instrumento usado com alegria etc...

Aquilo que o PT criticava em FHC I e II não foi só mantido como ampliado.

Ou seja, o PT voltaria a se beneficiar da terra atrasada deixada pelo antecessor para amplificar sua mensagem de mudança  —  sem mudar nada.

Mas, claro, contentando o mercado, os financiadores de campanha, os grandes empresários.

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"Mas e o PMDB nessa história?", perguntariam.

Oras, o PT já corre atrás de Paes, Picciani e do PMDB do Rio para que apoiem Lula em 2018. Na verdade Picciani foi eleito na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) com votos petistas não tem muitos dias.

O PT segue dando apoio estratégico ao PMDB onde pode e sempre que pode.

O tal GOLPE propagandeado em especial pela militância mais fanatizada e por inocentes úteis não se reflete nas relações políticas em Brasília e nos estados.

Sim, PT e PMDB ensaiam reatar o casamento — isto é, se é que em algum momento efetivamente brigaram e não foi só jogo pra plateia.

Odebrecht confessou que:

 —  Comprou 5 partidos para Dilma-Temer

 —  Disponibilizou 150 milhões para a chapa

 —  Dirigiu o caixa da campanha Dilma-Temer

 —  Lula pediu 50 milhões para ele já em 2010, em troca de uma MP.

 —  80% da campanha Dilma-Temer foi em caixa 2.

 —  Dilma tinha conhecimento de cada um desses itens.

(via Samuel Braun)

Até aqui a história é muito factível, mas podemos mesmo ir adiante e aventar que toda a história do GOLPE não passou de um cálculo para visar a neutralizar a Operação Lava Jato e garantir um governo tão impopular que não só não se importaria em fazer os "ajustes necessários", como facilitaria o retorno e a renovação da mesma chapa PT/PMDB por mais anos e anos.

Claro, neutralizar a Lava Jato não é trabalho fácil. O apoio popular é imenso, e Sérgio Moro, pese os erros vários, não parece estar disposto a recuar  —  o que complica o casal PT/PMDB, mas nem de longe impede seus planos.

Há uns 400, entre os meus 5.000 amigos de FB, que são testemunhas de que uns três dias atrás, publiquei em um grupo fechado uma reflexão que consistia mais ou menos no seguinte: 'uai, essa oposição das centrais sindicais à terceirização está meio mequetrefe; fui ao site da CUT e só há um texto falando de "golpistas" e não muito mais. A chamada para a manifestação de 31/03 é quase tímida. Tenho a sensação de que a terceirização também traz vantagens pra eles".

Hoje, a Folha traz reportagem mostrando que as centrais sindicais, Força Sindical à frente, já negociaram com Temer uma oposição "moderada" à terceirização em troca de apoio na garantia do imposto sindical. A CUT não aparece na matéria, mas a CTB, central do PCdoB, aparece. Sabemos como.funciona a coisa.

Nada ilustra melhor o divórcio entre redes sociais e mundo real. Não há dúvidas que a terceirização é uma merda, mas no meu FB eu li "coisificação do ser humano" e "volta da escravidão". No mundo real, as centrais sindicais estão compactuando com a terceirização em troca da manutenção da contribuição sindical obrigatória.

O governo Temer está fazendo umas reformas de merda. No entanto, tem uma galera que finge que é contra, mas que acha bom elas passarem, para evitar que São Sebastião tenha que fazê-las em 2019.

Se você ainda quer pensar de forma independente, olho nessa galera.

(via Idelber Avelar)

Não é preciso muito esforço para ver que a Lava Jato incomoda tanto o PT quanto o PMDB. Se filtrarmos os tons mais fanáticos da seita necrogovernista veremos que os argumentos não são tão diferentes dos usados pelo PMDB contra a operação. Os dois lados estão juntos até mesmo na defesa de grandes empresas e contra qualquer tipo de operação policial que possa prejudicar quem lhes financia campanhas.

É fato que os grandes líderes do PT não compram o papo de GOLPE. Já teve aviso pra baixar o tom; afinal, eleição se aproxima... É bom para todos que aos poucos a relação PT/PMDB volte ao normal.

Tirando um ou outro, como LindBleargh, os graúdos do PT já falam de forma dócil com o PMDB  —  ainda deve ser necessário manter a farsa para a militância aplaudir e seguir.

Temer, nessa história, não passaria de um boi de piranha. Um intermediário que pode saber ou não de seu papel de apenas administrar a situação e que logo será recompensado por seus serviços. Um governo impopular, ilegítimo (pese não ter existido golpe, o impeachment careceu de legitimidade), tampão, logo, ideal para impor reformas impopulares  —  não tem nada a perder.

Enfim, trata-se de uma teoria. Só saberemos se realmente é válida em sua totalidade ou mesmo parcialmente no ano que vem quando as chapas para as eleições começarem a ser montadas. Até lá resta observar e esperar  —  e, como colocou o professor Pablo Ortellado, se afastar ao máximo do PT — buscando formar uma alternativa, o que muitos de nós já repetimos desde pelo menos 2013.

O maior desafio do pós-lulismo é enterrar e fazer o luto do PT, porque o PT é uma espécie de força política com enorme capacidade de renascer e de se recolocar na sociedade civil. Isso tem a ver com o fato de ele ter no seu DNA a mobilização social.[...] O principal desafio da esquerda pós-lulista é se livrar do PT para poder ir além do PT. O PT obteve conquistas que são meritórias e que trouxeram bem-estar para a população, mas também mostrou limites muito claros, aos quais ficaremos presos enquanto não conseguirmos nos organizar fora do Partido dos Trabalhadores.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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