OPINIÃO

Como brasileiros que vivem na Catalunha enxergam o referendo pela independência

A opinião de brasileiros e catalães, é de que a Espanha escolheu o pior caminho possível, deixando o governo catalão de mãos atadas.

02/10/2017 15:58 -03 | Atualizado 03/10/2017 10:28 -03
Raphael Tsavkko Garcia
Centenas de tratores tomaram a cidade de Barcelona e outras menores por toda Catalunha, desfilando por ruas e estradas.

O referendo pela independência da Catalunha aconteceu domingo, 1 de outubro, apesar das ameaças do governo espanhol. Antes do referendo, porém, fui atrás da opinião de brasileiros que vivem na Catalunha para saber o que pensavam do processo.

Associações de bairros, coletivos sociais e políticos se organizaram de forma autônoma para informar a população sobre os locais de votação, assim como ocuparam escolas para mantê-las abertas até o dia da votação, buscando impedir que a polícia lacre os locais.

Pais e alunos passaram a noite em dezenas de escolas em toda Barcelona e em outras cidades da Catalunha promovendo uma série de atividades noturnas e rechaçando qualquer tentativa de impedir a realização do referendo.

Pelas ruas de Barcelona, porém, imperou a normalidade. Apesar dos barcos cheios de agentes da Polícia Nacional e Guarda Civil trazidos de diversas regiões da Espanha e atracados no porto de Barcelona, a cidade seguiu tranquila com comércios abertos, turistas lotando as ruas e bares sempre cheios. A violência vista durante a votação foi localizada, a maioria dos colégios funcionou sem problemas e milhões votaram.

Isso não significa, porém, que não exista um sentimento de revolta crescente entre parte considerável dos catalães – mesmo aqueles que votariam (ou votaram) contra a independência.

Raphael Tsavkko Garcia

As ações do governo espanhol para impedir o que consideram um exercício democrático não caíram bem entre a maioria dos catalães, como diversas pesquisas de opinião têm apontado. E não apenas catalães têm se sentido incomodados – ou mesmo violentados -, brasileiros que vivem na região também têm expressado seu descontentamento com a situação.

O doutorando da Universidade de Barcelona, Gabriel Adams, que vive em Barcelona, diz ser contra a independência da Catalunha, porém entende a vontade da população em votar e considera um absurdo a repressão por parte do Estado espanhol.

Segundo ele, as constantes manifestações incomodam – cortam o trânsito, fecham estradas, fecham universidades, etc –, mas são reflexo das ações espanholas e restam poucas opções pacíficas de resistência.

A resistência pacífica é a chave para a maioria. Diante da ameaça de repressão e violência por parte da Espanha, os catalães esperam resistir apenas com sua vontade e depositando também esperanças nas instituições europeias e num possível receio da Espanha ter suas ações repudiadas pela comunidade internacional.

Na manhã e começo da tarde do dia 29, centenas de tratores tomaram a cidade de Barcelona e outras menores por toda Catalunha, desfilando por ruas e estradas. E foram carinhosamente apelidados de "tanques" da resistência pacífica catalã.

O técnico em eletromecânica Rai Santos se considera um ativista pela Catalunha, tendo sido mesário na consulta anterior – que no entanto não teve efeito vinculante após ter sido proibida pela justiça espanhola. Santos vive em El Vendrell, na província de Tarragona, e diz sentir medo por ver tanta polícia sendo mobilizada no que considera um clima de pré-guerra – mas afirma que irá votar, caso haja realmente uma votação, e será pela independência.

Outros brasileiros entrevistados pela reportagem que preferiram não se identificar também manifestaram medo com o futuro imediato. Alguns sentiam medo por suas próprias situações, como seriam suas vidas caso a Catalunha deixasse de ser parte da Espanha – problemas práticos, burocráticos, relacionado com visto, com emprego, etc-, outros informaram temer a reação espanhola, tanto pela possível violência quanto pelas perdas econômicas em meio a um conflito.

Uma das entrevistadas, que preferiu manter o anonimato, filha de espanhóis que fugiram do País durante o regime de Francisco Franco, e que retornou à Espanha para depois se fixar na Catalunha, disse ser contra a independência. Mas temia genuinamente um governo nas mãos de herdeiros políticos da ditadura, capazes de enviar tropas armadas para impedir uma simples votação na qual, segundo ela, a Espanha provavelmente venceria.

O paulista Felipe de Leonardo, descende de catalães, vive em Barcelona há uma década, tem como companheira uma catalã e está decidido a votar pelo sim. Ele tem se dedicado a divulgar pelas redes sociais os protestos, denúncias e mobilizações na Catalunha, assim como tem buscado traduzir ao português material relacionado ao processo para seus conhecidos no Brasil e também outros brasileiros na Catalunha.

Segundo ele, muitos brasileiros que vivem e mesmo que podem votar no processo não têm demonstrado grande interesse, preferindo ficar à parte e não se envolver. Ele se declara otimista, vê o processo como importante para empoderar o povo, fazê-lo atuar por seus direitos, e que algo de bom pode sair de tudo isso, mesmo que não pelos caminhos esperados pela maioria dos catalães.

Raphael Tsavkko

Quem caminha pelas ruas de Barcelona encontra um cenário que se divide entre o dia a dia de uma cidade normal que não parece à beira de um conflito, e uma cidade extremamente politizada, em suspense, com uma infinidade de cartazes, adesivos e bandeiras alusivas ao processo em meio a mobilizações, manifestações e protestos diários.

Sem dúvida parece algo contraditório, porém nada que envolve o atual referendo é simples de se compreender. São diversos sentimentos, diversas possibilidades e a tentativa de se levar uma vida normal em meio à tensão.

A opinião de muitos, brasileiros e catalães, é a de que a Espanha escolheu o pior caminho possível, deixando o governo catalão de mãos atadas – o referendo tornou-se a única opção viável. Mariano Rajoy, primeiro ministro espanhol, se negou insistentemente a negociar com seu colega catalão Carles Puigdemont, preferindo as ameaças vazias e a política do medo. O resultado dessa queda de braço será conhecido nos próximos dias.

Para uma análise do dia da votação do referendo e possíveis cenário, leia: #HemVotat: A rota para a independência catalã, relato do dia de votação.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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